sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Capítulo XXII

O enorme saco das rações
O Farsola parecia ganhar novas forças nas pernas cansadas, sob o peso do enorme saco das rações que transportava ás costas e, da arma G3 que apertava nas mãos suadas e feridas pelo capim seco e áspero.
Ele e o seu grupo de combate, tinham deixado para traz uma mata virgem tão cerrada, que o caminho era aberto à força de catana empunhada pelo soldado da frente, o qual era rendido periodicamente.
Agora que entravam no espaço aberto, estavam a ser fustigados pelo abrasador sol Africano e, pior do que isso as balas voltavam de novo a assobiar por sobre as suas cabeças.
Deixava-o desesperado ouvir os irritantes tiros das temíveis costureirinhas que, com os seus cadenciados estampidos metálicos lhes faziam recordar a máquina de costura da sua mãe, na longínqua e saudosa Metrópole.
De um salto levantou-se da pequena cova em que se abrigara, limpou os olhos das gotas de suor pegajoso que lhes turvavam a visão, ajeitou à cinta as pesadas cartucheiras que transportava enfiadas no largo cinturão e, correu na pegada do seu camarada da frente e dos restantes soldados, que em fila indiana iniciavam a subida de um alto morro coberto de capim rasteiro, onde acabariam por ficar encurralados, perseguidos por um forte grupo de guerrilheiros. Valeram-lhes na altura os helicópteros Puma que, em desespero de causa e com imensas dificuldades os tinham conseguido resgatar.
Após ser evacuado e ao chegar à base avançada, o médico achara que o seu estado de saúde era tão débil que decidira mandar colocá-lo a soro.
Revia em pensamento toda aquela arriscada e terrivel situação passada alguns meses antes na Força de Intervenção e, maldizia a sua sorte por agora se encontrar deitado numa cama de hospital, a braços com uma grave crise de paludismo.
Afinal encontrava-se lutando na maldita guerra em Angola, tinha deixado para trás a vida boémia passada no Intendente e no Bairro Alto.
Aí sim! Esses eram os seus locais de caça, envolvendo-se em cenas de pancadaria com os outros chulos, pela posse e protecção das prostitutas mais rendosas. Ou ainda juntamente com o seu gang de Cascais, assaltando potentes automóveis com os quais disputavam renhidas corridas pela Marginal em direcção a Lisboa, acabando por vezes com aparatosos despistes na curva do Mónaco.
A despedida da sua Aurora não tinha sido fácil. A rapariga de apenas dezanove anos de idade, enfrentaria a partir daí a concorrência das demais prostitutas e, ficaria sujeita a ser roubada e maltratada pelos outros chulos.
- Quanto tempo a Aurora conseguirá resistir sem a protecção de um homem? -Perguntava-me ele várias vezes, e acrescentava – Passado todo este tempo provávelmente já terá arranjado algum gajo, que lhe dê carinho e a proteja na dura e espinhosa vida da prostituição –
Conhecedor de toda esta problemática o Farsola vivia atormentado pelo ciúme e, receoso de vir a perder a mesada que a Aurora lhe enviava periódicamente em valor declarado, ou simplesmente alguma nota de quinhentos escudos dissimulada no interior das longas e amorosas cartas, em que a rapariga lhe jurava amor eterno.
Manuel Aldeias




quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CAPÍTULO XXI

Os meninos da Sanzala
O boato de que um soldado vagueava pela Sanzala distribuindo latas de conserva, correu rápido por entre as pobres e famintas crianças e, em poucos minutos encontrava-me cercado por um enorme bando de meninos descalços e esfomeados, que se atropelavam uns aos outros na ânsia de serem presenteados com algo que lhes aliviasse um pouco a fome, ou apenas servisse de conduto para acompanhar a sempre presente fuba que os seus progenitores cultivavam, de modo incipiente nas suas pequenas lavras que amanhavam junto ás ultimas palhotas.

A fuba ou farinha de mandioca extraída a partir das raízes deste tubérculo está muito vulgarizada emAngola e, constitui o principal alimento destas pobres gentes.
Até ser transformada em farinha, a mandioca passa por um longo processo de transformação. Após serem colhidas as raízes são colocadas de molho em água, posteriormente secas ao sol e finalmente moídas com um pau num pilão de madeira, até serem transformadas numa farinha branca a que chamam fuba.
Naquela tarde maravilhosa em que o sol brilhava com intensidade num exuberante céu azul, saíra do quartel onde me encontrava a aguardar transporte para o Luvo, uma base das nossas tropas em cima da linha de fronteira. Vinha carregado com algumas latas de conserva surripiadas das rações de combate, que introduzira no saco verde da tropa e também nas grandes algibeiras do camuflado.
Cedo descobri que eram poucas as latas para tantos meninos famintos, no entanto sentia-me bem comigo próprio, por estar modestamente a contribuir para mitigar um pouco a fome destas pobres crianças.
Muitos desses meninos frequentavam a escola primária existente na Sanzala e, quase todos entendiam Português, no entanto eu também já compreendia muitas palavras de Kissolongo, o dialecto local, o que facilitava bastante o diálogo.
Ao fazer a habitual pergunta: O que queriam fazer quando fossem grandes? Um dos mais velhos, descalço e vestido apenas com uma velha e esfarrapada camisola adiantou-se para dizer um pouco envergonhado.
- Patrão. Eu quando for homem quero ser médico. Para poder curar o paludismo que já matou meu pai, minha mãe e meus dois irmãos.
Outro ainda muito novato e que me disseram ser um dos quinze filhos do feiticeiro e curandeiro local, gritou dizendo.
- Eu quero ser enfermeiro dos tropas, para dar injecções nos doentes.
Achei estranha aquela afirmação vinda de um filho do curandeiro. Pelos vistos não acreditava nas artes curativas do pai, ainda tentei indagar junto do mesmo a razão de tal atitude mas este fechou-se no seu mutismo não me respondendo.
Tanto anos passados sobre este episódio, ainda pergunto a mim mesmo muitas vezes.
Qual terá sido o futuro desses meninos? Aqueles que tanta esperança demonstravam, mas que pouco tempo depois destes factos se viram a braços com uma atroz guerra civil, que devastou o vasto território Angolano durante vários anos.
Os meninos daquele tempo distante serão agora homens com mais de 40 anos, no caso de serem vivos, o que não será muito provável num país em que a esperança de vida ronda os 42 anos.
Manuel Aldeias

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CAPÍTULO XX

O amuleto
A meio da tarde, sob um sol escaldante a brilhar no céu tingido de um azul perfeito e inteiramente límpido de nuvens, dirigi-me para a Sanzala que ficava do outro lado da pista de aviação.Era uma grande Sanzala habitada por largas centenas de pessoas da tribo kicongo. Muitas delas diziam-se descendentes dos antigos reis do Congo, eram animistas com as suas crenças ancestrais e assentavam o seu modo de vida nos moldes da cultura tradicional. No entanto devido ao contacto com os brancos e, à influencia das missões católicas começavam a evidenciar alguma tendência para a vida sedentária e para o pequeno comercio. Enfim, começavam a adoptar hábitos da cultura ocidental embora temperados pela tropicalidade. As autoridades militares acusavam-nos de ociosidade, de serem pouco dados ao trabalho e não serem receptivos ás iniciativas governamentais, no entanto toda esta atitude talvez fosse resultante da rejeição ao colonialismo, da decadência da sua cultura tradicional e ainda aos hábitos herdados da extinta monarquia do Congo.
Também se admitia que poderiam ter contactos com o inimigo e com as populações refugiadas na mata e, assim sendo um soldado a passear solitário como era o meu caso teria que ter alguma precaução e não se aventurar muito no interior da Sanzala.
Devido á tarde de calor abrasador a maioria das pessoas encontravam-se recolhidas no interior das suas cubatas, construídas em adobe e cobertas com uma grossa camada de capim que alem de as tornarem bastante frescas, também as protegiam das fortes chuvadas que muitas das vezes caiam ao fim de tarde e tudo alagavam.
Demasiado magras, completamente descalças, vestidas de modo tradicional com uns panos muito garridos atados à altura do peito e, tagarelando ruidosamente regressavam das lavras por um carreiro que conduzia á Sanzala, duas jovens mulheres que me miravam curiosas e admiradas por verem um soldado branco que caminhava sozinho àquela hora do dia em que o sol abrasava. Geralmente os soldados quando se deslocavam á sanzala faziam-no em grupo e, nunca sob aquele calor sufocante.
Uma delas transportava à cabeça um feixe de lenha, enquanto que a outra alem de uma criança de meses que trazia ás costas atada com um pano, ainda equilibrava graciosamente sobre a cabeça uma cabaça com água, passaram por mim galhofando e rindo deixando ver os seus belos dentes brancos como a neve.
Entretanto quando me preparava para regressar atravessando de novo a pista, ouço uma voz que gritava.
- Patrão. Patrão. Espera!
Voltei a cabeça na direcção da Sanzala e, qual não é o meu espanto ao reconhecer correndo na minha direcção o meu antigo companheiro de viagem, o meu salvador da terrível diarreia, o nosso ancião de braço ao peito, que ao chegar junto de mim me estendeu a única mão livre dizendo.
- Toma patrão, pendura nos cabeça, dar sorte.
Aceitei de bom agrado o amuleto que me era oferecido. Tratava-se de um minúsculo e encantador crocodilo do tamanho de um polegar, artisticamente esculpido em marfim e preso por um fio de cabedal delicadamente entrançado, que eu imediatamente coloquei ao pescoço e usei durante largo tempo. Até que infelizmente, um dia o perdi ao atravessar a vau um rio tão caudaloso, que a sua forte corrente me dava pelo pescoço e que se dizia estar repleto de crocodilos. Ironicamente ficou a fazer companhia aos seus congéneres de carne e osso.
Manuel Aldeias

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Capítulo XIX

Invadido pela nostalgia
Naquela tarde abrasadora de calor escaldante e saturada de humidade, com o pouco dinheiro que o meu amigo Farssola me havia emprestado e que apenas dava para uma cerveja, encontrava-me sentado á mesa do Café Cressa que àquela hora estava praticamente vazio. Os meus pensamentos divagavam para longe até à saudosa e distante Metrópole e, recordava os meus familiares e amigos que não via há praticamente dois anos.

Para cumprir o serviço militar obrigatório, vira-me obrigado a interromper abruptamente o meu trabalho no Arsenal do Alfeite, onde já trabalhava á cerca de 3 anos.
Pela minha mente também passavam em turbilhão todos os meus colegas da Escola Emídio Navarro em Almada, onde eu frequentava o Curso Industrial em regime nocturno como trabalhador estudante
Geralmente depois da saída do trabalho juntamente com um grupo de colegas, dirigíamo-nos ao conhecido Café Central de Almada e ao seu vasto e acolhedor salão de bilhares, onde disputávamos renhidas partidas de snooker. Ocupando deste modo o tempo até ao início das aulas que começavam invariavelmente às 19 horas e, se prolongavam até ás 22 horas e 45 minutos.
A maioria destes meus colegas e amigos também agora se encontravam combatendo, numa das três frentes desta suja e cruel guerra, alguns aqui em Angola, outros em Moçambique e, outros ainda na Guiné.
Encontrava-me completamente absorvido por estes pensamentos nostálgicos que me toldavam a mente, quando sinto uma mão no ombro. Era o Eusébio, o mulato empregado de mesa do café que me pergunta, com o seu sotaque característico.
- Então patrão. Vai mais uma cuca fresquinha?
- Não Eusébio, por hoje já tenho a minha conta. Sabes? Ultimamente não tenho andado bom do estômago.
Paguei a cerveja com os últimos Angolares cedidos pelo Farsola e, invadido pela tristeza e pelo ressentimento com a maldita guerra, saí do café caminhando lentamente pela rua principal.
Já o sol se escondia no horizonte quando regressei ao quartel, vislumbrando à distancia o intenso mar verde da floresta, que se ia cobrindo lentamente com o manto escuro do céu, preparando-se para adormecer até que de novo o sol a raiasse com o seu brilho intenso.
Entrei para o refeitório afim de assistir ao detestado rancho, mas nessa noite pouco ou quase nada comi do intragável arroz com salsichas.
Manuel Aldeias

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CAPÍTULO XVIII

MEMÓRIAS de OUTRÓRA
A noite apresentava-se magnifica e muito quente, num céu salpicado por milhões e milhões de reluzentes estrelas a brilharem na escuridão completamente livre de nuvens e poluentes, quando á saída do refeitório encontro sentados num banco corrido em madeira e em amena cavaqueira o Lombriga meu antigo colega da Escola Emídio Navarro em Almada, juntamente com um seu amigo de Cacilhas, electricista na Lisnave.
Ao ver-me, o Lombriga chamou-me para junto deles, enquanto ia dizendo que nos Estados Unidos se estava a assistir a uma grande contestação á guerra do Vietname sendo a cantora folk, Joan Baez uma das vozes mais activas e virando-se para mim perguntou-me.
- Lembras-te Mike? Quando nós os dois, juntamente com o Parafuso e o Violas nossos colegas do Arsenal do Alfeite, fugimos á frente da policia de choque no Estoril?
- Se me lembro! Isso foi em 26 de Agosto de 1970, quando pretendíamos assistir ao festival de música na mata dos Salesianos.
Este festival fora realizado pela Junta de Turismo da Costa do Sol, juntamente com a participação de José Cid e tudo parecia que estava a decorrer muito bem, com a confirmação da actuação do Quarteto 1111, dos Sheiks, Rui Mingas e muitos outros, quando em cima da hora o Marcelo decidira cancelá-lo.
Centenas e centenas de jovens desconhecendo a proibição de última hora, começaram logo a seguir ao almoço a deslocarem-se para o Estoril.
O Lombriga recordava ainda.
- O nosso grupo de Arsenalistas abastecido com sandes e algumas bebidas seguimos de Cacilheiro até ao Cais do Sodré, onde apanhamos o comboio para o Estoril.
O amigo de Cacilhas atirava.
- Nas ruas circundantes da mata dos Salesianos e por detrás do Casino, encontravam-se escondidos vários autocarros repletos de polícias armados de capacetes, cassetetes e escudos, de repente e sem qualquer provocação da nossa parte começaram a desancar o pessoal.
Eu interrompi para dizer.
- Recordo-me perfeitamente de que ao regressar-mos de comboio e, ao chegarmos ao Cais do Sodré já o vespertino Dário Popular noticiava na primeira pagina que o festival fora cancelado e, em letras mais pequenas que os jovens tinham provocado a policia de choque obrigando esta a reagir.
O amigo de Cacilhas também tinha sido um dos vários agredidos pelos lacaios do Capitão Maltês, o terrível comandante dessa detestável e odiada policia e recordou-nos que cerca de um ano antes, também se tinha realizado um festival do género na ilha de Wight em Inglaterra que juntara mais de 250 000 jovens, vindos de vários países. No entanto aquele que reunira maior número de participantes fora o celebre festival de Woodstok nos Estados Unidos, que juntara durante três dias cerca de meio milhão de pessoas, realizado entre os dias 15 e 18 de Agosto desse mesmo ano de 1969.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Convivio dos Felinos

A todos aqueles que em locais tão distantes como Austrália, Canadá, Russia e cerca de mais vinte países, estão a acompanhar esta minha história e que já se aproximam a passos largos dos dois milhares, os meus sinceros agradecimentos.
Hoje porem vou abrir um parêntesis para falar do 25º almoço de confraternização dos Felinos.
Este evento realizou-se no último sábado dia 25 de Seembro, nos belos jardins da casa do nosso anfitrião António Mucharreira, ex-alferes miliciano da C. CAV. 8453 “ Os Felinos” que estiveram em Angola de 1973 a 1975 mais precisamente junto da fronteira norte, num buraco infecto do cu de judas chamado Luvo e tambem em Mamarrosa.
A concentração teve lugar junto ao memorial dos ex- combatentes do Ultramar em Freixoeira no concelho de Torres Vedras, onde após guardarmos um minuto de silencio em memoria dos camaradas falecidos, depusemos um lindo ramo de flores.
Seguiu-se o animado repasto ao ar livre, em que os diversos participantes exibiram as mais variadas iguarias características das suas terras de origem, como carapaus alimados, chanfana de cabra, leitão á Bairrada e tantos outros que se tornaria fastidioso estar aqui a enumerá-los a todos.
Durante o convívio tivemos ocasião de admirar a vasta e rica colecção de azulejos antigos, que ornamentam os jardins desta magnifica casa senhorial, alguns deles remontando ao século XVII.
Em nome de todos os participantes quero agradecer a maneira simpática e hospitaleira como fomos recebidos. Não podendo deixar de enaltecer o enorme trabalho e canseira que os donos da casa, com especial destaque para a esposa D. Anabela, tiveram para poderem receber condignamente e com tanto carinho este grupo de Felinos e seus familiares.
O convívio do próximo ano de 2011, será realizado pelo felino João Valente na Veneza Portuguesa, a linda cidade de Aveiro, em data a anunciar futuramente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CAPÍTULO -17

O paludismo

Extremamente pálido, alagado em suores, respiração ofegante e com um braço ligado a um fino tubo, por onde gotejava lentamente um liquido incolor que eu identifiquei como sendo soro fisiológico.
Ali estava postado numa cama da pequena enfermaria militar, corpo inerte, completamente nu, apenas resguardado por uma ponta de lençol que mal lhe cobria as partes mais íntimas. Não o reconheci de imediato, tal o seu débil estado, mas após um olhar mais detalhado, identifiquei-o pelo seu cabelo preto, liso e bastante ralo, com entradas pronunciadas.
- Farssola! Farssola! Acorda sou o Mike! – Bem o chamei, no entanto manteve-se com os olhos semiabertos e sem dar acordo de si. Apenas a sua respiração arquejante me indicava que o meu amigo e camarada de odisseia continuava vivo. Estava um farrapo, uma débil amostra daquele rapaz atrevido, gingão e rufia que comigo viajara desde Luanda.
Após a nossa chegada a São Salvador do Congo, o meu amigo Farsola fora internado na pequena enfermaria do quartel acometido duma grave crise de paludismo com febres altíssimas, vómitos, dores de cabeça e intenso mal-estar, o seu estado era de tal modo confrangedor que o médico militar decidira-se prontamente pelo seu internamento e que lhe fosse de imediato aplicado um balão de soro. Tendo o enfermeiro me confidenciado que se não melhorasse nas próximas 24 horas, seria evacuado para o Hospital Militar de Luanda no avião militar Nordatlas que voava até São Salvador duas vezes por semana.
No entanto passados os primeiros dois dias o seu estado tinha melhorado consideravelmente e o médico decidira retirar-lhe o soro.
O Farssola era um fumador inveterado, chegando a fumar três maços de cigarros por dia. Como estava sem dinheiro e o vicio era muito forte, emprestei-lhe o pouco que ainda me restava com o qual comprou um maço de cigarros e, guardando o restante disse-me.
- Se não te importas, fico com o resto da grana para investir no jogo da lerpa logo á noite com os outros doentes.
- Está bem. Seja como queiras – Respondi contrariado.
Nessa mesma noite antes de me deitar voltei a visitá-lo, não parecia o mesmo, estava  muito bem disposto e  segundo me disse já não tinha arrepios de febre desde o meio da tarde. Com um sorriso irónico contou-me que já tinha ganho alguma grana ao jogo, e procurando por debaixo da almofada, extraiu uma velha carteira de cabedal muito coçado de onde retirou alguns Angolares que estendeu na minha direcção dizendo.
- Toma lá Mike. Para beberes uma bujeca fresca e comprares-me outro maço de tabaco. O restante é para eu voltar a investir amanhã no jogo, se o cabrão do paludismo me deixar.
O paludismo também conhecido por malária, é provocado pela picada da fêmea dum determinado mosquito, que alem de provocar dores de cabeça e náuseas, também se caracteriza por períodos de altas febres alternadas com outros de aparentes melhorias.



domingo, 19 de setembro de 2010

POR ANGOLA ACIMA

Parte 16
Devido ao rápido anoitecer, o céu carregara-se rápidamente de inúmeras estrelas brilhantes e, um breve clarão subia por detrás de um distante morro. Era a lua cheia em todo o seu esplendor, que ajudava a dissipar as densas trevas que escureciam a frondosa mata e nos dava as boas vindas a São Salvador do Congo.
No entanto a caminhada decorria com lentidão e, já a noite ia bastante avançada quando chegamos ao final de mais esta etapa, pela longa odisseia que estávamos a realizar por Angola acima.
Enquanto os soldados da escolta montavam segurança á coluna, nós completamente ensopados em água, lama e suor, encaminhamo-nos para um quartel que funcionava como Adidos e onde iríamos permanecer enquanto esperávamos por outra coluna que nos conduzisse ao Luvo. Este pequeno quartel onde agora nos dirigiamos ficava situado na periferia de São Salvador, mas ainda dentro da cerca de arame farpado que cercava esta cidade, que era a capital do distrito do Zaire e a maior e mais importante da região, contudo não seria muito maior que qualquer das vilas que nós conhecíamos na Metrópole.
O cabo quarteleiro já dormia e perante o nosso pedido, para que nos atendesse e desse guarida resmungou ensonado.
- Isto não é horas de me virem acordar. Podem tomar banho caso queiram.
Desenrasquem-se. Amanhã pela manhã logo os atendo.
E devido á nossa insistência, levantou o mosqueteiro que protegia a sua cama dos mosquitos e ainda ameaçou.
- Tenham tento na língua, se não amanhã pagam as favas.
Não sei o que queria dizer com esta ameaça. Descobrimos os chuveiros improvisados com uns bidões, que felizmente se encontravam atestados de água e tomamos um retemperador e reconfortante banho.
De seguida com a trouxa ás costas e as armas a tiracolo, encaminhamo-nos para o restaurante “Cressa”, que apesar do adiantado da hora se encontrava repleto de soldados pertencentes á protecção da coluna. Aqui comemos um belo bife de pacassa acompanhado pelas deliciosas batatas fritas, cortadas aos palitos muito finos características deste restaurante e, muito apreciadas por todos estes jovens fardados de soldados.
Nessa noite os soldados mostravam-se cabisbaixos e tristes, não evidenciando aquela algazarra de alegria contagiante que costumava caracterizar o ajuntamento de tantos jovens rapazes na flor da idade. Todas as conversas em tom pesaroso eram referentes á terrível e sanguinária emboscada e, mesmo entre aqueles que intervieram directamente no combate, as informações quanto ao número de mortos e feridos eram contraditórias.
Na nossa mesa faziam-nos companhia dois conhecidos de longa data do Farsola, o Grilo seu compincha da noite Lisboeta e o Sintra um calmeirão que do alto do seu metro e oitenta, afirmava emocionado mas com voz grossa e convincente.
- Pelo menos seis mortos contei eu, pois nós fomos dos primeiros a chegar e a nossa sorte foi caminhar-mos pela berma da esquerda, aquela que dava para a ravina.
- Ah, pois! Acrescentou o Grilo – A secção do Bandeira progrediu rente ao morro e caíram num campo de minas, que lhes causou pelo menos quatro feridos graves.
Eu ouvia perplexo o relato impressionante desta enorme carnificina.
O Farsola com o seu vozeirão comentava.
- Foi uma emboscada e peras, a fazer-me lembrar aquela que os de Quicabo sofreram na zona das Sete Curvas. É que lá os turras também fizeram um prisioneiro que levaram para o Congo.
- Como tiveste conhecimento disso? Perguntei-lhe curioso.
Então o Farsola contou-nos que tinha recebido uma carta de um seu vizinho de Cascais que fazia parte do Batalhão de Caçadores 3838, onde descrevia a violenta emboscada que tinham sofrido na zona das Sete Curvas entre Quicabo e Balacende, na qual perderam a vida quatro soldados e também um fora feito prisioneiro. O seu amigo também se lamentava que este Batalhão tinha sofrido este revés quando se encontrava praticamente no final da comissão.
Devido ao segredo militar em ambiente de guerra, agravado pela omnipresente censura, tanto em Lisboa como em Luanda e mesmo até nós próprios aqui no mato, não tínhamos conhecimento destes trágicos acontecimentos, o pouco que íamos sabendo era através da troca de correspondência com os nossos amigos espalhados pelo imenso território Angolano e, nas outras frentes de guerra em Moçambique e na Guiné.
Também tinha sido através de uma carta enviada pelo Batata, meu colega de trabalho no Arsenal do Alfeite, que eu tomara conhecimento de que a Guiné declarara unilateralmente a independência em Setembro de 1973 numa cerimónia realizada no seu interior, mais propriamente em Madina do Boé. O Batata ainda me contara que a situação na fronteira norte estava de tal modo complicada, que a guarnição de Guileje tinha sido obrigada a abandonar a sua posição e, fugir a corta mato até á próxima base das nossas tropas chamada Gadamael.
Após este desaire o governador da Guiné, General Spínola ordenara a prisão do comandante de Guileje, á boa maneira de Salazar aquando da invasão de Goa pelo exército da União Indiana.
MANUEL ALDEIAS

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

CHAMAVAM-LHE VITINHA

Capíulo XV
Chamavam-lhe Vitinha, olhos tristes, cara e corpo de menino, vestido com uma farda de soldado. Chegara aqui ao Quiende na última coluna do MVL há 15 dias. Pelo caminho fora acometido por uma forte crise de paludismo, com febres muito altas, que o obrigara a interromper a viajem e baixar á improvisada enfermaria da base durante cerca de uma semana, o seu estado era tão grave que passara os primeiros dias ligado a balões de soro.

O Vitinha era agora o nosso novo companheiro de viajem e, desconhecia que sofrêramos na véspera uma mortífera emboscada. Esta apenas era do conhecimento dos soldados que participavam na coluna e dos de Quiximba por ser a base mais próxima e onde fora montado o posto avançado de socorro.
Quando lhe relatamos este drama e que o pessoal do Meposo tinham sofrido 6 mortos, 2 feridos graves, 6 feridos ligeiros e ainda dois prisioneiros ficou muito transtornado e, com os olhos marejados de lágrimas contou-nos emocionado que também ele se dirigia para o Meposo em rendição individual, afim de substituir um camarada morto.
O mais recente dos nossos companheiros de viajem fazia-se acompanhar de uma grande mala de madeira, a que chamávamos mala de porão. Este tipo de malas servia para acondicionar os diversos pertences e no final da comissão depois de repleta de produtos de artesanato e outras recordações eram enviadas para a Metrópole no porão de um navio mercante, daí o seu nome.
O novo viajante abriu a mala para me mostrar acondicionado numa caixa de madeira, um gira-discos a pilhas de marca Sharp. Também me mostrou um grande volume de discos de vinil, ao mesmo tempo que me dizia.
- É pena, não podermos ligar o gira-discos. Provavelmente irias gostar de ouvir José Afonso.
- Não me digas que também tens discos do Zeca Afonso – perguntei incrédulo.
- Ah. Pois! Tenho aquele LP intitulado Baladas de Coimbra, que foi proibido pela censura logo após a sua edição e onde ele canta: os vampiros comem tudo, comem tudo e não deixam nada. No entanto não te preocupes, que vais ter oportunidade de ouvir quando chegarmos a São Salvador.
Também me contou que na sua antiga companhia, os soldados se juntavam á sua volta em grandes grupos para ouvirem este cantor proibido e também o padre Fanhais. O capitão da sua companhia propôs-lhe comprar o disco do José Afonso, chegando-lhe a oferecer bom dinheiro que ele nunca aceitou.
Disse-me que esse capitão miliciano se viu obrigado a ingressar no serviço militar, depois de sucessivos adiamentos justificados com os estudos. Estudava em Coimbra quando o ministro da educação José Hermano Saraiva foi vaiado pelos estudantes no seguimento de uma visita á Universidade que fizera acompanhado do Tomás. Ambos foram assobiados e apupados pelos estudantes que tinham sido impedidos de discursar. Como retaliação o ministro acabou com os adiamentos, obrigando os estudantes a incorporarem-se coercivamente na tropa. Muitos deles deram origem aos chamados capitães de proveta ou de aviário, assim chamados na gíria de caserna, por em pouco mais de seis meses passarem de instruendos do curso de oficiais milicianos a capitães comandantes de companhia.
-Estes combates aqui no norte são obra da FNLA, que escorraçou o MPLA para o leste e para Cabinda – disse-me ele, demonstrando profundo conhecimento da situação militar e acrescentando ainda. – O MPLA aqui no norte está confinado a pequenas bolsas e, apenas nas matas dos Dembos. No entanto no Leste para onde encaminhou grande parte do seu esforço de guerra e, apesar de constantemente perseguido pelas nossas tropas e até mesmo pela Unita de Jonas Savimbi, continua a fazer grandes estragos, chegando mesmo há poucos meses atrás a derrubar um Heli-canhão na zona de Gago Coutinho.
MANUEL ALDEIAS 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O CURANDEIRO AFRICANO

Capítulo XIV
O sol brilhava a pique. O calor tórrido e abafado de início de tarde sufocava-nos em cima da caixa de carga da camioneta, que agora lentamente começava a sair do imenso mar verde desta floresta que nos oprimia e fazia sentir pequeninos e insignificantes.
Pela nossa frente estendia-se uma região aberta tipo savana, salpicada de graciosos embondeiros e outras árvores de grande porte, dispersas pelo alto capinzal matizado de tons dourados e pastel, a ondular graciosamente ao sabor de uma brisa leve e sufocante
O nosso ancião que o Farsola ajudara a descer da viatura durante a última paragem, regressava agora apressado transportando nas mãos umas pequenas raízes e algo de aspecto estranho que me pareceu serem pequenos cogumelos.
Avançou para mim dizendo com voz ofegante.
- Toma patrão, bébi nos água. Ser bom prós caganera.
O Farsola ao reparar na minha indecisão, retirou aquela miscelânea das mãos do ancião introduzindo-as de imediato na água morna do cantil, agitou bem o conteúdo que me entregou dizendo.
- Bebe Mike. Pior que o que estás agora, não deves ficar.
Com repugnância bebi uns tragos daquele chá morno e asqueroso.
De imediato notei que os vómitos pareciam querer dar-me tréguas e instigado pelo ancião fui bebendo mais e mais até esvaziar o cantil e, a diarreia e os vómitos cessarem na totalidade.
Com o sol de fim de tarde a pintar de vários tons vermelhos e dourados a linha do horizonte, chegamos a Quiende ultima base das nossas tropas antes de São Salvador. Aproveitando a curta paragem, o Farsola foi de corrida encher de novo os cantis e ao chegar junto a mim aconselhado pelo ancião preparou nova infusão daquele produto milagroso que estendeu na minha direcção ordenando.
- Toma. Bebe mais este cantil de chá, que ao chegarmos a São Salvador tens que estar em forma para bebermos umas bujecas fresquinhas.
Agora já sem relutância bebi mais uns tragos daquela misericordiosa mistela que tanto bem me estava a fazer.
Anoitecera muito rapidamente como acontece nestas regiões tropicais e a noite apresentava-se escura como breu, fervilhando de inúmeras estrelas que brilhavam docemente na noite sem luar e livre de poluição.
Este circo de dezenas e dezenas de viaturas progredia agora muito mais rápido e, sem as constantes paragens que tanto nos haviam atrasado. A estrada encontrava-se desimpedida de minas, graças ao trabalho de picagem efectuado por soldados de outras companhias, desviadas para aqui afim de montarem a segurança do percurso e abreviarem o máximo possível o perigoso trajecto nocturno.
MANUEL ALDEIAS

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma lata de sardinhas podres

Capítulo XIII
- Cavalgávamos vagarosamente o vasto oceano verde da floresta, ao sabor dos solavancos da viatura nos inúmeros buracos da picada. Era como se navegássemos no convés de algum pequeno veleiro em pleno mar alto, só que aqui não eram as ondas que nos salpicavam a cara, mas sim as densas ramagens que roçavam os taipais da camioneta.
O meu enjoo começara com uma forte cólica intestinal, seguida de uma repentina indisposição que me levou a colocar a cabeça para fora dos taipais e lançar a carga ao mar. Na boca, nariz e garganta, tinha-se instalado um nauseabundo sabor a sardinhas de conserva podres.
Quando nessa quente manhã abrira a lata de sardinhas em molho de tomate retirada da caixa de cartão da ração de combate, reparara que esta se encontrava um pouco opada e com vestígios de ferrugem no seu exterior, contudo não valorizei estes indícios já que o seu conteúdo parecia estar intacto e em condições. O nosso ancião de braço ao peito continuava a viajar connosco e repartíamos com ele as nossas parcas rações, foi o que aconteceu desta vez e, ele aceitou de bom agrado os dois rabos de sardinha entalados entre duas bolachas de água e sal que lhe oferecera.
Provavelmente por ser mais resistente ou talvez por ter comido menos, o nosso ancião mantinha-se sereno e olhava-me condoído perante o meu estado que lamentavelmente piorava a todo o momento
Os constantes saltos da veículo nos buracos do caminho estavam a tornar-se cada vez mais insuportáveis e a deixar-me o corpo totalmente dolorido, como se tivesse sido pisado e esmagado pelo seu rodado, não controlava os intestinos e ansiava pelas inúmeras paragens para descer até á picada e defecar umas borras negras com um cheiro insuportável, ao mesmo tempo que também vomitava um liquido amarelado muito azedo.
A viagem estava a tornar-se num inferno que parecia interminável, sentia-me febril, com o corpo dorido. A diarreia e os vómitos não cessavam, mesmo depois do estômago e intestinos estarem completamente vazios, o que piorava o meu débil estado.
Ao cabo de algumas horas de suplício já não me encontrava com forças para subir para a camioneta, após as minhas constantes descidas ao improvisado W C, nem tão pouco me resguardava nos arbustos que ladeavam a picada e me transmitiam um pouco de privacidade. Simplesmente descia e agachava-me de cócoras entre os rodados, valia-me o meu camarada que me dava a mão e me puxava quase desfalecido para junto dele
Aproveitando uma das constantes paragens, o Farsola correu ao longo da coluna até encontrar um enfermeiro que trouxe consigo, este muito solicito e compadecido com o meu frágil estado viajou comigo durante 2 ou 3 km, mediu-me a tensão e obrigou-me a tomar 2 comprimidos LM, uns comprimidos tipo aspirina que eram receitados para todo o tipo de doenças, desde simples resfriados até ataques de paludismo, escusado será dizer que devido ao meu estado logo de seguida os vomitei.
O prestável do enfermeiro nada mais poderia fazer por mim e disse-me enquanto descia com a bolsa ás costas.
- Se entretanto não melhorares, assim que chegarmos á próxima base tomarei providencias para que sejas colocado a soro. Como tu sabes aqui não tenho condições para tratar de ti.
Ainda balbuciei um agradecimento enquanto ele corria para a sua viatura.
Da composição de cada grupo de combate com cerca de trinta homens, alem de um operador de transmissões com o seu rádio Racal Tr 28, também fazia parte um enfermeiro com a bolsa de enfermagem equipada com alguns utensílios de primeiros socorros, como gaze, ligaduras, injecções de soro anti-ofidico e para o paludismo, os ditos comprimidos LM e pouco mais. Quando nas extenuantes operações apeadas que poderiam durar vários dias, esta bolsa seria carregada ás costas, juntamente com o saco das rações e arma com respectivos carregadores.
MANUEL ALDEIAS

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Capítulo XII- E a estória continua

O sol brilhava com intensidade num céu azul e com um calor abrasador, a recordar-nos a todo o momento que estávamos em África. Contudo os constantes solavancos a que estávamos a ser submetidos, transportavam-nos á triste realidade de que não participávamos num alegre safari, antes pelo contrario, viajávamos desconfortavelmente na caixa de carga de uma camioneta como se de gado se tratá-se.
Agora atravessávamos uma região característica do Norte de Angola, com a estreita picada a passar por extensos vales totalmente cobertos de luxuriantes florestas de um verde intenso, de onde saíamos por vezes para contornarmos altos morros cobertos de denso capim doirado, que ondulava docemente ao sabor de uma fraca, mas sufocante brisa.
A marcha estava a decorrer a passo de caracol, demasiado lenta, o que me levava a concluir que os soldados estavam a percorrer alguns dos troços mais perigosos a pé. Lá para a frente da coluna de quando em vez ouviam-se tiros de arma G3, o que levou o meu companheiro a exclamar.
- Os nossos estão a fazer tiros de reconhecimento, mas os turras não são parvos e, mesmo que estejam ali emboscados não respondem.
Pela lentidão provavelmente também estariam a proceder á picagem da estrada á procura de minas enterradas. O método utilizado para detectar as perigosas minas escondidas na picada era muito rudimentar e, consistia numa vara de madeira com uma ponta afiada em ferro, com a qual os soldados caminhando vagarosamente na frente da coluna e, com todas as precauções iam picando a terra á procura da caixa de madeira em cujo interior se encontrava a temível arma, o que se revelava muito moroso e pouco eficaz.
Depois de muito tempo calado o Farsola que seguia no lado oposto ao meu, gritou-me despertando-me dos maus pensamentos que me toldavam a mente.
- É pá! Agora só o que faltava era os cabrões presentearem-nos com alguma mina.
- Pior será se a mina for conjugada com emboscada – Respondi eu receoso.
- Vira para lá essa boca. Não sejas agoirento – Rematou contrariado.
Pelo final da tarde e á semelhança do dia anterior, o céu que até aqui se apresentava de um belo e radiante azul, começa lentamente a carregar-se de grossas nuvens negras e, um violento vendaval acompanhado de chuva intensa, começa a cair sobre nós e sobre os restantes martirizados soldados que viajavam a peito descoberto nos bancos de madeira das viaturas.
O vento soprava com enorme intensidade e foi com dificuldade que abri o saco e retirei a capa camuflada que designávamos por ponche, quando a consegui vestir já me encontrava completamente encharcado, o mesmo acontecendo com o meu camarada que praguejava em altos berros, amaldiçoando os turras, a guerra e todos aqueles que dela tiravam partido.
MANUEL ALDEIAS



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Capíulo XI- A rapariga do meu amigo Farsola, a Aurora.

Clareava o céu sob o imenso e deslumbrante verde da floresta Africana adivinhando mais um dia de tórrido calor, quando esta caravana de saltimbancos se colocou em movimento para aquela que tudo indicava fosse a ultima etapa até São Salvador do Congo.
O comandante da coluna informou-nos que íamos continuar a avançar em direcção ao Norte e á perigosa fronteira faltando-nos ainda algumas centenas de km e, que a situação era preocupante pois havia informações que apontavam para a actividade de vários grupos inimigos na zona e, pediu a todos que se mantivessem atentos e não descurassem a vigilância afim de não sofrermos mais dissabores.
Agora com a manhã a dar lugar á tarde, tínhamos deixado para traz uma vasta zona de floresta galeria, salpicada aqui e ali por grandes morros cobertos de capim como se fossem pequenas ilhotas perdidas no meio de um vasto oceano verde
Nesta nova paisagem da savana Africana com que agora deparávamos, o sol brilhava intensamente sob o doirado do capim e a caravana rodava vagarosamente ao sabor dos buracos da picada, quando o meu camarada olhando-me com olhar melancólico, desabafa, dizendo-me:
- Este vasto capinzal faz-me recordar as searas a perder de vista, junto da aldeia da minha rapariga.
- Então tu conheces a terra da tua Aurora? Perguntei eu.
- Se conheço, foi lá perto que passamos a semana de campo quando terminei a recruta em Beja.
O Farsola tinha conhecido a sua Aurora num baile de sopeiras na Rua do Coliseu. A bela rapariga de apenas 16 anos, servia como criada numa casa burguesa nas Avenidas Novas. Era explorada por uma patroa cruel, cínica e sem escrúpulos e abusada sexualmente ás escondidas pelo gordo do patrão, um careca bonacheirão proprietário de uma herdade no Ribatejo onde criavam touros de lide, tendo-a já obrigado a abortar clandestinamente por duas vezes.
O Farsola para a livrar destes patrões tiranos, arranjara-lhe trabalho num bar de alterne no Cais do Sodré frequentado por marinheiros, daí a ingressar no mundo da prostituição foi apenas um passo
Foram viver para um quarto alugado que ficava ao cimo da Calçada da Gloria e, que de futuro se tornaria de grande utilidade por ficar apenas a dois passos do Bairro Alto e da Boáte Monte Negro, para onde ela acabaria por ir trabalhar mais tarde.
A Aurora era uma bonita e jovem moçoila muito morena, de longos cabelos e olhos negros, não lhe faltando clientes a quem cobrava 20 escudos por pouco mais de meia hora de prazer
- Não sou ciumento. Mas não permitia que a minha rapariga fizesse noites. Essas eram para mim – contava-me ele com nostalgia, recordando as noites de amor tórrido que passara com a sua amada, contando o dinheiro que esta ganhara durante o serão e, prosseguia dizendo.
– Quando não andava a fazer automóveis em Cascais juntamente com o meu grupo, via-me obrigado a exercer um controle cerrado sobre a minha rapariga, não a podia deixar andar com muito dinheiro, pois podia ser roubada ou agredida por algum gajo despeitado. Sabes Mike, a vida de chulo não é um mar de rosas como muitos julgarão. As gajas da vida têm que levar tareia quase todos os dias para se sentirem que são alguém e não apenas objectos sexuais.
A Aurora costumava enviar-lhe periodicamente uma nota de 500 escudos escondida nas amorosas cartas que lhe escrevia. A correspondência era sistematicamente violada e o dinheiro desaparecia, para evitar estes roubos decidira remeter o dinheiro em valor declarado, esse processo requeria uma deslocação á estação dos correios, mas era um envio totalmente seguro.
Ultimamente estas remessas estavam a ser cada vez mais espaçadas e o meu camarada andava triste e desconfiado de que a sua Aurora pudesse ter arranjado outro chulo e, pior ainda que esse a proibisse de lhe enviar dinheiro.
Para esclarecer essa situação resolvera escrever ao seu amigo Chico Bolinhos afim de lhe pedir que controlasse a Aurora e, avisa-se se notava algo de estranho com a sua rapariga.
O Chico Bolinhos também ele chulo de profissão no Bairro Alto, não tinha perdido tempo e enviara-lhe uma extensa carta dias antes da partida para Luanda. Entre um chorrilho de preocupações sobre o comportamento da rapariga, ainda lhe transmitira que se constava que a Aurora ficara grávida.
Ao comunicar estas dúvidas á Aurora esta respondera-lhe que não, que era apenas um pouco de gordura a mais e a idade também não perdoava, pois há praticamente dois anos que se não viam. Também lhe contara que há dois ou três meses atrás fizera mais uma visita á parteira da Praça do Chile e que o serviço tinha corrido tão mal que fora obrigada a recorrer ás urgências do Hospital de São José, acabando por lá ficar internada quase uma semana.
- Pelo menos uma semana esteve a minha rapariga sem trabalhar. Coitada, faço-lhe muita falta! Estas gajas da vida sem um homem por perto não se sabem governar – lamentava-se saudoso o meu camarada.
MANUEL ALDEIAS

sábado, 21 de agosto de 2010

Capítulo X -  Nessa noite triste e de má memoria os meus colegas de transmissões que almoçavam e jantavam num telheiro junto ao posto de rádio, dividiram comigo o seu rancho numa atitude de grande solidariedade e companheirismo.
Despedimo-nos pesarosos e, eu deitei-me na cama do Márêta que ao princípio da noite tinha partido de rádio ás costas, juntamente com o seu grupo de combate afim de participar na perseguição que estava a ser desencadeada ao grupo inimigo.
Nessa vastíssima região do distrito do Zaire todas as posições das nossas tropas tinham entrado em estado de prevenção. As operações em curso tinham sido interrompidas e os soldados desviados para efectuarem emboscadas e reconhecimentos nos prováveis trilhos de passagem. Tarefa hercúlea e quase impossível porque o inimigo dispersava nestas situações, camuflando-se no capim alto e nas florestas cerradas, também a imensidão do território contribuía para que a fuga para lá da fronteira tivesse pleno sucesso.
Passado tempo sobre este trágico acontecimento tive acesso á sua versão oficial, que é do seguinte teor:
Em 24 de Fevereiro de 1974 um forte grupo inimigo avaliado em cerca de 35 elementos emboscou as nossas tropas em protecção á rectaguarda da coluna do MVL entre Ambrizete e Quiximba, causando 6 mortos, 2 feridos graves, 6 feridos ligeiros e 2 prisioneiros. Um dos prisioneiros um soldado Metropolitano faleceu durante a caminhada, tendo sido o seu corpo recuperado em 27 de Fevereiro de 1974 pelas nossas tropas. O outro prisioneiro um soldado negro do recrutamento local chegou juntamente com os seus raptores ao Zaire ao cabo de uma viajem de 20 dias. O inimigo ainda capturou e danificou diverso material de guerra e de enfermagem.
MANUEL ALDEIAS 






- 10

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Capítulo IX - Durante o serão, nós os transmissões juntamente com os enfermeiros reunimo-nos na enfermaria e, num ambiente de enorme consternação e pesar choramos juntos a morte dos nossos camaradas e, elevamos ao céu uma prece para que a Virgem de Fátima cuidasse dos feridos e do Marialva feito prisioneiro juntamente com um soldado negro do recrutamento local.Este soldado negro pertencia aos designados grupos de mesclagem, composto por naturais da província, os quais complementavam as companhias Metropolitanas ao chegarem a Angola e eram distribuídos pelos quatro grupos de combate.
Tudo indicava para que um ataque com esta envergadura e de tão grande sucesso para o inimigo fosse obra do destemido chefe da FNLA, Pedro Afamado, no entanto o Cabeça Gorda não se cansava de afirmar.
-Quanto a mim houve aqui mão do Comandante Veneno. Pois ainda há duas semanas recebemos uma mensagem em que a DGS de Noqui informava que o gajo tinha atravessado a fronteira, vindo da base de Kamuna.
Essa base da FNLA – Frente Nacional para Libertação de Angola, chefiada por Holden Roberto – conhecida por Kamuna ficava a escassos 20 km da fronteira na Republica do Zaire. Também a apenas 14 km da fronteira e sensivelmente no meridiano de Meposo encontrava-se a base de Necuma, ambas dependiam da importante base de Kinkuso situada 120 Km mais para o interior. Não havia dúvidas de que estávamos numa zona bastante sensível e acompanhados por vizinhos bastante perigosos.
Informações posteriores á revolução dos cravos relatavam que tinham chegado a esta importante base de Kinkuso 120 instrutores militares chineses com o intuito de treinarem os militares da FNLA. A qual dispunha de cerca de 850 combatentes prontos a entrarem em Angola e continuava desde há algum tempo a recrutar coercivamente de entre os milhares de refugiados Angolanos, todos aqueles com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos.
As informações militares também previam um grande recrudescimento da actividade do exercito de Holden Roberto, e temia-se uma grande ofensiva da parte deste, apoiada abertamente pelas forças armadas Zairenses num tipo de guerra clássica, para a qual as nossas forças não estavam preparadas.Era destas bases que partiam os perigosos e bem treinados grupos móveis que se internavam em território Angolano afim de atacarem os aquartelamentos de fronteira, colocarem minas anti-carro nas picadas e também desencadear mortíferas emboscadas. Durante as suas deslocações estes grupos faziam-se acompanhar de carregadores e alimentavam-se de mel, frutos silvestres, carne seca e de animais que iam caçando. Ao contrário das nossas tropas estavam bastante motivados e perfeitamente adaptados á vida na mata, alem de serem profundos conhecedores do terreno.
Durante os seus trajectos tomavam grandes precauções, enviando batedores avançados a grande distancia para os alertarem sobre os movimentos da tropa, o mesmo acontecendo com guardas para lhes protegerem os flancos e a retaguarda. Dissimulavam ao máximo os seus trilhos de passagem, tentando deixar o menor número possível de indícios. Para atravessarem as picadas faziam-no por debaixo dos pontões quando estes existiam, ou estendendo panos para lhes passarem por cima, outras vezes faziam-no ás recuas para induzirem em erro as nossas tropas.
Manuel Aldeias 

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

E A SAGA CONTINUA

Capítulo VIII
Assim que chegamos a Quiximba dirigi-me rapidamente ao posto de rádio, como era habitual entre os operadores de transmissões quando nos deslocávamos em viagem e parávamos nestas pequenas bases.

A solidariedade entre os soldados com a especialidade de transmissões era muito grande, em vez de pernoitarmos enrolados na capa camuflada e debaixo das viaturas como faziam os restantes soldados, nós por norma dormíamos na cama do camarada que estivesse de serviço ao rádio ou na daquele que estivesse fora em operações.
O Bolachinha que acabava de sair do posto de rádio e depois de me cumprimentar perguntou-me com a voz emocionada.
- Então conta lá Mike! Assististe á chacina?
- Eh, pá! Foi por pouco. Mas como não me afastei do meu posto quase nada sei do que se passou. Conta-me lá, houve muitas baixas?
- Constasse que terá havido pelo menos seis mortos, dois desaparecidos e vários feridos graves – respondeu-me o Bolachinha muito triste e com a voz embargada pela emoção.
Era aqui em Quiximba por ser o local mais próximo desta carnificina que tinha sido montado o posto de comando das operações de socorro e portanto os meus colegas de transmissões estavam bastante bem informados de todos os pormenores, aliás tinham sido eles aqui que receberam o primeiro SOS.
O Bolachinha continuou o seu triste relato, dizendo-me também que o nosso colega Valinhas tinha sido evacuado para o Hospital Militar de Luanda gravemente ferido, tendo o seu rádio ficado inutilizado devido ao fogo inimigo e, que o primeiro pedido de SOS fora enviado por um colega de transmissões que seguia a meio da coluna.
Coitado do meu amigo Valinhas tão animado e optimista que estava naquela noite em Ambrizete. Como estaria ele agora?
Se sobrevivesse provavelmente seria mais um inválido, inutilizado por esta filha da puta de guerra e nunca mais voltaria a trabalhar no lameiro dos pais, na sua querida aldeia da Beira Baixa.
O nosso colega Cabeça Gorda que entretanto chegara junto a nós, confidenciou-nos bastante emocionado com o seu característico sotaque Alentejano.
- Todos os doze ocupantes das duas últimas viaturas foram mortos ou ficaram feridos e mesmo os primeiros que recuaram em seu socorro caíram num campo de minas.
O Cabeça Gorda ainda me disse que o inimigo muito matreiro enterrara na berma da picada um campo de ninas anti-pessoal, comandadas á distancia e que deflagrou quando os primeiros soldados vindos da frente se aproximavam avançando pela berma da estreita picada, retardando assim a chegada de socorro e dando tempo a que o grupo de assalto subisse ás duas viaturas e furtassem vários sacos com pertences pessoais, cinturões com carregadores de balas, algumas G3, a bolsa de enfermagem do Marialva e tudo indicava que aprisionara os dois soldados dados como desaparecidos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O João Abreu ex-graduado da c.cav.8450, que na altura desta terrível emboscada se encontrava na Canga a poucos km do Meposo, teve a amabilidade de me contactar a partir da sua maravilhosa Ilha da Madeira, dando conta de que o B. Caç 4912 era maioritariamente constituído por soldados Madeirenses e não por Açorianos como eu por lapso referi.
Ainda me informou que a 1ª companhia operacional deste Batalhão se encontrava em Cabeço da Velha e a 2ª e a 3ª nos locais por mim referidos.
Ao João Abreu os meus agradecimentos pelo seu contributo para o esclarecimento dos factos ocorridos durante esse negro período da historia recente de Portugal, que foi a guerra colonial.


Muita gente está a seguir esta minha estória e alguns têm-me telefonado e enviado e-mails, afirmando que não introduzem comentários porque não tem jeito para a escrita. Volto a referir que não se coíbam de inserir os comentários, e que podem escrever do modo genuíno como pensam, aliás é também assim de modo informal que eu estou a escrever esta minha estória.


E agora depois de feita a rectificação segue mais uma parte desta minha odisseia, agora com a chegada a Quiximba e uma breve descrição das precárias instalações das nossas tropas dispersas pelo imenso sertão Angolano.
Capítulo VII- Ao cabo de algumas dezenas de km e ao descrevermos uma sinuosa curva, o Farsola grita-me.
- Anima-te, pá! Estamos a chegar a Quiximba.
- Ainda bem. Já não era sem tempo – respondo eu acrescentando – Provavelmente pernoitamos lá, ao invés de prosseguirmos até São Salvador como previsto.
- Filha da puta de viagem, era preferível não termos saído do Luvo – Lamenta-se o meu companheiro de aventura.
Efectivamente começávamos a vislumbrar ao longe umas luzinhas muito ténues em circulo. Estávamos a aproximarmo-nos lentamente de Quiximba, um aglomerado de barracas de madeira cobertas com chapas de zinco que servia de aquartelamento ás nossas tropas.
O nosso exército dispunha de dezenas e dezenas de aquartelamentos deste tipo, por norma bastante distanciadas entre sí devido á enorme extensão do território e, disseminados por toda esta imensa vastidão da selva Angolana considerada zona operacional. Era uma ocupação militar designada por quadrícula, em que as enumeras companhias operacionais ficavam responsáveis por uma vasta região em forma de quadrilátero, contíguas umas ás outras e ocupando militarmente deste modo todo este vastíssimo território. A maioria das bases eram do género deste acampamento onde agora acabávamos de chegar, sendo a iluminação eléctrica fornecida por um gerador eléctrico e como não se dispunha de electrodomésticos, este só funcionava durante a noite com o principal intuito de garantir a segurança, iluminando com projectores as zonas circundantes que eram cercadas por arame farpado, ainda dentro deste recinto  existia em todo o seu perímetro um conjunto de abrigos cavados no chão, cobertos com grossa camada de terra e ligados entre si por uma funda vala. A água normalmente era abastecida a partir de algum rio próximo, transportada diariamente num depósito atrelado a um hunimog. Os poucos frigoríficos funcionavam com o recurso a petróleo e os alimentos eram cozinhados com a muita lenha existente nas redondezas. Estes acampamentos também dispunham de um pequeno forno a lenha para o fabrico de pão. Os abastecimentos eram realizados a partir de Luanda de quinze em quinze dias por grandes colunas de camiões, como esta onde nós agora vínhamos inseridos e que eram designados por MVL (Movimento de Viaturas Logísticas).
Já os poucos alimentos frescos de que dispúnhamos eram transportados semanalmente. No nosso caso desde São Salvador, em pequenas avionetas civis fretadas ou nas versáteis D O 27 militares, as quais também transportavam o tão ambicionado correio.
Até São Salvador vindos de Luanda os frescos eram transportados duas vezes por semana no avião de carga Nordatlas, conhecido entre nós por Barriga de Ginguba.
 Foi em locais deste genero que viveram e passaram parte da sua juventude cerca de 800.000 jovens Portugueses.
MANUEL ALDEIAS

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Capíulo VI- E a odisseia continua

Com o final da tarde o céu até aqui muito azul, começa-se a tingir de escuro com grossas nuvens negras. Os raios riscam o céu e uma forte trovoada começa a despejar torrentes de água que obrigam os nossos passageiros a deixar o lamaçal e virem fazer -nos companhia.
O tempo vai passando lento e nós encharcados que nem pintos, até que a certa altura o Farsola grita-me com inquietação.
- Eh, Pá! Se passarmos aqui a noite, os cabrões caçam-nos á mão.
- Triste vida a nossa e puta de guerra, estou farto desta merda toda – desabafei atemorizado.
- Ainda agora partimos de Luanda e já tenho saudades daquela bela vida que lá levávamos – lamenta-se o Farsola torcendo o quico encharcado de água.
- Eu tenho saudades é da Metrópole e, dos meus familiares e amigos que já não vejo há quase dois anos – murmurei eu com nostalgia.
Entretanto com o dia a findar e a chuva a retomar de intensidade, este autentico carrossel de saltimbancos põe-se em movimento. Pela frente ainda temos varias dezenas de km de picada perigosa com o inimigo a espreitar e a forte trovoada a nos atormentar e impor respeito. A negra noite é cortada por inúmeros relâmpagos que desenham figuras funestas e diabólicas no céu escuro que nem breu, seguidos de trovões estridentes a recordarem-nos os rebentamentos que nos feriram os ouvidos e tiraram a vida a alguns dos nossos camaradas.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Capíulo V- Mais um capitulo da minha odisseia

Agora já nos encontrávamos mais perto do final desta etapa e os turras ainda não se tinham metido connosco, não estava a correr mal esta viagem pelo sertão Angolano.

A coluna continuava a rodar normalmente na picada muito esburacada e, devido aos constantes saltos da viatura nós saltávamos juntamente com ela, mas sempre com a arma bem segura nas mãos e as cartucheiras na cinta, não podíamos descurar a segurança.
Repentinamente rebenta estrondoso e diabólico tiroteio de armas automáticas e metralhadoras pesadas, toda a coluna se imobiliza e nós saltamos rapidamente para debaixo da viatura protegendo-nos debaixo das suas rodas.
Sob este tiroteio terrível e infernal o Farsola grita-me.
- Os cabrões estão a atacar a cauda da coluna! Estão a dar porrada nos nossos amigos do Meposo.
E eu confirmo angustiado.
- Pois, é. Entre eles estão o transmissões Valinhas e o enfermeiro Marialva.
O Batalhão de Caçadores 4912 com sede em Noqui, tinha a 3º companhia destacada em Mepala e a 2º em Meposo- que estava agora a ser fortemente atacada e na qual estavam integrados o Valinhas e o Marialva- Esta companhia do Meposo, assim como o restante Batalhão 4912 eram constituidos por soldados atiradores Açoreanos. Apenas os graduados e os especialistas eram provenientes da Metrópole.
Efectivamente o inimigo tinha uma tremenda e bem montada emboscada á nossa espera. Deixara passar a quase totalidade das viaturas e atacava forte e feio as duas últimas, dois veículos hunimogues com seis soldados cada, que como já referi faziam parte da escolta protegendo-nos a retaguarda.
O inimigo tinha criteriosamente escolhido o local da emboscada, a picada muito estreita e sinuosa, o terreno bastante ravinado e a contornar um alto morro, não permitia que as viaturas da frente invertessem a marcha para virem em socorro dos que estavam a ser massacrados.
Parecia que os nossos estavam a reagir, mas muito timidamente, pois distinguiam-se alguns tiros de G3, mas muito poucos.
Entretanto passados minutos do começo deste inferno, passam por nós a correr alguns soldados das viaturas da frente, vinham curvados com as armas em riste, a gritarem, injuriando e chamando nomes e impropérios aos turras, ao mesmo tempo que se tentavam incentivar e encorajar mutuamente.
Algumas balas perdidas e estilhaços passam alto sobre nós e algumas assobiam batendo nos taipais metálicos das viaturas. Que será feito do nosso ancião que ficara sozinho em cima da camioneta?
Junto a nós a menina chorava desconsolada agarrada ao pescoço da mãe, enquanto o rapaz gritando descontroladamente se aninhara junto do Farsola.
Mais soldados correm e praguejam, subindo o morro tentando o envolvimento, o tiroteio de G3 e bazucas torna-se mais intenso, mas passado pouco tempo quase se faz silencio, apenas alguns rebentamentos de morteiros se fazem ouvir cada vês a rebentarem mais distante, sinal de que os turras retiram e os nossos os perseguem á morteirada.
Todo este inferno demoníaco se desenrola muito perto de nós, as viaturas emboscadas devem estar a uns 100 metros ou menos, mas nada conseguimos vislumbrar devido á curva que contorna o morro e á mata cerrada.
A coluna fica imobilizada durante longas horas e assistimos á chegada de um héli – canhão que nos sobrevoa fazendo um ruído ensurdecedor, de seguida aparecem dois helicópteros mais pequenos equipados com duas macas cada. Receamos que o pior possa ter acontecido aos nossos amigos e camaradas.
Entretanto ordenam-nos que subamos para os nossos postos em cima da camioneta,
o Farsola fica deitado com a arma apontada á mata cerrada, enquanto eu fico no lado oposto a controlar o alto capim que me bate na cara. O velhote que entretanto eu ajudara a descer, aninhara-se junto da mulher e das crianças debaixo da viatura e todos entoavam um enorme pranto.
MANUEL ALDEIAS

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Capítulo IV-Continua a minha viajem pelo setão Angolano

Partimos de Ambrizete com era hábito nestas deslocações ainda de madrugada, antes do sol nascer, para a última etapa com destino a São Salvador do Congo.
Esta seria a etapa mais difícil desta longa viagem, porque eram dezenas e dezenas de km por picadas de terra batida em péssimo estado, com muitos buracos ainda mais agravados por estarmos em plena época das chuvas. E viajarmos na caixa de carga da camioneta também não era nada agradável.
A composição da coluna sofrera alterações, a segurança fora reforçada, e nós também tomamos algumas medidas, limpamos  muito bem com um pano as nossas meninas, tendo especial atenção á zona da culatra, puxei várias vezes o manipulo, injectando e expelindo algumas balas, confirmando que tudo estava em condições e pronto para qualquer eventualidade Agora já não viajávamos só nós os dois, em Ambrizete entraram novos passageiros que nos faziam companhia.Sentado no chão e tal como nós aos trambolhões provocados pelos imensos buracos, seguia um ancião vestido andrajosamente, muito magro, seco, com uma pequena barbicha e um braço ao peito. Aparentava talvez cinquenta anos, não sei bem precisar, porque estas pessoas ostentavam uma idade superior aquela que tinham na realidade e a sua esperança de vida era muito baixa, penso que na época  não ultrapassaria os quarenta anos.
Também tínhamos por companhia uma jovem mãe, vestida ao modo tradicional das mulheres da tribo kicongo, com um pano garrido repleto de ramagens muito coloridas atado abaixo do peito, vinha acompanhada de dois filhos, uma menina de cinco ou seis anos com um pano atado á cinta e um rapaz um pouco mais velho, vestido simplesmente com uns calções bastante coçados e também descalço como todos os outros nossos companheiros de viajem. Segundo me disseram, todos eles regressavam a casa depois de uma ida ao Hospital.
Na nossa frente seguia uma camioneta civil com uma enorme carga de grades de cerveja, á qual o Farsola lançava um olhar de felino, farejando a oportunidade de deitar a mão a algumas garrafas.
Na nossa retaguarda vinha uma viatura militar com uma carga totalmente coberta por um oleado verde, o que não era comum, por aqui todas as cargas normalmente vinham descobertas, travadas no cimo com algumas tábuas atravessadas e amarradas com grossas cordas. O Farsola não resistiu á sua curiosidade de antigo larápio, na primeira paragem dirigiu-se á camioneta, levantou o oleado, mirou e correu para mim gritando esbaforido.
- Mike! Vamos bem acompanhados. Porra! É um carregamento de sobretudos de madeira.
Respondi-lhe, incomodado com a descoberta.
- Eh. Pá! Como a puta da guerra no norte está a aquecer, estão-se a precaver com caixões, Mau augúrio.
Viajávamos na cauda da coluna, atrás de nós só a camioneta dos caixões, e em último lugar para fechar este carrossel dois hunimogues com os soldados encarregados da protecção á retaguarda.
Com o escaldante sol Africano a pique e a água do cantil quase a ferver chegamos a Tamboco, uma grande Sanzala que se estendia de um e outro lado da poeirenta picada, os garotos aos bandos corriam ao lado dos hunimogues da tropa e os soldados atiravam-lhes algumas latas de conserva que rolavam pelo chão e provocavam uma renhida luta pela sua posse.
O Farsola aproveitou a pequena paragem e foi em corrida ao quartel encher os cantis de água, enquanto eu ficava de guarda aos nossos pertences.
Entretanto a coluna pôs-se em movimento e o meu camarada sem aparecer. Começava a ficar preocupado com a situação, apesar de saber que o Farsola era bastante desenrascado e portanto haveria de arranjar maneira de se desembaraçar da situação. Quando eu já desesperava de todo, á saída da povoação lá estava ele com os braços no ar a fazer sinal ao nosso motorista para parar.
Subiu para a camioneta cansado, e com voz ofegante disse.
- ÉH! Pá! No bar do Zé soldado, só já havia cerveja quente, de modo que tive de dar uma corrida até á cantina do civil que fica ao fundo da sanzala – e ao mesmo tempo que sacava duas cervejas dos grandes bolsos do camuflado, exclamava satisfeito.
- Toma lá! Ainda consegui estas duas bujecas fresquinhas.
Era um grande e prestimoso camarada este Farsola, e no relacionamento com os nossos amigos passageiros mostrava o seu lado mais humano, durante a viajem brincava muito com as crianças e oferecia-lhes atum com bolachas de água e sal, que era o nosso substituto do pão para acompanhar-mos as rações de combate. Muita fome e privações passávamos nós desditosos e ignorados soldados, calcorreando as selvas cerradas e hostis da imensa Angola, combatendo e sofrendo nesta terrivel e impiedosa guerra.

domingo, 18 de julho de 2010

Capítulo III-E a saga continua ( Hoje chegamos a Ambrizete)

O MVL partiu de madrugada, ainda de noite. Esta imensa coluna formada por dezenas e dezenas de viaturas, umas militares outras civis fretadas pela tropa, partia de quinze em quinze dias de Luanda e transportava todo o apoio logístico com destino aos diversos aquartelamentos disseminados pelo mato, e ia deixando pelos acampamentos que ficavam na sua rota os respectivos camiões. Chegada a São Salvador lá bem no norte invertia a marcha e agora em sentido inverso, ia recuperando de novo essas viaturas que voltavam a engrossar a coluna de volta a Luanda.
A protecção estava a cargo das nossas tropas que para o efeito intercalavam entre cada meia dúzia de viaturas, um hunimog com soldados fortemente armados. Á cabeça da coluna seguia uma berliet com apenas o condutor e outro soldado, sentados em cima de sacos de areia, era o chamado rebenta-minas.
Rodamos pela estrada alcatroada até Ambrizete situada na costa Atlântica, onde chegamos já ao fim da tarde, mas ainda a tempo de tomarmos um rico banho na sua maravilhosa praia de areias a perder de vista, banhada por uma luz doirada e cadente do final de dia. E extasiado assisti a um pôr do sol deslumbrante que se aproximava rapidamente do ocaso.
Sobranceiro á praia situava-se o Brinca-na-Areia um grande e conhecido café -restaurante que por ser dia de coluna se encontrava repleto de soldados. Dirigimo-nos para lá, a uma mesa ao fundo encontrava-se o meu colega de transmissões Valinhas, acompanhado do enfermeiro Marialva que iriam a partir daquele local fazer parte da escolta, reforçanda-a.
Ao ver-me o Valinhas chamou-me para a sua mesa e, demonstrando alegria e boa disposição confidenciou-me.
- É pá. Mike, isto das escoltas ao MVL é porreiro.
- Pois é – Disse eu, e indaguei.
- É muito melhor que fazer emboscadas junto da fronteira, não é?
- Se é! Mas o que tem de melhor são estas mariscadas aqui no Brinca -na – Areia.
Juntamente com estes dois amigos empanturramo-nos de cervejas cuca e do belo e apetitoso camarão, que aqui ainda tinha um preço mais acessível que em Luanda.
Bem comidos e melhor bebidos, despedimo-nos dos nossos amigos – Esta seria a ultima vez que os veria com vida, como adiante contarei – e dirigimo-nos para junto da nossa viatura, eu como era hábito fazer-mos nestas circunstancias, deitei-me em cima da capa camuflada com o saco e a arma por almofada e o céu estrelado por tecto.
O Farsola entregou-me o seu saco, pôs a arma a tiracolo e disse-me com a voz entaramelada pela cerveja.
- Guarda o meu saco, que eu vou ver se faço pela vida.
Ainda lhe recomendei.
-Não te metas em sarilhos. Ouvis-te?
Mas ele já se tinha afastado e não me ligou.
Pela madrugada sou acordado com um pontapé no cu, seguido do vozeirão cavernoso e inconfundivel do Farsola que me diz.
- Mike. Vê lá se acordas que os motores já estão em aquecimento e vamos partir - E com um sorriso de orelha a orelha rematou. 
- Ganhei uma pipa de massa, a jogar á lerpa. Depenei os papalvos dos maçaricos que vão para Noqui! Os gajos ainda trazem grana fresca do Puto.
- Ai. Sim? interroguei eu.
- Pois é pá! E ainda lhes fanei esta garrafa de água do Puto.
- Não me digas que te meteste outra vez na vermelhinha? Perguntei com ar reprovador.
Não me respondeu. A vermelhinha é um jogo de três cartas da mais pura batota, e consiste em escolher uma dama de um naipe vermelho, de entre as outras duas de naipe preto. O Farsola era exímio a manipular as três cartas, baralhando completamente a vítima que ele pretendia ludibriar, e a quem só deixava ganhar o primeiro jogo a fim de o entusiasmar a apostar mais forte.
Geralmente a vitima apostava o dinheiro e na falta deste os seus pertences. A garrafa de água do Puto a que o Farsola se referiu e me mostrou, era o nome que os indígenas davam á aguardente e terá sido ganha com este jogo.
Era um jogo altamente proibido que quase sempre acabava mal, dando origem a cenas de grande discussão e até de pancadaria, pelo facto das vítimas se sentirem burladas.
Por todas estas razões pouquíssimas vezes presenciei este jogo, que apenas era executado e muito raramente em locais de grande movimento e de passagem, onde ninguém se conhecia.



sexta-feira, 16 de julho de 2010

Capítulo II-Continuação da minha ida á consulta do H. M. de Luanda

Passada uma semana da primeira consulta ao Dr. Taborda, voltei a deslocar-me á Mamarrosa e fui novamente visitar o médico, voltando a afirmar-lhe que tinha bebido o leite condensado, mas que tudo o que comia vomitava e que agora as dores eram insuportáveis.
Para meu deleite e depois de me ouvir atentamente disse-me.
- Pois é Mike. Sendo assim, vais tratar das coisas para seguires no próximo MVL para Luanda, afim de efectuares algumas radiografias no Hospital Militar.
Agradeci-lhe a atenção, despedi-me e, quando me dirigia para a saída ainda o ouvi dizer
- Em Luanda tem cuidado com as cervejas e com o camarão, não são bons amigos do estômago.
Sempre me intrigou o bom do médico não ter descoberto a minha tramóia, tanto mais que as minhas queixas eram exactamente iguais ás do Farsola e praticamente coincidentes no tempo.
Atribuo tudo isto ao facto de ele ser sensível á nossa situação. Isto é, estarmos os dois já com praticamente dois anos de comissão, o que tínhamos passado anteriormente em Nambuangongo, na Força de Intervenção e agora neste cu de Judas.
Nunca tive oportunidade de esclarecer este episódio com o Dr. Taborda pois ele infelizmente faleceu vítima de um acidente de viação pouco tempo após o seu regresso á metrópole.
Durante a nossa curta estadia em Luanda estivemos instalados nos Adidos um quartel na periferia da cidade, onde ficavam os soldados que viessem tratar de assuntos, ou que simplesmente estivessem em transito.
Aqui a vida não poderia ser melhor, pela manha deslocávamo-nos ao Hospital afim de realizar-mos consultas e outros exames. De tarde após ingerirmos o intragável rancho, íamos até á praia na Ilha dar um mergulho nas suas águas tépidas e cristalinas, pois estávamos na estação quente. A noite era passada nas cervejarias da baixa da cidade – Portugália, Versalhes. Ou nos cinemas e noutros locais da vida nocturna que fervilhavam pela grande e maravilhosa cidade que era a bela capital de Angola.
Mas…. Como tudo o que é bom passa depressa, ao fim dumas breves três semanas, devido aos exames se terem revelado inconclusivos, como era de esperar …. Eis que de novo temos que apanhar o maldito MVL de regresso ao abominável mato e á fatídica guerra.
Filha da puta de guerra que já tinha ceifado dois anos á minha juventude. Estava farto de dormir debaixo do chão, feito coelho, acordar ao som de tiros, rebentamentos, suspiros e ais, mas …. Enfim por enquanto estava vivo e inteiro e isso era o que mais interessava naquele momento.
Afim de nos ser passada uma guia de marcha para a viagem, tivemos que nos fardar a rigor e irmo-nos apresentar ao sargento da secretaría dos Adidos. Eu tinha na altura o cabelo um pouco crescido, o que me ajudava a disfarçar a minha condição de soldado na noite Angolana. O homem quando me viu entrar olhou-me para o cabelo e desatou em altos berros.
- Rua! Ponha-se já na rua, e só apareça ao pé de mim com o cabelo devidamente cortado.
- Rua!- Ainda voltou a repetir o lateiro de merda! Cabrão! Filho da puta!
Estes chicos tinham o umbigo tão grande, que por vezes nos ignoravam, o que até acabava por ser vantajoso.
Mandei cortar o cabelo e apresentei-me de novo ao Chico, que desta vez simplesmente me ignorou, possivelmente já nem me reconheceu entre tantos soldados vestidos de igual e com a mesma idade.
Manuel Aldeias

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Capítulo I-
Encontro-me presentemente a passar à escrita, a minha ida à consulta do Hospital Militar de Luanda, acompanhado do meu colega Farsola e, á medida que for escrevendo vou publicando no BLOG.
Assim sendo, aqui vai a primeira parte dessa odisseia, em que apenas alterei os nomes dos intervenientes.
 O meu amigo Farsola não escondia de ninguém o seu lamentável e  tumultuoso passado de larápio nas ruas de Cascais.

De altura mediana, gorducho, cabelo preto e liso já bastante ralo e com grandes entradas, era uma figura peculiar. Mais velho que todos nós cerca de 5 anos, tinha chegado à vida militar bastante tarde devido a ter cumprido pena de prisão.
Ele e o seu bando de delinquentes dedicavam-se ao arrombamento e roubo de bens deixados no interior dos automóveis – Nunca me faltava o dinheiro – gabava-se ele muitas vezes – Amachucávamos as notas em pequenas bolas antes de as colocarmos nos bolsos das calças.
O seu gang tinha sido desmantelado e condenado. Após o cumprimento da pena a que fora sujeito pelo tribunal, ingressara compulsivamente na tropa e enviado para Angola e para a pior zona de guerra – Nambuangongo. Tinha sido ali naqueles tempos difíceis dos ataques ao aquartelamento, das emboscadas mortíferas e das duras e espinhosas operações apeadas naquela intricada região dos Dembos, no Norte de Angola, que nos conhecemos e iniciamos a nossa amizade.
Apesar do seu passado pouco recomendável era um bom camarada, amigo do seu amigo, gingão, rebelde e desenrascado, em suma um bon vivan.
Com o regresso da nossa antiga companhia á Metrópole, e como a nós por termos ido em rendição individual, ainda nos faltar algum tempo para terminarmos a comissão, fomos enviados para junto da fronteira Norte.
O Farsola fora colocado na sede da companhia “ Os Felinos” em Mamarrosa, uma antiga roça de café no norte de Angola, e eu a 7 km dali numa pequena base em cima da linha de fronteira, chamada Luvo.
Numa tarde bastante quente e a ameaçar trovoada, desloquei-me em coluna militar á Mamarrosa. Á saída das viaturas sou abordado pelo Farsola que me diz.
- Mike, quero despedir-me de ti, pois vou passar uns dias a Luanda, mais precisamente ao Hospital Militar.
- Então estás doente? Perguntei preocupado.
- Achas? Simplesmente dei a volta ao Dr. Taborda.
De seguida contou-me pormenorizadamente como conseguiu enganar o nosso médico, fazendo-lhe crer que possivelmente teria uma úlcera no estômago, instigando-me a proceder de igual modo.
Não perdi tempo e, valendo-me das suas instruções rapidamente me dirigi ao Dr. Taborda. Este encontrava-se no seu improvisado gabinete em madeira coberto por chapas zincadas, junto do qual também funcionava a enfermaria.
Ao ver-me entrar, o medico que me conhecia perfeitamente, pois éramos muito poucos, perguntou-me:
- Então Mike! Entra! O que te trás por cá?
Depois de o cumprimentar, queixei-me dos sintomas que o Farsola me havia ensinado, na esperança de também eu ser enviado a Luanda. E não é que o nosso prestimoso e amável médico me prescreve exatamente o mesmo, que tinha prescrito ao Farsola duas semanas antes? Dizendo-me:
- Da ração de combate e do arroz com salsichas, que é o que todos nós comemos, não te posso livrar – e continuou – Mas vou dar indicações para te entregarem umas latas de leite condensado.
A primeira parte do plano estava a decorrer lindamente. De posse das latas de leite condensado encaminhei-me para a coluna, e segui de novo para o inferno do Luvo e para as noites mal dormidas no chão lamacento dos abrigos.
Escusado será dizer que como não sou apreciador de  leite, tratei logo de me desfazer das latas, oferecendo-as ao guloso do Mouraria que lhes chamou um figo.
Manuel Aldeias