sábado, 18 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DE OUTRORA - II

(Continuação)
Logo após a descarga do correio e de outros bens de primeira necessidade, já com o sol a esconder-se por detrás da linha de horizonte e o céu a matizar-se de belos tons de vermelho e dourado, demos inicio á arriscada viagem de regresso a Nambu.Este trajecto já de si repleto de vários perigos, adivinhava-se ainda mais medonho devido à perigosa e sempre incerta noite.
Para relatar esta tremenda caminhada socorro-me do belo poema do conhecido poeta e deputado Manuel Alegre.

As luzes de Nambuangongo


Brilham as luzes de Nambuangongo

que de longe parecem perto e perto

parecem longe porque são assim as luzes

nos olhos dos soldados quando à noite

vão de Quipedro a Nambuangongo



Não vás pensar que são as luzes da tua aldeia.

Não há lugar em Nambuangongo

para a ternura da tua aldeia.

Brilham na noite camarada são enganos

não vás pensar que são as luzes da tua aldeia.



Amigo escuta se acontecer

teres saudades fecha os teus olhos

não queiras ver as luzes que são longe e perto

e perto e longe não queiras ver

amigo as luzes de Nambuangongo.



Eu sei que custa. Dentro de ti

há outras luzes que são luzes de Nambuangongo.

E a bala espreita eu sei que custa

posso ser eu podes ser tu

entre Quipedro e Nambuangongo.



E há outras luzes noutros caminhos de outras aldeias.

Essas porém não são as luzes que nos esperam.

E não verás rostos amados. E não terás

um fogo ardendo para ti que vens de longe.

Ninguém lá onde brilham as luzes para ninguém.



Brilham na noite camarada e são enganos

ai são enganos essas luzes perto e longe.

Dentro de ti uma candeia. E não verás

rostos amados. Fecha os teus olhos camarada

são só as luzes de Nambuangongo.



Morrer podemos. Mas não chorar. Lágrimas?

Só essas lágrimas que ao longe brilham

lágrimas luzes de Nambuangongo. Choram por nós

brilham por nós mas são enganos camarada

não são as luzes da tua aldeia.


(Continua)....

18 comentários:

Regina Laura disse...

Apesar da tristeza e dos perigos escondidos nas entrelinhas, que lindo esses versos!...

Trazem de forma tão viva tudo o que são e tudo o que jamais poderão ser as luzes de Nambuangongo.

Lindo!
Beijos

Dora Regina disse...

Lindo esses versos...
Convido-o a conhecer o blog de um amigo muito querido, creio que irás gostar...
http://congulolundo.blogspot.com
Um grande abraço!

Carla Ceres disse...

Belos versos! Que venha o Capítulo III!
Abraço!

Maria disse...

Lindos versos amigo. Aproveito para desejar a si e à sua família um Natal muito Feliz pleno de alegria, paz e amor.

“A Melhor mensagem de Natal é aquela que sai em silêncio de nossos corações e aquece com ternura os corações daqueles que nos acompanham em nossa caminhada pela vida.” (desconhecido)

Que Deus ilumine Hoje e sempre o seu caminho.

Beijinhos
Maria

Malu disse...

Manuelo,


Além da narrativa , surpreendeu-me
a beleza desses versos ...


Bjo e uma Noite de Paz.

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuel!

Era a realidade desagradável e pesada de quem então andava por terras do Ultramar: Também lá havia aldeias, é verdade, só que não eram as nossas, nem lá existia quem nos esperasse e quisesse bem - só nas luzes pareciam iguais ...

Abraço amigo. Feliz natal; Boas Festas.
Vitor

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Meu bom amigo, é sempre com muito carinho que venho aqui ler suas postagens, e, desta vez com um lindo e triste poema há mistura. Não deixe nunca de nos mostrar a bravura dos nossos grande heróis que tanto lutaram por um País que foi tão mal entregue. E onde os nossos Portugueses guerreiros e de tanta bravura ficaram a fazer tanta falta, para guiar os pobres coitados que ali ficaram e ficam abandonados há sua sorte, e bem triste.
Beijinhos de luzes de natal, que tenha junto das suas amadas mulheres da sua vida um Santo natal.

Janaina Cruz disse...

As luzes de Nambuangongo que se confundiam com os olhos dos soldados, quanta beleza contada nas palavras da poesia, podem morrer os soldados, pode o lugar ser bombardeado, mas suas luzes hão de existir para sempre nas palavras do poeta...
Ótimos festejos meu amigo

edumanes disse...

Não feches os olhos camarada,
Como alguém te aconselhou?
Na tropa fez parte da oficialada,
Contra nós em Argel, ele lutou!

Carlos Albuquerque disse...

Continuo a seguir com interesse as suas "Memórias de Outrora".
Vivi muito de parecido com o que elas dizem...
Excelente a ideia de aqui colocar o poema de Manuel Alegre.
Desejo-lhe, meu caro, um Bom Natal e um Novo Ano com tudo de bom.
Abraço

Priscilla Marfori... disse...

Tenha um MARAVILHOSO Natal...

Você merece!

B-Jos.

=)

Anónimo disse...
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manuel aldeias disse...

A todos os meus leitores quero desejar um belo e santo Natal, extensivo aos respetivos familiares.
Tambem um carinho especial para aqueles que com os seus comentarios têm comtribuido para que cada vez esteja mais motivado na continuação da passagem à escrita das minhas memórias, há tanto tempo adormecidas
Um abç
Manuel Aldeias

Graça Pereira disse...

Continuo a seguir as tuas crónicas que me encantam e os versos de Manuel Alegre com os trocadilhos a "esconderem" a realidade espalham luzes que são longe e perto..."não queiras ver amigo as luzes da Nambuangongo"
Um Natal Feliz.
Beijo
Graça

ARTE E VIDA disse...

Que os sinos do Natal sejam mensageiros de Boas Festas, e que o Ano Novo seja repleto de realizações. Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

Malu disse...

Manuel,


Passando pra te reler e
agradecer o carinho de sua visita.


Desde já , Feliz 2011 !!!


BjO.

:)

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Amigo venho desejar um feliz ano novo, cheio de luz paz e muito amor.
Que 2011 seja um ano bem repleto de boas novas.
Beijinhos de luz e paz para todos vós.

Anónimo disse...

Estou certo de que a maioria dos que passaram por terras dos DEMBOS, Nambuangongo nas palavras de M.A. recordaram as suas experiências de vida no pior dos cenários, de guerra, de isolamento...
Um abraço
Adriano Bastos