quarta-feira, 24 de março de 2010

A minha chegada a Luanda

Recordando a minha chegada a Luanda no já distante ano de 1972, transcrevo seguidamente o primeiro capítulo de " A minha odisseia por terras Angolanas".
 Ao cabo de oito horas e trinta minutos de voo num dos dois Boeing 707 dos (TAM) Transportes Aéreos Militares, chego ao aeroporto de Luanda. Ao sair do avião tive o primeiro embate ao receber uma lufada de ar quente na cara, com uma temperatura superior a trinta graus e uma humidade sufocante, estava definitivamente em África.
Ao contrário da maioria dos soldados que viajavam enquadrados em companhias juntamente com os seus restantes camaradas, eu viajava só, vinha em rendição individual, isto é vinha substituir uma baixa em combate.
Devido ao motivo de viajar sozinho, encontrava-se á minha espera um jipe com o respectivo condutor que me transportaria até á (CMR 113) Companhia Metropolitana de Recompletamento. Esta companhia tinha sido criada exclusivamente para albergar o pessoal que chegava da Metrópole em rendição individual tal como eu e, que por aqui permanecia enquanto aguardava transporte para os vários aquartelamentos no mato.
A CMR 113 encontrava-se instalada no (RI 20) Regimento de Infantaria de Luanda, um grande quartel situado na periferia da cidade que era guarnecido por soldados do recrutamento local.
Três dias após a minha chegada a Luanda sou acometido por febres altas e dores de garganta, pelo que dou entrada na enfermaria do quartel onde permaneço internado durante cinco dias. A minha chegada a Angola estava a começar da pior maneira, no entanto a convalescença foi rápida e aproveitei a minha curta estadia de cerca de três semanas em Luanda, para conhecer esta maravilhosa e admirável cidade.
Luanda era efectivamente uma cidade majestosa cruzada por largas e belas avenidas, nas principais praças e cruzamentos o intenso transito era regulado por semáforos e polícias sinaleiros, estava deslumbrado com a sua beleza e grandiosidade.
A Avenida Marginal era fascinante assim como a admirável Ilha do Cabo conhecida por Ilha de Luanda com praias de águas cristalinas e temperaturas tépidas, encontrava-se ligada á cidade por uma ponte em betão.
As grandes cervejarias da baixa da cidade achavam-se repletas de soldados, que se encontravam em trânsito ou faziam parte da guarnição dos vários quartéis da cidade, aqui a cerveja que corria a rodos tinha preços acessíveis assim como o marisco.
Diariamente deslocava-me de machibombo (autocarro) até á baixa, mais precisamente ao quarteirão ocupado pelo restaurante Pólo Norte, a cervejaria Portugália e as pastelarias Gelo e Versalhes. Esta zona da baixa da cidade era um roteiro obrigatório para quem chegava ou partia de Luanda e portanto um local onde se podiam encontrar amigos e antigos camaradas de escola e do trabalho. Alguns deles já de volta a casa gastavam os últimos Escudos Angolanos na compra de peças de artesanato e outras recordações para trazerem de regresso á Metrópole.
Tento informar-me junto deles sobre a situação militar em Nambuangongo, local mítico no Norte de Angola para onde eu aguardava transporte afim de render um soldado de Transmissões caído em combate. Só alguns dias após a minha chegada a Luanda é que fora informado do local e da companhia para onde seria enviado.

Naquela época a guerra que travávamos nas três províncias ultramarinas (Angola, Moçambique e Guiné) era assunto tabu e a escassa informação que se tinha na Metrópole sobre a guerra colonial era controlada pala censura que transmitia a ideia de que não existia guerra em África. As mortes de soldados eram noticiadas como sendo vítimas de acidentes, e o que acontecia na longínqua e inóspita selva não interessava á população civil de Luanda ou da Metrópole. No entanto as informações que ia colhendo eram totalmente contrárias, eram-me relatados episódios de intensa actividade guerrilheira no Leste e, no norte de Angola principalmente na região dos Dembos onde se situava Nambuangongo.
Relatavam-me os meus amigos que o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) tinha instalado o Quartel-general da sua 1ª Região Militar na densa e cerrada mata do Canacassala a poucos kms de Nambuangongo, local onde as NT não conseguiam entrar. Também me apresentaram um homem bastante experiente nestas andanças da guerra, pertencia a um grupo de milícias conhecidos por OPVDCA (Organização Provincial de Defesa Civil de Angola), que tinha chegado há poucos dias do Onzo uma antiga roça de café perto de Nambuangongo cuja segurança era mantida por aquela força, este homem de cerca de quarenta anos, de raça branca mas de cor muito morena, pintou-me um quadro bastante negro e tenebroso daquela zona, na altura pensei que talvez exagerasse nas suas descrições, no entanto o medo e a incerteza começavam a tomar lugar na minha cabeça.
No contacto que procurava manter diariamente com os militares chegados do mato, começava a inteirar-me da enorme magnitude e horrores desta guerra esquecida. Na véspera da minha partida para o mato encontro-me com um soldado, que me relata que a sua companhia estacionada perto da fronteira Norte em Buela, próximo de São Salvador do Congo, tinha sofrido no anterior mês de Junho de 1972 uma tremenda emboscada, que causara sete mortos e treze feridos, entre os quais ele próprio e, que agora ao fim de vários dias de internamento no Hospital Militar de Luanda se encontrava a aguardar transporte para regressar de novo á sua companhia e ás agruras da guerra, estava bastante traumatizado psicologicamente e eu ouviu-o com atenção durante várias horas em que ele me caracterizou bastante bem o ambiente de incerteza, sofrimento e solidão em que viviam os nossos solados espalhados por estes lugares esquecidos da selva Angolana.

7 comentários:

José Andrade disse...

Estive também no Onzo em 1973, cerca de um ano.
estive na altura em que um soldado matou um outro Colega a tiro e fui eu que o levei preso a Luanda com mais um Soldado.
Depois perdi o MVL e vim com o meu carro descapotável até ao Onzo.

Cumprimentos

José alirio Lopes Andrade

Joaquim Grilo disse...

Estava em São Salvador do Congo,no PAD3070,e fui eu que me desloquei a uma Aldeia da Calambata,onde fiz o reconhecimento dos corpos dessa emboscada.Foi realizada uma Missa de Corpo Presente pelo na altura Capelão João Marado,seguindo os corpos para S.S. do Congo,onde soldei as urnas.
Lembro na altura de um dos soldados mortos um ser de Sesimbra,de nome Cardim,jogador do Sesimbra na altura bem posicionado na segunda divisão Nacional.

caçador disse...

eu conheci muito bem sao salvador do congo mas nao vejo nada escrito sobre canga sobre mepozo sobre mepala sobre lufico sobre cabeço do top e claro em noqui eu conheci tudo isso estivemos lá 19 meses sem nada acontecer foi do meio de maio de 1965 a 3 ou 4 de dezembro de 1966 a 18 de dezembro de 1966 os camaradas que nos foram render foram emboscados a onde morreram 18 homens nao sei o motivo dessa desgraça mas calculo como foi a que nossos camaradas que nos renderam eles já saiam apenas com uma viatura num lugar muito bravo pois o in.passava ali todo o dia ai o in. notou e atacou e lá foram 18 homens embora e nós nunca saiamos com menos de 4 viaturas e distantes uns dos outros uns 50 a 70 metros para que nao caiçemos todos na zona de morte e in. nada nos fez foi sorte talvez e fui

manuel aldeias disse...

Tambem falo sobre ã região de São Salvador, onde terminei a minha comissão já depois de 25 de Abril de 1974, é só clikar em:http://manuelaldeias.blogspot.com/2010/04/tambem-estive-na-fronteira-norte.html

caçador disse...

eu sei senhor manuel aldeias na época que eu estive nesses lugares que sitei eu estive de 65 até quase o final de 1966 agora muitos senhores falam que sao salvador do congo era colado ao congo nao a verdade luvo sim e noqui ainda mais em nóqui que era colado mesmo tinha lá uns arames caidos no chao e nada mais no luvo ainda tinha uma ponte.posso lhe falar nunca vi um guarda do congo perto da fronteira vi sim o sr mobutu ir almoçar em noqui muita vez e levava muita gente com ele chegavam naqueles carros impala vermelhos e ficavam lá a tarde toda só tomando vinho eu achava estranho sei lá se estava lá também holden roberto e eles eram cunhados segundo falavam por lá se era verdade nao sei e saúde

EX-COMBATENTES disse...

Estive em Nambuangongo em 1965 era do Pelotão Apoio Directo 1048,era 1ºcabo mecânico e fui condutor do Pronto socorro gostava de encontrar os meus camaradas,o meu contactos,Fernando Azevedo 224893273 +965358229 +fcjazevedo50@gmail.com

Joaquim Carvalho disse...

Eu estive em Nambuangongo de Julho de 71 a Outubro de 72 e nessa altura o Onzo n

ão era uma ex. roça estava a ser explorada.