quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CAPÍTULO XX

O amuleto
A meio da tarde, sob um sol escaldante a brilhar no céu tingido de um azul perfeito e inteiramente límpido de nuvens, dirigi-me para a Sanzala que ficava do outro lado da pista de aviação.Era uma grande Sanzala habitada por largas centenas de pessoas da tribo kicongo. Muitas delas diziam-se descendentes dos antigos reis do Congo, eram animistas com as suas crenças ancestrais e assentavam o seu modo de vida nos moldes da cultura tradicional. No entanto devido ao contacto com os brancos e, à influencia das missões católicas começavam a evidenciar alguma tendência para a vida sedentária e para o pequeno comercio. Enfim, começavam a adoptar hábitos da cultura ocidental embora temperados pela tropicalidade. As autoridades militares acusavam-nos de ociosidade, de serem pouco dados ao trabalho e não serem receptivos ás iniciativas governamentais, no entanto toda esta atitude talvez fosse resultante da rejeição ao colonialismo, da decadência da sua cultura tradicional e ainda aos hábitos herdados da extinta monarquia do Congo.
Também se admitia que poderiam ter contactos com o inimigo e com as populações refugiadas na mata e, assim sendo um soldado a passear solitário como era o meu caso teria que ter alguma precaução e não se aventurar muito no interior da Sanzala.
Devido á tarde de calor abrasador a maioria das pessoas encontravam-se recolhidas no interior das suas cubatas, construídas em adobe e cobertas com uma grossa camada de capim que alem de as tornarem bastante frescas, também as protegiam das fortes chuvadas que muitas das vezes caiam ao fim de tarde e tudo alagavam.
Demasiado magras, completamente descalças, vestidas de modo tradicional com uns panos muito garridos atados à altura do peito e, tagarelando ruidosamente regressavam das lavras por um carreiro que conduzia á Sanzala, duas jovens mulheres que me miravam curiosas e admiradas por verem um soldado branco que caminhava sozinho àquela hora do dia em que o sol abrasava. Geralmente os soldados quando se deslocavam á sanzala faziam-no em grupo e, nunca sob aquele calor sufocante.
Uma delas transportava à cabeça um feixe de lenha, enquanto que a outra alem de uma criança de meses que trazia ás costas atada com um pano, ainda equilibrava graciosamente sobre a cabeça uma cabaça com água, passaram por mim galhofando e rindo deixando ver os seus belos dentes brancos como a neve.
Entretanto quando me preparava para regressar atravessando de novo a pista, ouço uma voz que gritava.
- Patrão. Patrão. Espera!
Voltei a cabeça na direcção da Sanzala e, qual não é o meu espanto ao reconhecer correndo na minha direcção o meu antigo companheiro de viagem, o meu salvador da terrível diarreia, o nosso ancião de braço ao peito, que ao chegar junto de mim me estendeu a única mão livre dizendo.
- Toma patrão, pendura nos cabeça, dar sorte.
Aceitei de bom agrado o amuleto que me era oferecido. Tratava-se de um minúsculo e encantador crocodilo do tamanho de um polegar, artisticamente esculpido em marfim e preso por um fio de cabedal delicadamente entrançado, que eu imediatamente coloquei ao pescoço e usei durante largo tempo. Até que infelizmente, um dia o perdi ao atravessar a vau um rio tão caudaloso, que a sua forte corrente me dava pelo pescoço e que se dizia estar repleto de crocodilos. Ironicamente ficou a fazer companhia aos seus congéneres de carne e osso.
Manuel Aldeias

10 comentários:

Nátali Mikaela disse...

Eu já tive um amuleto,sabe?E acredito que ele me tenha feito muito bem,hoje está guardado entre outras recordações.Seu texto fez com que eu me lembrasse disso.

Tenho o maior prazer em ler suas memórias.

Bia Franco disse...

Obrigada amigo!

Continuo acompanhando sua emocionante história. Fatos reais, significativos e cheios de emoção.
Por ser autobiográfico, tem singular importância.

Abraços.

Sonia Pallone disse...

Oi meu querido, agradeço de coração sua visita tão carinhosa. Obrigada pelo rastro de luz que você deixou no meu Solidão de Alma. Bjs.

JOCARLOSBARROSO disse...

Quero em primeiro agradecer por sua importante visita.
Meus antecedentes são portugueses e muito me orgulha. Viemos das terras de Barroso, Atraz dos Montes, daí o sobre nome, e hoje espalhados por todo Brasil, notadamente em Minas Gerais, Rio de Janeiro, no sul e no nordeste brasileiro.
Quanto as suas memorias esta é grande mostra de suas andanças, que por sinal nos apresenta repleta de coisas interessantes e bonitas.
Prazer em te-lo como amigo e blogueiro.
Espero outras visitas suas. Tenho mais dois blogs é só acessar. O endereço você vai encontrar no blog que está seguindo.
Parabéns!

Priscilla Marfori... disse...

Passando e visitando seu cantinho onde me sinto muito avontade, e ler você como exercício diário! :-)
Ah, novidade, fiz um fotolog se quizer conhecer:
http://www.fotolog.com.br/priscillamarfori
Abraços.

Malu disse...

Oi , Manuel !

Continuo a te ler com carinho.




Obrigada pela visita e palavras gentis...

Bjo e uma Noite Cheia de Paz.

manuel aldeias disse...

Priscilla infelizmente ainda não consegui aceder ao seu fotoblog, irei tentar novamente.
No entanto muito obrigado pelo seu encorajador comentário.

Maria disse...

Amigo, estou retribuindo a sua amável visita ao meu humilde cantinho, é sempre uma alegria enorme ver chegar mais um amigo.
"Sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens." Aristóteles
Adorei o seu blog e terei muito prazer em ser sua seguidora.
bjs do tamanho do infinito
Maria

Danilo Sergio Pallar Lemos disse...

Excelente postagem,relatando a cultura e a tradição em forma melodiosa,onde a Africa fica evidente com suas culturas.
www.vivendoteologia.blogspot.com

Manuel disse...

Combatentes, sempre presentes
Nossa pele se engelha,
O cabelo branqueia, os dias convertem-se em anos...
Fomos soldados de Portugal e não,
Soldados colonialistas
Como chama-nos alguns iluminados políticos
As nossas forças e fé não têm idade.
Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.
Enquanto estivermos vivos
Continuam a lutar
Se sentes saudades do passado,
Volta e reencontrar-te com os companheiros
Não vivas de fotografias e nem nos traumas...
Continua e não desistas.
Não deixes que os ossos se oxidam.
Faz que te tenham respeito
Quando não conseguires, junta-te a nós!
Junta-te aos teus velhos camaradas do exército ou da Marinha.

Autores: os dois Combatentes ,Carlos Pombo, Carlos da Silva