quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CAPÍTULO XXI

Os meninos da Sanzala
O boato de que um soldado vagueava pela Sanzala distribuindo latas de conserva, correu rápido por entre as pobres e famintas crianças e, em poucos minutos encontrava-me cercado por um enorme bando de meninos descalços e esfomeados, que se atropelavam uns aos outros na ânsia de serem presenteados com algo que lhes aliviasse um pouco a fome, ou apenas servisse de conduto para acompanhar a sempre presente fuba que os seus progenitores cultivavam, de modo incipiente nas suas pequenas lavras que amanhavam junto ás ultimas palhotas.

A fuba ou farinha de mandioca extraída a partir das raízes deste tubérculo está muito vulgarizada emAngola e, constitui o principal alimento destas pobres gentes.
Até ser transformada em farinha, a mandioca passa por um longo processo de transformação. Após serem colhidas as raízes são colocadas de molho em água, posteriormente secas ao sol e finalmente moídas com um pau num pilão de madeira, até serem transformadas numa farinha branca a que chamam fuba.
Naquela tarde maravilhosa em que o sol brilhava com intensidade num exuberante céu azul, saíra do quartel onde me encontrava a aguardar transporte para o Luvo, uma base das nossas tropas em cima da linha de fronteira. Vinha carregado com algumas latas de conserva surripiadas das rações de combate, que introduzira no saco verde da tropa e também nas grandes algibeiras do camuflado.
Cedo descobri que eram poucas as latas para tantos meninos famintos, no entanto sentia-me bem comigo próprio, por estar modestamente a contribuir para mitigar um pouco a fome destas pobres crianças.
Muitos desses meninos frequentavam a escola primária existente na Sanzala e, quase todos entendiam Português, no entanto eu também já compreendia muitas palavras de Kissolongo, o dialecto local, o que facilitava bastante o diálogo.
Ao fazer a habitual pergunta: O que queriam fazer quando fossem grandes? Um dos mais velhos, descalço e vestido apenas com uma velha e esfarrapada camisola adiantou-se para dizer um pouco envergonhado.
- Patrão. Eu quando for homem quero ser médico. Para poder curar o paludismo que já matou meu pai, minha mãe e meus dois irmãos.
Outro ainda muito novato e que me disseram ser um dos quinze filhos do feiticeiro e curandeiro local, gritou dizendo.
- Eu quero ser enfermeiro dos tropas, para dar injecções nos doentes.
Achei estranha aquela afirmação vinda de um filho do curandeiro. Pelos vistos não acreditava nas artes curativas do pai, ainda tentei indagar junto do mesmo a razão de tal atitude mas este fechou-se no seu mutismo não me respondendo.
Tanto anos passados sobre este episódio, ainda pergunto a mim mesmo muitas vezes.
Qual terá sido o futuro desses meninos? Aqueles que tanta esperança demonstravam, mas que pouco tempo depois destes factos se viram a braços com uma atroz guerra civil, que devastou o vasto território Angolano durante vários anos.
Os meninos daquele tempo distante serão agora homens com mais de 40 anos, no caso de serem vivos, o que não será muito provável num país em que a esperança de vida ronda os 42 anos.
Manuel Aldeias

10 comentários:

Anónimo disse...

Cada vez gosto mais de sguir este blog. AS histórias são bastante interessantes e leves! continua!

Bia Franco disse...

Olá Manoel,

Grata pelo carinho.

Acabei de publicar mais um capítulo.

Um grande abraço.

Maria disse...

Amigo mais uma narrativa espectacular.
Tenha um excelente fim de semana
bjs
Maria

Arnoldo Pimentel disse...

Muito bom seu texto, bem escrito.Gostei muit do seu espaço.Parabéns

Janaina Cruz disse...

Crianças descalças com seus sonhos que alcançam o céu, sonhos fortes como aço e as vezes frágil como um papel... Não importa quantos anos temos para realizarmos sonhos, o importante é que eles existam, mas é mesmo uma pena , que a vida muitas vezes dure tão pouco.

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Amigo a partir de agora, obrigado pelo seu comentário e por fazer parte do meu jardim de estrelas seja sempre bem vindo.
Encontrará uma amiga ao dispor, beijinhos de luz e paz.

**♥✿-franciete-✿♥** disse...

Acabo de voltar atrás, e de lágrimas nos olhos, o mais certo é encontrar aqui alguns erros, nada que o corrector não apague o que jamais se apaga são estas recordações de miséria com que os nossos heróis tem de viver dia após dia, já passados tantos anos mas que faz chorar qual ser por mais duro que seja.
Confesso que neste momento era o que eu menos queria era chorar, mas não dá para não o fazer, sua história como talvez de muitos camaradas seus tem sempre a verdadeira guerra estampada no rosto de quem por lá andou. Desculpe o adiantamento, mas ainda muito mais tinha para lhe dizer, mas agora apenas lhe digo bendito seja com todas as migalhas com que ajudou esses pobres inocentes.
Beijinhos de luz e muita paz em seu coração

Carla Ceres disse...

Ótimo blog, Manuel, cheio de textos enriquecedores! Voltarei sempre para ler as novidades. Parabéns!

**-.♥Luis Perdigao♥.-** disse...

Venho agradecer a sua visita e seu comentário, também gostei de ler as suas recordações. Recordar é viver não é mesmo então vamo-nos recordando dos tempos idos, abraços

ms disse...

caro Manel Aldeias
Sou o ex sarg Marques da Silva. do 1855 em nambuangongo 1965/66, comp 1413 no quixico
Ainda por ca ando, e hoje com 72 anos continuo apaixonado pela terra, onde casei pela ultima vez o ano passado a 27 de outubro.
A semana passada fui a Nambuangongo matar saudades e escrevi para o Ze Ferreira blogue do BC 1855, o que vi.vou fazelo mais vezes porque tenho da guerra, de Angola, e dos 8 anos que estive nela como voluntario no EX. PORTUGUES, uma visão diferente.
Cacimbado? talvez um pouco,mas gozei muito.E continuo.Gostava de beber umas CUCAS contigo cá.Ou então umas SAGRES ai. Vou todos os anos em maio de propósito aos almoços da 1413 e aos da 272 caç.especiais 61/63 onde fui furriel miliciano.Talvez nos encontremos por ai.Gostei de ler-te ,mas também vais gostar das minhas.Parabens pelas descrições de sítios por onde tantas vezes levei e dei tiros, e ca fico ao teu inteiro dispor. Irias gostar de houvir tambem »as guerras« contadas pelos nossos inimigos dantanho e hoje amigos do peito e dos copos.A alma deles era mesmo outra, muito maior que a nossa. Meu email, comboio17@hotmail.com