sábado, 2 de abril de 2011

MEMÓRIAS de OUTRORA XV

(Continuação)
Com o sol a querer esconder-se no horizonte, demos inicio à subida de um alto morro apenas coberto de capim rasteiro.
Enquanto subia admirava um espectacular pôr do sol, com o astro rei a espraiar-se sobre a copa do frondoso verde desta imensa floresta, perdida nos confins da Africa profunda.
O comandante Palacassa não descurava a segurança e a subida deste morro era apenas mais uma manobra de diversão. Assim que o sol se escondeu totalmente por detrás da linha do horizonte, o que aqui nos trópicos acontece muito rapidamente, demos início á descida agarrados ao cinturão do camarada da frente e, de novo subimos a um morro vizinho, onde os Flechas se depuseram em circulo, ficando como vinha sendo hábito na segurança relativa do seu interior, apenas eu, o comandante Palacassa e o Inspetor da PIDE/DGS.
Esta era a terceira noite que eu dormia ao ar livre em pleno sertão Africano.
Ao contrário da noite anterior que se apresentara muito escura e fria, esta exibia um céu totalmente limpo e pejado de milhares e milhares de brilhantes estrelas, que cintilavam intensamente num firmamento totalmente livre de poluição.
Enrolei-me na capa camuflada e deitei-me no chão duro, com o rádio por cabeceira e o céu estrelado por tecto.
Envolvido pelo silêncio profundo da noite tropical, perguntava a mim próprio. O que fazia eu um jovem de vinte anos de idade, em Angola, com uma espingarda na mão?
Certamente me encontrava a defender os interesses colonialistas do governo do Marcelo e seus quejandos.
(Continua)

9 comentários:

acácia rubra disse...

Nem sempre deixando um comentário, mas passando por aqui para ler as memórias pessoais e colectivas.

Hoje, soube-me bem ler a descrição da noite estrelada, porque aqui, longe dessa África que foi nossa casa, as estrelas não são as mesmas ou não brilham com a intensidade das de lá.

Continuação de bom fim de semana.

Beijo

manuel marques disse...

Façamos das antigas memórias
As grandes armas da esperança...

Abraço.

edumanes disse...

Nem tudo era mau em Angola. Angola tinha muitas coisas maravilhosas. Também, é verdade que a guerra foi um horror para alguns. principalmente para os jovens, de 20 anos, que andavam dias e dias nas matas, com a G-3 às costas, sem saberem o que lhes poderia acontecer.
Como foi a vossa caminhada que continuava e pelos vistos sem alcançarem o objectivo para o qual tinham sido nomeados.

Um abraço
Eduardo.

Carla Ceres disse...

Olá, Manuel! Seu texto me fez lembrar do céu que conheci na infância, no sertão brasileiro. Nunca mais vi outro igual. Obrigada pelas visitas ao meu blog! Imagino o quanto meus textos informais, repletos de gírias e brasileirismos devem parecer estranhos para você. Só posso agradecer pela gentileza dos comentários. Muito obrigada!

Janaina Cruz disse...

Manuel, as vezes lendo-te fico com a impressão de que somastes tantas sabedorias as que já existiam em ti, e fico encantada por perceber que tu transformastes as dores de guerra em palavras para que possamos ler-te, e sentir um pouco do que já vivestes...

Abraços e ótima semana pra ti.

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Amigo estou passando para lhe agradecer o carinho que me tem dedicado nas suas palavras, seja sempre esse ser abençoado por Deus e posto ao serviço dele, para amar o próximo.
Beijos de luz e muita paz

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Amigo desejo de coração as suas melhoras, estar doente não dá jeito nenhum, vamos arrefecendo quando o calor nos chama à vida, beijinhos de luz e força amigo.

José disse...

Olá Manuel!
Ainda hoje dia de Lalís, tive a receber uma medalha com honras militares e tudo, daquelas medalhas que não têm valor nenhum, e acho que me a deram para mim não falar muito, eu escreve para um jornal dos ex-combatentes,que o bate estradas e eles parece que não gostam muito daquilo que eu digo. é uma maneira de eu dizer aquilo que penso, e parece q ue penso diferente deles.

Antonio S. Leitão. disse...

Como dizia o nosso amigo Manuel, fomos enviados para uma guerra de antemão perdida; quando esta começou nas nossas colónias, já o resto da Africa tinha acedido à independência. Angola era suficientemente rica para dar condições de vid dignas a pretos, brancos, mulatos, cabritos e cafuzos,(desculpem a falta de elegancia), mas alguém nao o quis, deste modo, confiscaram-me os meus melhores 3 anos, em troca duma mao cheia de nada. Mandem-me calar ou nao saio daqui. Abraço aos que por la passaram.