A meio da tarde, sob um sol escaldante a brilhar no céu tingido de um azul perfeito e inteiramente límpido de nuvens, dirigi-me para a Sanzala que ficava do outro lado da pista de aviação.Era uma grande Sanzala habitada por largas centenas de pessoas da tribo kicongo. Muitas delas diziam-se descendentes dos antigos reis do Congo, eram animistas com as suas crenças ancestrais e assentavam o seu modo de vida nos moldes da cultura tradicional. No entanto devido ao contacto com os brancos e, à influencia das missões católicas começavam a evidenciar alguma tendência para a vida sedentária e para o pequeno comercio. Enfim, começavam a adoptar hábitos da cultura ocidental embora temperados pela tropicalidade. As autoridades militares acusavam-nos de ociosidade, de serem pouco dados ao trabalho e não serem receptivos ás iniciativas governamentais, no entanto toda esta atitude talvez fosse resultante da rejeição ao colonialismo, da decadência da sua cultura tradicional e ainda aos hábitos herdados da extinta monarquia do Congo.
Também se admitia que poderiam ter contactos com o inimigo e com as populações refugiadas na mata e, assim sendo um soldado a passear solitário como era o meu caso teria que ter alguma precaução e não se aventurar muito no interior da Sanzala.Devido á tarde de calor abrasador a maioria das pessoas encontravam-se recolhidas no interior das suas cubatas, construídas em adobe e cobertas com uma grossa camada de capim que alem de as tornarem bastante frescas, também as protegiam das fortes chuvadas que muitas das vezes caiam ao fim de tarde e tudo alagavam.
Demasiado magras, completamente descalças, vestidas de modo tradicional com uns panos muito garridos atados à altura do peito e, tagarelando ruidosamente regressavam das lavras por um carreiro que conduzia á Sanzala, duas jovens mulheres que me miravam curiosas e admiradas por verem um soldado branco que caminhava sozinho àquela hora do dia em que o sol abrasava. Geralmente os soldados quando se deslocavam á sanzala faziam-no em grupo e, nunca sob aquele calor sufocante.
Uma delas transportava à cabeça um feixe de lenha, enquanto que a outra alem de uma criança de meses que trazia ás costas atada com um pano, ainda equilibrava graciosamente sobre a cabeça uma cabaça com água, passaram por mim galhofando e rindo deixando ver os seus belos dentes brancos como a neve.
Entretanto quando me preparava para regressar atravessando de novo a pista, ouço uma voz que gritava.
- Patrão. Patrão. Espera!
Voltei a cabeça na direcção da Sanzala e, qual não é o meu espanto ao reconhecer correndo na minha direcção o meu antigo companheiro de viagem, o meu salvador da terrível diarreia, o nosso ancião de braço ao peito, que ao chegar junto de mim me estendeu a única mão livre dizendo.
- Toma patrão, pendura nos cabeça, dar sorte.
Aceitei de bom agrado o amuleto que me era oferecido. Tratava-se de um minúsculo e encantador crocodilo do tamanho de um polegar, artisticamente esculpido em marfim e preso por um fio de cabedal delicadamente entrançado, que eu imediatamente coloquei ao pescoço e usei durante largo tempo. Até que infelizmente, um dia o perdi ao atravessar a vau um rio tão caudaloso, que a sua forte corrente me dava pelo pescoço e que se dizia estar repleto de crocodilos. Ironicamente ficou a fazer companhia aos seus congéneres de carne e osso.
Manuel Aldeias



