sexta-feira, 12 de março de 2010

Calcorreando a savana


Após a força em que estava integrado ter sido considerada inoperacional, o que se deveu a diversas baixas e traumas sofridos na guerra no norte, tenho o privilégio de conhecer o extremo sul de Angola a cerca de 1600Kms de Luanda, junto à fronteira com a actual Namíbia, muito distante da guerra. Uma região de savana com um clima totalmente diferente, influenciado pelo vizinho deserto do Calaari, seco e árido, com temperaturas muito elevadas durante o dia e bastante baixas à noite.

Eu e o meu grupo estávamos colocados junto da ponte sobre o rio Cuvelai, um afluente da margem sul do grande rio Cunene, instalados em tendas de campanha a 200kms da pequena Vila Pereira De Eça, actual Ondjiva, na época capital da província do Cunene.
Naquela zona eram raros os aglomerados populacionais, tratava-se de uma imensa região pouco habitada, no entanto e à semelhança da restante Angola, era composta por inúmeras etnias e subgrupos étnicos todos pertencentes ao grande grupo Bantu, com afinidades linguísticas entre si.

Naquela zona a etnia prevalecente era constituída pelos cuanhamas, indivíduos de estatura bastante elevada e criadores de gado que se dedicavam à agricultura de subsistência e sobretudo ao pastoreio de gado bovino. Os cuanhamas tinham uma forte vocação guerreira, realizando ainda no princípio do século passado expedições de guerrilha e de saque sobre os seus vizinhos sobretudo os humbes e os ganguelas, espalhando o terror e a morte, capturando escravos e gado.
Todas estas e outras abomináveis histórias de horror eram-me contadas pelos mais velhos desta tribo, que eu ouvia com interesse apesar das dificultadas de comunicação, mas que não evitavam a boa relação que sempre procurei manter com estes povos.
Por sua vez a margem do grande rio Cunene era habitada pelos muilas, também eles criadores de gado bovino.
A característica que mais me marcou nas mulheres muilas foi observar de perto os seus penteados executados à base de estrume de vaca, fazendo-me recordar os elaborados penteados efectuados com terra vermelha e gorduras vegetais usados pelas mulheres Cokwe habitantes da Lunda Norte e que eu tive oportunidade de observar aquando das minhas longas viagens por todo o norte Angolano ao serviço da Força de Intervenção.
Dispersos pelo vasto sertão estes povos levavam uma vida bastante carenciada e primitiva, passando por necessidades e privações de toda a ordem. Estávamos no princípio dos anos setenta do século XX e como se deve compreender não existiam por estas isoladas e remotas paragens qualquer tipo de assistência medicamentosa, escolar ou de qualquer outra ordem.
Estas tribos habitavam dispersas pela vasta savana em quimbos familiares de construção muito simples, que eram constituídos por algumas palhotas delimitadas em círculo por uma alta cerca de paus a pique, onde também eram abrigados durante a noite os animais domésticos que assim ficavam mais a salvo dos leões e de outros animais selvagens que dividiam a savana com estas tribos.
Em volta destes quimbos era frequente verem-se alguns terrenos de cultívo onde praticavam uma parca agricultura de subsistência à base de uma variedade de milho-miúdo a que chamavam massango, estas pobres culturas eram por vezes invadidas pelos elefantes principalmente durante a noite.
Certa vez quando de uma das minhas habituais deslocações em patrulha auto, que geralmente tinham a duração de quatro a cinco dias e em que eu dormia debaixo da viatura militar, cheguei a assistir apavorado a uma destas incursões em que os indígenas faziam um imenso banzé com tambores e ostentavam tochas acesas para afugentarem os esfomeados animais, que respondiam com urros intimidantes e ensurdecedores ecoando pela noite escura da savana.
Também tive oportunidade de contactar com os Bosquimanes, os célebres intervenientes do conhecido filme “Os deuses devem estar loucos”, e que em Angola são conhecidos por Mukankalas ou Vassequeles, estes povos nómadas eram vítimas de segregacionismo pelos seus vizinhos negros que os perseguiam acusando-os de, entre outros factos, destes lhes roubarem o gado.
Estes pequenos e inofensivos nómadas vivem da caça e da recolha de raízes, mel e insectos. São de baixa estatura, muito vulneráveis, de cor amarelada, e nádegas proeminentes que segundo se diz constituem reservas de gordura para as épocas de escassez.
Uma das suas características que mais me chamou a atenção foi a sua forma peculiar e estranha de comunicação, que consiste numa grande variedade de sons com estalidos da língua, pelo que ouvia contar, esta comunicação era tão complexa que os outros povos das redondeza também eles exímios em falar as línguas vizinhas, não conseguiam apreender a forma de comunicar destes pequenos nómadas.
Recentemente li num jornal Angolano que estes povos estão em perigo de extinção em Angola, na província da Huila há apenas cerca de dez anos existia uma população de alguns milhares e agora estão apenas contabilizados perto de 200 indivíduos, os quais estão a ser alvos de uma ampla campanha de ajuda alimentar e medicamentosa por parte de algumas ONG, relata-se também que a diminuição dos seus terrenos ancestrais de caça, aliadas às doenças, fome e outras carências são as principais causas da brutal diminuição deste característico e emblemático povo que se julga ser o mais antigo de África.
Durante os nossos patrulhamentos pela imensa e remota savana levávamos como guia e interprete o Luandino, homem da tribo Cuamato, de idade indefinida, era bastante magro e de pequena estatura idêntica aos Bosquimanes, mas sem aquelas feições características, e de pele bastante mais negra, com uns dentes brancos de neve que mostrava generosamente nos seus rasgados sorrisos.
Entendia os diversos dialectos falados nesta vasta região e afirmava também falar Alemão. Órfão de pais desde muito pequeno, tinha sido recolhido numa missão Alemã, onde os missionários apenas falavam Alemão e poucas palavras de um dialecto que ele não conseguia precisar, era um exímio poliglota este nosso cicerone.
Ao fim de poucos anos passados na missão, fugiu da disciplina imposta pelos alemães e regressou à vida dura e penosa da sua tribo, mas também à ambicionada liberdade, construiu um pequeno quimbo onde vivia com as suas três mulheres e nove filhos.
Desde a nossa chegada a este paraíso vem-nos prestando os valiosos serviços de guia-intérprete, aproveitando para recolher todos os enlatados que nós rejeitamos para levar para os seus filhos.
Devido ao facto de eu transportar sempre junto a mim o rádio militar Racal TR28, o Luandino tratava-me carinhosamente por: Patrão Telefonia e cedo se apercebeu do meu interesse e fascínio por esta região virgem e pelos seus incrédulos habitantes, alguns deles foi com a nossa chegada que viram pela primeira vez homens brancos e vestidos de igual, montados em potentes cavalos berrantes. Luandino encarregou-se desde logo de satisfazer a minha curiosidade. Conversávamos imenso e fiquei com a ideia de que no final ele já se exprimia muito melhor em português, reciprocamente fui aprendendo várias palavras locais das quais ainda hoje recordo algumas.
Algum tempo após a minha chegada a estes longínquos lugares parto em patrulha auto num veículo militar de todo-o – terreno do tipo hunimog, após uma extenuante viagem de três dias pelos trilhos deixados pelos madeireiros e após o final destes, através das longas chanas sem arvoredo, apenas cobertas de um reles capim ressequido. Era já de noite quando chegamos a um modesto e isolado quimbo unifamiliar.
Extenuado e coberto de pó pegajoso preparava-me para passar a noite debaixo da viatura que me protegeria um pouco da friorenta humidade nocturna, quando repentinamente sou interrompido pelo Luandino que me diz:
- Patrão Telefonia, homem do quimbo quer que tropa com suas espingardas mate leão que anda comendo vacas.
-O que dizes? Ele pensa que somos caçadores? Retorqui!
Então o Luandino explicou-me que alguns leões quando chegam a velhos e não podem caçar, costumam atacar o gado, principalmente durante a noite, chegando a saltar as paliçadas.
Ficamos atemorizados, estávamos armados sim! Mas não com armas próprias para caça, e sem conhecimentos para enfrentar leões encurralados e na espessa escuridão da desconhecida savana.
Apavorado resolvi pernoitar no interior do quimbo, com o rádio e a arma G 3 a fazerem de almofada, pedindo à Virgem Maria que o leão não aparecesse. A longa noite, de perto de doze horas, foi muito fria, interrompida inúmeras vezes pelo gargarejar assustador e sinistro das irritantes hienas. A Virgem mais uma vez esteve ao meu lado e os raios de Sol finalmente começaram a penetrar a escuridão da infindável savana, sem sinal dos temidos e esfomeados leões.

7 comentários:

Amora- disse...

Amigo Manuel é uma maravilha ler as tuas memórias dos tempos da guerra colonial. Fazes bem em pormenorizar, porque dessa maneira dá-nos a sensação que estamos lá a viver a situação: os vários tipos de paisagem, os sons ambientes, os vários povos e os seus costumes, os animais, etc. Todas essas descrições ajudam-nos a ter uma ideia mais real do cenário.
Pessoalmente que passo a vida a ler livros, posso dizer-te com toda a sinceridade que escreves muito bem. Há pessoa que não gostam das pormenorizações e das adjectivações das situações, mas há outras como eu que gostam. Felizmente há gostos para tudo, quem gosta, gosta, quem não gosta temos pena.
Fazes bem tirar cá para fora as tuas vivencias do tempo da guerra. Dá-las a conhecer àqueles que não passaram por ela, como eu, que sou da mesma geração, e àqueles das gerações actuais que não sabem nada, nem fazem ideia do que foram esses tempos.
Além disso os cenários e as situações da guerra deixam marcas nas pessoas. O tirar cá para fora tudo isso, é uma forma de aliviar. Acaba por ser dois em um, como se costuma dizer.
Amigo Manuel espero que continues a proporcionar-nos o prazer da tua escrita sobre esse tema, ou, outro qualquer.
Um grande abraço.

garcez1ck disse...

Caro Camarada Manuel,
No meu tempo de Militar
a palavra "Mike" queria dizer "morto" os n ovos
quando chegavam eram "maça-
ricos. Da bela "viagem" que
fez esqueceu-se que a partir
do Caxito havia Quicabo, zona montanhoza, Belacende
Beira Baixa Onzo e depois
a celebre Mata das Bananei-ras
isto é, antes de subir
para Nambuangongo(fiz
varias operaçoes nesta
zona, zona que no meu tempo era considerada
a pior Zona, e o Zala
zona de castigo, antes
de chegar ao Zala havia
as Zonas:CAMIONETA VER-
MELHA::MATA DO CAFE
MATA DO MADUREIRA::CASA
BRANCA E ZALA e a pior
Zona dentro de isto tudo
era VILA PIMPA e o seu
rio dos mortos.
Nao era facil a vida
nesta zona, mesmo para
voces os " Maçaricos",
infelizmente vi varios
"Mikes" a serem enterra-
dos ao lado da Capela.
No entanto gosto da ma-
neira como narra esse belo Pais que é ANGOLA;
Um abraço
PEREIRA GARCEZ

A.M.Patricio disse...

ESTE ALDEIAS E MESMO UMA ENCICLOPEDIA.
A batalha no Canacassala tambem as forças do meu batalhao la estiveram.
Os obuses do quartel do ONZO a malta no meio e aquela noite infernal cheia de fogo de "artificio".
Chamem-me maluco ou o que quiserem mas aquilo era guerra a serio e hoje passados 36 anos ninguem se lembra do que nessa altura sofremos e muito menos do que estamos a sofrer agora.
Na altura nao dormiamos para defender o País hoje nao conseguimos dormir porque na realidade ainda lá estamos.
ATÉ QUANDO?
.....
Obrigado meu amigo Aldeias.
Aderito Patricio
a1323@sapo.pt

jtdomingues disse...

ESTOU ATENTO.Continua.Um ALFA bem ALFA do amigo, João.

António Gil disse...

Apesar de não te conhecer pessoalmente, é uma delícia ler o que consegues transpor para o papel (neste caso para o Blog!).
Através da Net temos mantido alguns contactos, pois temos uma coisa em comum: o Luvo, a Canga e a Mamarrosa.

Pertenci à CCAÇ3372.

Um abraço do

Pimentel

Mário Silva disse...

Amigo Aldeias, não posso dizer muito sobre o Cuvelai, Conforme sabes eu estava mais junto da Fronteira com o Sudoeste Africano (Namibia) posso dizer que foi o bom local para passar o tempo que faltava para nos vir embora sem nenhuma baixa da C.C.3387, minto tivemos uma no Quixico de acidente, era natrual de Angola, aí eu dizer que não tivemos baixas, porque os que foram também regressaram, com muita sorte, naquele ataque ao Lué, foi conplicado.

Anónimo disse...

Boa tardes caríssimos amigos, oficiais e praças…
É com um enorme orgulho e com algumas lágrimas á mistura, que tive a honra de ter estado a observar o vosso site.
Chamo-me Carlos Fernando Mendes Pereira, sou de Lisboa, casado, 1 filho, não fui militar com muita pena minha, a residir próximo de Peniche (Atouguia da Baleia), funcionário publico, motorista do Ministério da Educação, com um orgulho muito grande de ser filho de um Oficial do Exército Português e sobretudo por ter estado na Guerra do Ultramar (Angola).
O meu pai, Capitão Manuel dos Santos Mendes Pereira, foi para Angola nos anos 60 e qq coisa. Esteve no R20 e no Grafanil até Outubro de 1973.
Eu, com 5 anos de idade, embarquei no voo Tap, ao cuidado de uma bela hospedeira, em Agosto de 1971.
Fui durante estes 2 anos, com muito orgulho, a bela mascote dos oficiais e praças.
Muito boas recordações !!!
Fui aluno do Externato Sport Lisboa e Benfica, traquina, preferia estar com os tropas no quartel….!!!
Divertia-me muito mais, ia para todo o lado, até há hora do almoço, quando o camião, não me lembro o nome, fazia a volta pelas extremidades do quartel (aos postos de vigia), para levar as refeições, era o que mais gozo me dava, porque os soldados, deixavam-me sempre conduzir aquele monstro.
Ia com os soldados, com os oficiais, á noite á ponta da Baía de Luanda, comer o meu Geladinho !!!
Enfim….!!
Ando eufórico com este assunto, sinto esta necessidade de descobrir, pessoas, que tenham la estado nesta altura, que se lembrem do meu pai e já agora de mim !! eheheheheh
Este será certamente, o primeiro contacto de muitos e na certeza porém, dentro das vossas possibilidades, me poderem ajudar a reencontrar algumas pessoas que possam la ter estado nessa altura.
Um grande abraço de amizade,
Contacto (carlosfprmpereira@hotmail.com)