sexta-feira, 12 de março de 2010

A minha primeira viagem pela selva Angolana

MIKE
Ás três horas da manhã já eu me encontrava ao portão da M. M.(Manutenção militar),
ataviado com um cinturão e respectivos carregadores, arma G3,um saco verde enorme que fazia de
mochila e que continha dentro tudo o que eu fisicamente possuía naquele momento: esferográficas,
cartas, fotos e pouco mais.
Todo este material era completado por um par de botas reluzentes e um camuflado ainda mais
brilhante e que teimava em não se adaptar ao corpo de tão novo que era e que os “velhinhos”
reconheciam ao longe como sendo de um Mike (maçarico), até o próprio boné de tanta goma que tinha
ficava encarrapitado na cabeça deixando ver a pele branca da cara, pele inconfundível de um Mike,
que mesmo quinze dias de licença de mobilização passados nas praias da Caparica, não conseguiram
disfarçar e fazer passar à cor bronzeada que caracterizava um velhinho das matas de Angola.
O M.V.L. (Movimento de Viaturas Logísticas) partiu às 4 horas da manhã, a azáfama foi
grande durante toda a noite e provavelmente também o havia sido nos últimos dias.
Ultimaram-se os últimos preparativos para a partida dessa imensa coluna de dezenas e dezenas
de camiões, uns civis fretados pelo exército, outros militares que partiam habitualmente de 15 em 15
dias, levando o apoio logístico, rumo ao norte, pela chamada “estrada do café ”, que se internava pelos
“Dembos” até à capital da guerra, “Nambuangongo”, onde esta enorme serpente se dividia, seguindo
uma coluna mais para norte, pelo interior da densa selva até “Quipedro” e outra em direcção ao pôrdo-
sol até “Zala”, percorrendo a famigerada picada, que passava pela temível e de má memoria curva
do “bico de pato”.
As viaturas iam ficando pelos respectivos aquartelamentos onde eram descarregadas e esperavam
novamente pêlo regresso da coluna que ia engrossando de novo de volta a Luanda.
Dirigi-me ao comandante da escolta, dizendo-lhe que tinha ordens para me apresentar em
Nambuangongo, este apontando com o dedo, disse
- Pode-se ir acomodando naquela “berliett” - dirigi- me para lá.
Sentado ao lado do condutor encontrava-se um soldado armado até aos dentes. Ele era só fitas
de balas e granadas penduradas por todo o corpo, pensei para comigo, aqui devo ir seguro, disse- lhe
- Bom dia.
O condutor mandou-me seguir para a caixa
de carga, lá dentro já se encontravam duas mulheres
da tribo “Quicongo”, cada uma delas continha uma
trouxa feita de pano muito colorido igual ao que
habitualmente este tipo de mulheres enrolava na
cintura até à altura dos seios.
Seguia também connosco um soldado, o
completo oposto de mim, pensei para comigo, um
“velhinho” pela certa.
Envergava um camuflado velho, cossado e
algo rasgado, com um forte e grande bigode preto,
estava deitado com a cabeça em cima do seu saco,
igual ao meu, só que muito mais velho e sujo,
cinturão com 4 carregadores e a arma G3 que jazia
ao seu lado, voltei a dizer bom dia, mas ele fingindo
passar pelas brasas nem me respondeu.
Os” hunimoges” com a tropa da protecção
começaram a tomar posição, também chegaram
alguns “chaimites”dos “Dragões” que se distribuíram estrategicamente pela coluna.
Ás 4 horas em ponto aquela imensa fila de viaturas pôs-se em movimento. O meu companheiro
de viajem abriu os olhos, mirou-me e voltou a fechá- los, eu pensei, já lhe cheirou que eu sou um”
Mike”.
Rapidamente saímos de Luanda, depois de uma breve paragem no “controle”, assim se
chamavam as entradas e saídas de Luanda, que nessa altura se encontrava cercada por uma rede com
arame farpado.
Continuamos a rodar bem até para lá do “Caxito” onde terminou a estrada alcatroada e começou a
picada, os solavancos da camioneta atiravam com o meu companheiro de um lado para o outro o que o
obrigou a sentar-se, abriu novamente os olhos e mirou tudo à sua volta, pegou na G3, passou-lhe um
pano, puxou a culatra duas ou três vezes para se certificar que estava em condições, meteu uma bala na
câmara, colocou a patilha em posição de segurança e apertou-a entre os braços contra o peito
mantendo o cano virado para a picada.
As horas passaram, pelo meio da manhã, depois de algumas paragens técnicas para que a
coluna não se desmembra-se muito, o meu companheiro abriu a boca pela primeira vez e dirigindo-se
às mulheres, que provavelmente não o entendiam.
- Estão a ver estes dois grandes “embondeiros”, são conhecidos como as portas da guerra,
daqui para a frente, todo o cuidado é pouco. Compreendi imediatamente que a mensagem era para
mim.
A partir desse momento fiquei a magicar naquelas palavras e nessas duas enormes árvores.
Afinal eu estava a entrar nas portas da guerra. Estávamos a 6 de Agosto de 1972 dia do aniversário em
que fora lançada há vinte e sete anos atrás, a primeira bomba atómica para terminar com a guerra entre
Americanos e Japoneses, a “litle boy”.
E que guerra era esta para a qual eu me dirigia, que até tinha uma capital?
Talvez, fosse uma filha dessa guerra. É que às vezes as guerras maiores deixam filhas mais
pequenas…a minha mente estava num turbilhão de pensamentos, sem respostas.
Desperto destes pensamentos com um salto enorme da “Berliet”num dos vários buracos da
picada, que me fez saltar das mãos a G3,que eu apertava com imensa força. Era como se eu anda-se à
deriva no alto mar e a G3 fosse a minha única bóia de salvação
. Nesse momento, oiço a voz do meu cicerone, que continuava a narrar os locais por onde
íamos passando, sempre sem olhar para mim, mas eu sabia que era para mim que ele falava. Não havia
dúvida, ele estava a gozar a situação metendo-me medo, e estava a consegui- lo:
- Esta é a curva “mata alferes” – e contou – os turras deixaram uma carta no meio da picada, o
que levou a coluna a parar, um soldado recolheu a carta e entregou-a ao seu superior. No cimo daquele
morro encontrava-se um atirador furtivo que disparou certeiramente, matando de imediato aquele que
tinha recebido a carta.
Eu acabava de ouvir a história que dava o nome à curva por onde naquele momento passava.
Passados alguns momentos ouvem-se tiros na frente da coluna e o meu cicerone comenta:
- Não há problemas, são só o raio dos “Mikes”que nos vão a proteger, a fazer fogo de reconhecimento.
Mas os turras são espertos e mesmo que lá estejam emboscados não respondem, portanto, quando
passarmos por debaixo do morro, temos que estar alerta. - E continuou a falar – aqui nesta curva o meu
grupo de combate, que na altura fazia protecção ao M. V. L. teve duas baixas e eu fiquei com este
estilhaço no joelho, os gajos no Hospital Militar de Luanda não o quiseram tirar.
Transpirava por todo o lado, a humidade era muita, o pó levantado pelas viaturas colava-se por
todo o corpo e por tudo, as mãos transpiravam e tentava com elas manter limpa de pó a zona da culatra
da G3, o camuflado esse está agora mais teso, cheio de pó e encharcado no meu suor pegajoso.Penso,
se o tira-se nesse momento já seria capaz de se manter sozinho em pé.
O dia ia passando e a paisagem luxuriante e exuberante que vislumbrava era a da selva em toda
a sua grandeza e plenitude, por vezes passávamos por florestas completamente fechadas e quase
impenetráveis, em que a estreita picada parecia uma linha de comboio a entrar num apertado túnel,
com os ramos das árvores a bater-nos na cara, por outras, saíamos desse labirinto babilónico e
contornávamos morros carecas assim designados por serem desprovidos de arvoredo e repletos de
capim, nalguns sítios o capim era tão alto que quase atravessava a picada.
Entretanto o dia acabou por dar lugar à noite, naquelas latitudes o anoitecer é muito rápido e a
escuridão é como breu, medonha e horrorosa para um pobre “Mike.”.
Deu-se então uma nova paragem das viaturas
-Talvez seja alguma avaria ou pior – alvitra o meu companheiro – alguma “abatiz” (árvore
grossa cortada pêlo I.N. e atravessada na picada,). Estes motoristas são teimosos, sabem que têm que
apagar as luzes, mas não fazem caso, se os turras nos descobrem nesta medonha mata infernal,
estamos feitos, enqua nto eu tiver balas a mim não me levam eles.
Mais algumas pequenas paragens e de repente, do meio do nada, aparecem algumas luzes
mortiças em circulo
-Chegamos à “Beira Baixa” – esclarece o cicerone – eu fico por aqui, mas tenham cuidado com
a curva da morte, se fosse eu fazia-a a pé, sempre a pisar o rodado dos camiões por causa de alguma
mina – dito isto saltou com o saco ás costas e a G3 na mão dirigindo-se para dentro do recinto vedado
com arame farpado do aquartelamento.
As duas mulheres saíram umas dezenas de Kms mais á frente no “Onzo”.
Dei então por mim sozinho no estrado da “berliet”, só nos bancos da frente seguiam o
motorista e o tal soldado fortemente armado.
Então o medo que eu sentia transformou-se em pânico, continuei a transpirar abundantemente
passando continuamente as mãos molhadas pelo camuflado cheio de pó, suado e pegajoso.
Nambuangongo nunca mais chegava.
Enchi-me então decoragem e cheguei-me à frente da “berliet”, bati nas costas do soldado que   estava fortemente armado e humildemente  perguntei-lhe- Ainda falta muito para  chegarmos aNambuangongo? Este olhou-me de alto a baixo e gritou para o motorista-Olha pá! Temos aqui um“Mike” – o condutor sorriu e convidou-me a  sentar – me junto deles, jáque o assento corrido
  onde se encontravam dava para o condutor mais dois passageiros, claro que não me fiz de rogado, sentar-me com eles era precisamente o que naquele momento eu mais desejava.
Estava eu a acabar de me instalar quando o motorista aponta para umas luzinhas, lá num alto,
muito ténues a alguns Kms
-Ali está Nambuangongo, a Capital da Guerra, vamos poder descansar umas horas debaixo da
viatura e lá para o meio da manhã seguimos para Zala que fica a mais uns oitenta Kms.
Para mim, tinha chegado ao fim esta primeira viajem pelas tenebrosas matas Angolanas, de
cerca de 200Kms e que durara mais de 20 horas a uma media de cerca de 10Kms horários.
Á entrada de Nambuangongo, perto do posto de rádio, tendo ao lado esquerdo a capela, saltei da
“berliet”com o saco às costas e a G3 na mão.
E para meu grande espanto, os meus futuros colegas de transmissões, que já tinham recebido uma
mensagem de rádio a comunicar a minha chegada, para substituir uma baixa que tinham sofrido pouco
tempo antes, mas que nunca me tinham visto, reconheceram-me logo entre todos os soldados que
assim como eu também saltavam das viaturas. Não havia dúvidas, eu era um Mike, em toda a
plenitude da palavra.
Este episódio passou e agora eu já não devo parecer aquele “Mike”que saiu numa madrugada
de Luanda, com botas engraxadas e camuflado reluzente, no entanto, durante a minha permanência
Nambuangongo
nesta companhia que por tantas e tantas aventuras e desventuras passamos, eu fiquei sempre conhecido
como o Mike.
M. ALDEIAS
manuelaldeias@netvisao.pt

1 comentário:

rita.aldeias disse...

Sempre um prazer reler este texto...um dos meus preferidos!