quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CAPÍTULO -17

O paludismo

Extremamente pálido, alagado em suores, respiração ofegante e com um braço ligado a um fino tubo, por onde gotejava lentamente um liquido incolor que eu identifiquei como sendo soro fisiológico.
Ali estava postado numa cama da pequena enfermaria militar, corpo inerte, completamente nu, apenas resguardado por uma ponta de lençol que mal lhe cobria as partes mais íntimas. Não o reconheci de imediato, tal o seu débil estado, mas após um olhar mais detalhado, identifiquei-o pelo seu cabelo preto, liso e bastante ralo, com entradas pronunciadas.
- Farssola! Farssola! Acorda sou o Mike! – Bem o chamei, no entanto manteve-se com os olhos semiabertos e sem dar acordo de si. Apenas a sua respiração arquejante me indicava que o meu amigo e camarada de odisseia continuava vivo. Estava um farrapo, uma débil amostra daquele rapaz atrevido, gingão e rufia que comigo viajara desde Luanda.
Após a nossa chegada a São Salvador do Congo, o meu amigo Farsola fora internado na pequena enfermaria do quartel acometido duma grave crise de paludismo com febres altíssimas, vómitos, dores de cabeça e intenso mal-estar, o seu estado era de tal modo confrangedor que o médico militar decidira-se prontamente pelo seu internamento e que lhe fosse de imediato aplicado um balão de soro. Tendo o enfermeiro me confidenciado que se não melhorasse nas próximas 24 horas, seria evacuado para o Hospital Militar de Luanda no avião militar Nordatlas que voava até São Salvador duas vezes por semana.
No entanto passados os primeiros dois dias o seu estado tinha melhorado consideravelmente e o médico decidira retirar-lhe o soro.
O Farssola era um fumador inveterado, chegando a fumar três maços de cigarros por dia. Como estava sem dinheiro e o vicio era muito forte, emprestei-lhe o pouco que ainda me restava com o qual comprou um maço de cigarros e, guardando o restante disse-me.
- Se não te importas, fico com o resto da grana para investir no jogo da lerpa logo á noite com os outros doentes.
- Está bem. Seja como queiras – Respondi contrariado.
Nessa mesma noite antes de me deitar voltei a visitá-lo, não parecia o mesmo, estava  muito bem disposto e  segundo me disse já não tinha arrepios de febre desde o meio da tarde. Com um sorriso irónico contou-me que já tinha ganho alguma grana ao jogo, e procurando por debaixo da almofada, extraiu uma velha carteira de cabedal muito coçado de onde retirou alguns Angolares que estendeu na minha direcção dizendo.
- Toma lá Mike. Para beberes uma bujeca fresca e comprares-me outro maço de tabaco. O restante é para eu voltar a investir amanhã no jogo, se o cabrão do paludismo me deixar.
O paludismo também conhecido por malária, é provocado pela picada da fêmea dum determinado mosquito, que alem de provocar dores de cabeça e náuseas, também se caracteriza por períodos de altas febres alternadas com outros de aparentes melhorias.



2 comentários:

poemasdefran disse...

Duros recuerdos, dolorosos, no todos los que estuvieron contigo pueden contar esas vivencias, pues ya no están, tú amigo hoy eres más fuerte.

AL. disse...

Ola Aldeias; Sem ironia deixa-me referir que quando a fêmea do mosquito pica e nos injecta o viros da malaria, pode até nem ser com mas intenções, mas "coitada", esta fecundada e necessita de proteinas para alimentar os ovos que darão origem a outros mosquitos que transmitirão o paludismo milhões de seres humanos. No nosso tempo, chamavam lhe paludismo, talvez por pudor; eu apanhei-o algures entre Nambu, e Quixico, um dia que fomos remover uma arvore caída na picada, mas foi sem gravidade. Abraço. Continua.