O sol brilhava com intensidade num céu azul e com um calor abrasador, a recordar-nos a todo o momento que estávamos em África. Contudo os constantes solavancos a que estávamos a ser submetidos, transportavam-nos á triste realidade de que não participávamos num alegre safari, antes pelo contrario, viajávamos desconfortavelmente na caixa de carga de uma camioneta como se de gado se tratá-se.
Agora atravessávamos uma região característica do Norte de Angola, com a estreita picada a passar por extensos vales totalmente cobertos de luxuriantes florestas de um verde intenso, de onde saíamos por vezes para contornarmos altos morros cobertos de denso capim doirado, que ondulava docemente ao sabor de uma fraca, mas sufocante brisa.
A marcha estava a decorrer a passo de caracol, demasiado lenta, o que me levava a concluir que os soldados estavam a percorrer alguns dos troços mais perigosos a pé. Lá para a frente da coluna de quando em vez ouviam-se tiros de arma G3, o que levou o meu companheiro a exclamar.
- Os nossos estão a fazer tiros de reconhecimento, mas os turras não são parvos e, mesmo que estejam ali emboscados não respondem.
Pela lentidão provavelmente também estariam a proceder á picagem da estrada á procura de minas enterradas. O método utilizado para detectar as perigosas minas escondidas na picada era muito rudimentar e, consistia numa vara de madeira com uma ponta afiada em ferro, com a qual os soldados caminhando vagarosamente na frente da coluna e, com todas as precauções iam picando a terra á procura da caixa de madeira em cujo interior se encontrava a temível arma, o que se revelava muito moroso e pouco eficaz.
Depois de muito tempo calado o Farsola que seguia no lado oposto ao meu, gritou-me despertando-me dos maus pensamentos que me toldavam a mente.
- É pá! Agora só o que faltava era os cabrões presentearem-nos com alguma mina.
- Pior será se a mina for conjugada com emboscada – Respondi eu receoso.
- Vira para lá essa boca. Não sejas agoirento – Rematou contrariado.
Pelo final da tarde e á semelhança do dia anterior, o céu que até aqui se apresentava de um belo e radiante azul, começa lentamente a carregar-se de grossas nuvens negras e, um violento vendaval acompanhado de chuva intensa, começa a cair sobre nós e sobre os restantes martirizados soldados que viajavam a peito descoberto nos bancos de madeira das viaturas.
O vento soprava com enorme intensidade e foi com dificuldade que abri o saco e retirei a capa camuflada que designávamos por ponche, quando a consegui vestir já me encontrava completamente encharcado, o mesmo acontecendo com o meu camarada que praguejava em altos berros, amaldiçoando os turras, a guerra e todos aqueles que dela tiravam partido.
MANUEL ALDEIAS
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Capíulo XI- A rapariga do meu amigo Farsola, a Aurora.
Clareava o céu sob o imenso e deslumbrante verde da floresta Africana adivinhando mais um dia de tórrido calor, quando esta caravana de saltimbancos se colocou em movimento para aquela que tudo indicava fosse a ultima etapa até São Salvador do Congo.
O comandante da coluna informou-nos que íamos continuar a avançar em direcção ao Norte e á perigosa fronteira faltando-nos ainda algumas centenas de km e, que a situação era preocupante pois havia informações que apontavam para a actividade de vários grupos inimigos na zona e, pediu a todos que se mantivessem atentos e não descurassem a vigilância afim de não sofrermos mais dissabores.
Agora com a manhã a dar lugar á tarde, tínhamos deixado para traz uma vasta zona de floresta galeria, salpicada aqui e ali por grandes morros cobertos de capim como se fossem pequenas ilhotas perdidas no meio de um vasto oceano verde
Nesta nova paisagem da savana Africana com que agora deparávamos, o sol brilhava intensamente sob o doirado do capim e a caravana rodava vagarosamente ao sabor dos buracos da picada, quando o meu camarada olhando-me com olhar melancólico, desabafa, dizendo-me:
- Este vasto capinzal faz-me recordar as searas a perder de vista, junto da aldeia da minha rapariga.
- Então tu conheces a terra da tua Aurora? Perguntei eu.
- Se conheço, foi lá perto que passamos a semana de campo quando terminei a recruta em Beja.
O Farsola tinha conhecido a sua Aurora num baile de sopeiras na Rua do Coliseu. A bela rapariga de apenas 16 anos, servia como criada numa casa burguesa nas Avenidas Novas. Era explorada por uma patroa cruel, cínica e sem escrúpulos e abusada sexualmente ás escondidas pelo gordo do patrão, um careca bonacheirão proprietário de uma herdade no Ribatejo onde criavam touros de lide, tendo-a já obrigado a abortar clandestinamente por duas vezes.
O Farsola para a livrar destes patrões tiranos, arranjara-lhe trabalho num bar de alterne no Cais do Sodré frequentado por marinheiros, daí a ingressar no mundo da prostituição foi apenas um passo
Foram viver para um quarto alugado que ficava ao cimo da Calçada da Gloria e, que de futuro se tornaria de grande utilidade por ficar apenas a dois passos do Bairro Alto e da Boáte Monte Negro, para onde ela acabaria por ir trabalhar mais tarde.
A Aurora era uma bonita e jovem moçoila muito morena, de longos cabelos e olhos negros, não lhe faltando clientes a quem cobrava 20 escudos por pouco mais de meia hora de prazer
- Não sou ciumento. Mas não permitia que a minha rapariga fizesse noites. Essas eram para mim – contava-me ele com nostalgia, recordando as noites de amor tórrido que passara com a sua amada, contando o dinheiro que esta ganhara durante o serão e, prosseguia dizendo.
– Quando não andava a fazer automóveis em Cascais juntamente com o meu grupo, via-me obrigado a exercer um controle cerrado sobre a minha rapariga, não a podia deixar andar com muito dinheiro, pois podia ser roubada ou agredida por algum gajo despeitado. Sabes Mike, a vida de chulo não é um mar de rosas como muitos julgarão. As gajas da vida têm que levar tareia quase todos os dias para se sentirem que são alguém e não apenas objectos sexuais.
A Aurora costumava enviar-lhe periodicamente uma nota de 500 escudos escondida nas amorosas cartas que lhe escrevia. A correspondência era sistematicamente violada e o dinheiro desaparecia, para evitar estes roubos decidira remeter o dinheiro em valor declarado, esse processo requeria uma deslocação á estação dos correios, mas era um envio totalmente seguro.
Ultimamente estas remessas estavam a ser cada vez mais espaçadas e o meu camarada andava triste e desconfiado de que a sua Aurora pudesse ter arranjado outro chulo e, pior ainda que esse a proibisse de lhe enviar dinheiro.
Para esclarecer essa situação resolvera escrever ao seu amigo Chico Bolinhos afim de lhe pedir que controlasse a Aurora e, avisa-se se notava algo de estranho com a sua rapariga.
O Chico Bolinhos também ele chulo de profissão no Bairro Alto, não tinha perdido tempo e enviara-lhe uma extensa carta dias antes da partida para Luanda. Entre um chorrilho de preocupações sobre o comportamento da rapariga, ainda lhe transmitira que se constava que a Aurora ficara grávida.
Ao comunicar estas dúvidas á Aurora esta respondera-lhe que não, que era apenas um pouco de gordura a mais e a idade também não perdoava, pois há praticamente dois anos que se não viam. Também lhe contara que há dois ou três meses atrás fizera mais uma visita á parteira da Praça do Chile e que o serviço tinha corrido tão mal que fora obrigada a recorrer ás urgências do Hospital de São José, acabando por lá ficar internada quase uma semana.
- Pelo menos uma semana esteve a minha rapariga sem trabalhar. Coitada, faço-lhe muita falta! Estas gajas da vida sem um homem por perto não se sabem governar – lamentava-se saudoso o meu camarada.
MANUEL ALDEIAS
O comandante da coluna informou-nos que íamos continuar a avançar em direcção ao Norte e á perigosa fronteira faltando-nos ainda algumas centenas de km e, que a situação era preocupante pois havia informações que apontavam para a actividade de vários grupos inimigos na zona e, pediu a todos que se mantivessem atentos e não descurassem a vigilância afim de não sofrermos mais dissabores.
Agora com a manhã a dar lugar á tarde, tínhamos deixado para traz uma vasta zona de floresta galeria, salpicada aqui e ali por grandes morros cobertos de capim como se fossem pequenas ilhotas perdidas no meio de um vasto oceano verde
Nesta nova paisagem da savana Africana com que agora deparávamos, o sol brilhava intensamente sob o doirado do capim e a caravana rodava vagarosamente ao sabor dos buracos da picada, quando o meu camarada olhando-me com olhar melancólico, desabafa, dizendo-me:
- Este vasto capinzal faz-me recordar as searas a perder de vista, junto da aldeia da minha rapariga.
- Então tu conheces a terra da tua Aurora? Perguntei eu.
- Se conheço, foi lá perto que passamos a semana de campo quando terminei a recruta em Beja.
O Farsola tinha conhecido a sua Aurora num baile de sopeiras na Rua do Coliseu. A bela rapariga de apenas 16 anos, servia como criada numa casa burguesa nas Avenidas Novas. Era explorada por uma patroa cruel, cínica e sem escrúpulos e abusada sexualmente ás escondidas pelo gordo do patrão, um careca bonacheirão proprietário de uma herdade no Ribatejo onde criavam touros de lide, tendo-a já obrigado a abortar clandestinamente por duas vezes.
O Farsola para a livrar destes patrões tiranos, arranjara-lhe trabalho num bar de alterne no Cais do Sodré frequentado por marinheiros, daí a ingressar no mundo da prostituição foi apenas um passo
Foram viver para um quarto alugado que ficava ao cimo da Calçada da Gloria e, que de futuro se tornaria de grande utilidade por ficar apenas a dois passos do Bairro Alto e da Boáte Monte Negro, para onde ela acabaria por ir trabalhar mais tarde.
A Aurora era uma bonita e jovem moçoila muito morena, de longos cabelos e olhos negros, não lhe faltando clientes a quem cobrava 20 escudos por pouco mais de meia hora de prazer
- Não sou ciumento. Mas não permitia que a minha rapariga fizesse noites. Essas eram para mim – contava-me ele com nostalgia, recordando as noites de amor tórrido que passara com a sua amada, contando o dinheiro que esta ganhara durante o serão e, prosseguia dizendo.
– Quando não andava a fazer automóveis em Cascais juntamente com o meu grupo, via-me obrigado a exercer um controle cerrado sobre a minha rapariga, não a podia deixar andar com muito dinheiro, pois podia ser roubada ou agredida por algum gajo despeitado. Sabes Mike, a vida de chulo não é um mar de rosas como muitos julgarão. As gajas da vida têm que levar tareia quase todos os dias para se sentirem que são alguém e não apenas objectos sexuais.
A Aurora costumava enviar-lhe periodicamente uma nota de 500 escudos escondida nas amorosas cartas que lhe escrevia. A correspondência era sistematicamente violada e o dinheiro desaparecia, para evitar estes roubos decidira remeter o dinheiro em valor declarado, esse processo requeria uma deslocação á estação dos correios, mas era um envio totalmente seguro.
Ultimamente estas remessas estavam a ser cada vez mais espaçadas e o meu camarada andava triste e desconfiado de que a sua Aurora pudesse ter arranjado outro chulo e, pior ainda que esse a proibisse de lhe enviar dinheiro.
Para esclarecer essa situação resolvera escrever ao seu amigo Chico Bolinhos afim de lhe pedir que controlasse a Aurora e, avisa-se se notava algo de estranho com a sua rapariga.
O Chico Bolinhos também ele chulo de profissão no Bairro Alto, não tinha perdido tempo e enviara-lhe uma extensa carta dias antes da partida para Luanda. Entre um chorrilho de preocupações sobre o comportamento da rapariga, ainda lhe transmitira que se constava que a Aurora ficara grávida.
Ao comunicar estas dúvidas á Aurora esta respondera-lhe que não, que era apenas um pouco de gordura a mais e a idade também não perdoava, pois há praticamente dois anos que se não viam. Também lhe contara que há dois ou três meses atrás fizera mais uma visita á parteira da Praça do Chile e que o serviço tinha corrido tão mal que fora obrigada a recorrer ás urgências do Hospital de São José, acabando por lá ficar internada quase uma semana.
- Pelo menos uma semana esteve a minha rapariga sem trabalhar. Coitada, faço-lhe muita falta! Estas gajas da vida sem um homem por perto não se sabem governar – lamentava-se saudoso o meu camarada.
MANUEL ALDEIAS
sábado, 21 de agosto de 2010
Capítulo X - Nessa noite triste e de má memoria os meus colegas de transmissões que almoçavam e jantavam num telheiro junto ao posto de rádio, dividiram comigo o seu rancho numa atitude de grande solidariedade e companheirismo.
Despedimo-nos pesarosos e, eu deitei-me na cama do Márêta que ao princípio da noite tinha partido de rádio ás costas, juntamente com o seu grupo de combate afim de participar na perseguição que estava a ser desencadeada ao grupo inimigo.
Nessa vastíssima região do distrito do Zaire todas as posições das nossas tropas tinham entrado em estado de prevenção. As operações em curso tinham sido interrompidas e os soldados desviados para efectuarem emboscadas e reconhecimentos nos prováveis trilhos de passagem. Tarefa hercúlea e quase impossível porque o inimigo dispersava nestas situações, camuflando-se no capim alto e nas florestas cerradas, também a imensidão do território contribuía para que a fuga para lá da fronteira tivesse pleno sucesso.
Passado tempo sobre este trágico acontecimento tive acesso á sua versão oficial, que é do seguinte teor:
Em 24 de Fevereiro de 1974 um forte grupo inimigo avaliado em cerca de 35 elementos emboscou as nossas tropas em protecção á rectaguarda da coluna do MVL entre Ambrizete e Quiximba, causando 6 mortos, 2 feridos graves, 6 feridos ligeiros e 2 prisioneiros. Um dos prisioneiros um soldado Metropolitano faleceu durante a caminhada, tendo sido o seu corpo recuperado em 27 de Fevereiro de 1974 pelas nossas tropas. O outro prisioneiro um soldado negro do recrutamento local chegou juntamente com os seus raptores ao Zaire ao cabo de uma viajem de 20 dias. O inimigo ainda capturou e danificou diverso material de guerra e de enfermagem.
MANUEL ALDEIAS
- 10
Despedimo-nos pesarosos e, eu deitei-me na cama do Márêta que ao princípio da noite tinha partido de rádio ás costas, juntamente com o seu grupo de combate afim de participar na perseguição que estava a ser desencadeada ao grupo inimigo.
Nessa vastíssima região do distrito do Zaire todas as posições das nossas tropas tinham entrado em estado de prevenção. As operações em curso tinham sido interrompidas e os soldados desviados para efectuarem emboscadas e reconhecimentos nos prováveis trilhos de passagem. Tarefa hercúlea e quase impossível porque o inimigo dispersava nestas situações, camuflando-se no capim alto e nas florestas cerradas, também a imensidão do território contribuía para que a fuga para lá da fronteira tivesse pleno sucesso.
Passado tempo sobre este trágico acontecimento tive acesso á sua versão oficial, que é do seguinte teor:
Em 24 de Fevereiro de 1974 um forte grupo inimigo avaliado em cerca de 35 elementos emboscou as nossas tropas em protecção á rectaguarda da coluna do MVL entre Ambrizete e Quiximba, causando 6 mortos, 2 feridos graves, 6 feridos ligeiros e 2 prisioneiros. Um dos prisioneiros um soldado Metropolitano faleceu durante a caminhada, tendo sido o seu corpo recuperado em 27 de Fevereiro de 1974 pelas nossas tropas. O outro prisioneiro um soldado negro do recrutamento local chegou juntamente com os seus raptores ao Zaire ao cabo de uma viajem de 20 dias. O inimigo ainda capturou e danificou diverso material de guerra e de enfermagem.
MANUEL ALDEIAS
- 10
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Capítulo IX - Durante o serão, nós os transmissões juntamente com os enfermeiros reunimo-nos na enfermaria e, num ambiente de enorme consternação e pesar choramos juntos a morte dos nossos camaradas e, elevamos ao céu uma prece para que a Virgem de Fátima cuidasse dos feridos e do Marialva feito prisioneiro juntamente com um soldado negro do recrutamento local.Este soldado negro pertencia aos designados grupos de mesclagem, composto por naturais da província, os quais complementavam as companhias Metropolitanas ao chegarem a Angola e eram distribuídos pelos quatro grupos de combate.
Tudo indicava para que um ataque com esta envergadura e de tão grande sucesso para o inimigo fosse obra do destemido chefe da FNLA, Pedro Afamado, no entanto o Cabeça Gorda não se cansava de afirmar.
-Quanto a mim houve aqui mão do Comandante Veneno. Pois ainda há duas semanas recebemos uma mensagem em que a DGS de Noqui informava que o gajo tinha atravessado a fronteira, vindo da base de Kamuna.
Essa base da FNLA – Frente Nacional para Libertação de Angola, chefiada por Holden Roberto – conhecida por Kamuna ficava a escassos 20 km da fronteira na Republica do Zaire. Também a apenas 14 km da fronteira e sensivelmente no meridiano de Meposo encontrava-se a base de Necuma, ambas dependiam da importante base de Kinkuso situada 120 Km mais para o interior. Não havia dúvidas de que estávamos numa zona bastante sensível e acompanhados por vizinhos bastante perigosos.
Informações posteriores á revolução dos cravos relatavam que tinham chegado a esta importante base de Kinkuso 120 instrutores militares chineses com o intuito de treinarem os militares da FNLA. A qual dispunha de cerca de 850 combatentes prontos a entrarem em Angola e continuava desde há algum tempo a recrutar coercivamente de entre os milhares de refugiados Angolanos, todos aqueles com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos.
As informações militares também previam um grande recrudescimento da actividade do exercito de Holden Roberto, e temia-se uma grande ofensiva da parte deste, apoiada abertamente pelas forças armadas Zairenses num tipo de guerra clássica, para a qual as nossas forças não estavam preparadas.Era destas bases que partiam os perigosos e bem treinados grupos móveis que se internavam em território Angolano afim de atacarem os aquartelamentos de fronteira, colocarem minas anti-carro nas picadas e também desencadear mortíferas emboscadas. Durante as suas deslocações estes grupos faziam-se acompanhar de carregadores e alimentavam-se de mel, frutos silvestres, carne seca e de animais que iam caçando. Ao contrário das nossas tropas estavam bastante motivados e perfeitamente adaptados á vida na mata, alem de serem profundos conhecedores do terreno.
Durante os seus trajectos tomavam grandes precauções, enviando batedores avançados a grande distancia para os alertarem sobre os movimentos da tropa, o mesmo acontecendo com guardas para lhes protegerem os flancos e a retaguarda. Dissimulavam ao máximo os seus trilhos de passagem, tentando deixar o menor número possível de indícios. Para atravessarem as picadas faziam-no por debaixo dos pontões quando estes existiam, ou estendendo panos para lhes passarem por cima, outras vezes faziam-no ás recuas para induzirem em erro as nossas tropas.
Manuel Aldeias
Tudo indicava para que um ataque com esta envergadura e de tão grande sucesso para o inimigo fosse obra do destemido chefe da FNLA, Pedro Afamado, no entanto o Cabeça Gorda não se cansava de afirmar.
-Quanto a mim houve aqui mão do Comandante Veneno. Pois ainda há duas semanas recebemos uma mensagem em que a DGS de Noqui informava que o gajo tinha atravessado a fronteira, vindo da base de Kamuna.
Essa base da FNLA – Frente Nacional para Libertação de Angola, chefiada por Holden Roberto – conhecida por Kamuna ficava a escassos 20 km da fronteira na Republica do Zaire. Também a apenas 14 km da fronteira e sensivelmente no meridiano de Meposo encontrava-se a base de Necuma, ambas dependiam da importante base de Kinkuso situada 120 Km mais para o interior. Não havia dúvidas de que estávamos numa zona bastante sensível e acompanhados por vizinhos bastante perigosos.
Informações posteriores á revolução dos cravos relatavam que tinham chegado a esta importante base de Kinkuso 120 instrutores militares chineses com o intuito de treinarem os militares da FNLA. A qual dispunha de cerca de 850 combatentes prontos a entrarem em Angola e continuava desde há algum tempo a recrutar coercivamente de entre os milhares de refugiados Angolanos, todos aqueles com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos.
As informações militares também previam um grande recrudescimento da actividade do exercito de Holden Roberto, e temia-se uma grande ofensiva da parte deste, apoiada abertamente pelas forças armadas Zairenses num tipo de guerra clássica, para a qual as nossas forças não estavam preparadas.Era destas bases que partiam os perigosos e bem treinados grupos móveis que se internavam em território Angolano afim de atacarem os aquartelamentos de fronteira, colocarem minas anti-carro nas picadas e também desencadear mortíferas emboscadas. Durante as suas deslocações estes grupos faziam-se acompanhar de carregadores e alimentavam-se de mel, frutos silvestres, carne seca e de animais que iam caçando. Ao contrário das nossas tropas estavam bastante motivados e perfeitamente adaptados á vida na mata, alem de serem profundos conhecedores do terreno.
Durante os seus trajectos tomavam grandes precauções, enviando batedores avançados a grande distancia para os alertarem sobre os movimentos da tropa, o mesmo acontecendo com guardas para lhes protegerem os flancos e a retaguarda. Dissimulavam ao máximo os seus trilhos de passagem, tentando deixar o menor número possível de indícios. Para atravessarem as picadas faziam-no por debaixo dos pontões quando estes existiam, ou estendendo panos para lhes passarem por cima, outras vezes faziam-no ás recuas para induzirem em erro as nossas tropas.
Manuel Aldeias
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
E A SAGA CONTINUA
Capítulo VIII
Assim que chegamos a Quiximba dirigi-me rapidamente ao posto de rádio, como era habitual entre os operadores de transmissões quando nos deslocávamos em viagem e parávamos nestas pequenas bases.
A solidariedade entre os soldados com a especialidade de transmissões era muito grande, em vez de pernoitarmos enrolados na capa camuflada e debaixo das viaturas como faziam os restantes soldados, nós por norma dormíamos na cama do camarada que estivesse de serviço ao rádio ou na daquele que estivesse fora em operações.
O Bolachinha que acabava de sair do posto de rádio e depois de me cumprimentar perguntou-me com a voz emocionada.
- Então conta lá Mike! Assististe á chacina?
- Eh, pá! Foi por pouco. Mas como não me afastei do meu posto quase nada sei do que se passou. Conta-me lá, houve muitas baixas?
- Constasse que terá havido pelo menos seis mortos, dois desaparecidos e vários feridos graves – respondeu-me o Bolachinha muito triste e com a voz embargada pela emoção.
Era aqui em Quiximba por ser o local mais próximo desta carnificina que tinha sido montado o posto de comando das operações de socorro e portanto os meus colegas de transmissões estavam bastante bem informados de todos os pormenores, aliás tinham sido eles aqui que receberam o primeiro SOS.
O Bolachinha continuou o seu triste relato, dizendo-me também que o nosso colega Valinhas tinha sido evacuado para o Hospital Militar de Luanda gravemente ferido, tendo o seu rádio ficado inutilizado devido ao fogo inimigo e, que o primeiro pedido de SOS fora enviado por um colega de transmissões que seguia a meio da coluna.
Coitado do meu amigo Valinhas tão animado e optimista que estava naquela noite em Ambrizete. Como estaria ele agora?
Se sobrevivesse provavelmente seria mais um inválido, inutilizado por esta filha da puta de guerra e nunca mais voltaria a trabalhar no lameiro dos pais, na sua querida aldeia da Beira Baixa.
O nosso colega Cabeça Gorda que entretanto chegara junto a nós, confidenciou-nos bastante emocionado com o seu característico sotaque Alentejano.
- Todos os doze ocupantes das duas últimas viaturas foram mortos ou ficaram feridos e mesmo os primeiros que recuaram em seu socorro caíram num campo de minas.
O Cabeça Gorda ainda me disse que o inimigo muito matreiro enterrara na berma da picada um campo de ninas anti-pessoal, comandadas á distancia e que deflagrou quando os primeiros soldados vindos da frente se aproximavam avançando pela berma da estreita picada, retardando assim a chegada de socorro e dando tempo a que o grupo de assalto subisse ás duas viaturas e furtassem vários sacos com pertences pessoais, cinturões com carregadores de balas, algumas G3, a bolsa de enfermagem do Marialva e tudo indicava que aprisionara os dois soldados dados como desaparecidos.
Assim que chegamos a Quiximba dirigi-me rapidamente ao posto de rádio, como era habitual entre os operadores de transmissões quando nos deslocávamos em viagem e parávamos nestas pequenas bases.
A solidariedade entre os soldados com a especialidade de transmissões era muito grande, em vez de pernoitarmos enrolados na capa camuflada e debaixo das viaturas como faziam os restantes soldados, nós por norma dormíamos na cama do camarada que estivesse de serviço ao rádio ou na daquele que estivesse fora em operações.
O Bolachinha que acabava de sair do posto de rádio e depois de me cumprimentar perguntou-me com a voz emocionada.
- Então conta lá Mike! Assististe á chacina?
- Eh, pá! Foi por pouco. Mas como não me afastei do meu posto quase nada sei do que se passou. Conta-me lá, houve muitas baixas?
- Constasse que terá havido pelo menos seis mortos, dois desaparecidos e vários feridos graves – respondeu-me o Bolachinha muito triste e com a voz embargada pela emoção.
Era aqui em Quiximba por ser o local mais próximo desta carnificina que tinha sido montado o posto de comando das operações de socorro e portanto os meus colegas de transmissões estavam bastante bem informados de todos os pormenores, aliás tinham sido eles aqui que receberam o primeiro SOS.
O Bolachinha continuou o seu triste relato, dizendo-me também que o nosso colega Valinhas tinha sido evacuado para o Hospital Militar de Luanda gravemente ferido, tendo o seu rádio ficado inutilizado devido ao fogo inimigo e, que o primeiro pedido de SOS fora enviado por um colega de transmissões que seguia a meio da coluna.
Coitado do meu amigo Valinhas tão animado e optimista que estava naquela noite em Ambrizete. Como estaria ele agora?
Se sobrevivesse provavelmente seria mais um inválido, inutilizado por esta filha da puta de guerra e nunca mais voltaria a trabalhar no lameiro dos pais, na sua querida aldeia da Beira Baixa.
O nosso colega Cabeça Gorda que entretanto chegara junto a nós, confidenciou-nos bastante emocionado com o seu característico sotaque Alentejano.
- Todos os doze ocupantes das duas últimas viaturas foram mortos ou ficaram feridos e mesmo os primeiros que recuaram em seu socorro caíram num campo de minas.
O Cabeça Gorda ainda me disse que o inimigo muito matreiro enterrara na berma da picada um campo de ninas anti-pessoal, comandadas á distancia e que deflagrou quando os primeiros soldados vindos da frente se aproximavam avançando pela berma da estreita picada, retardando assim a chegada de socorro e dando tempo a que o grupo de assalto subisse ás duas viaturas e furtassem vários sacos com pertences pessoais, cinturões com carregadores de balas, algumas G3, a bolsa de enfermagem do Marialva e tudo indicava que aprisionara os dois soldados dados como desaparecidos.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O João Abreu ex-graduado da c.cav.8450, que na altura desta terrível emboscada se encontrava na Canga a poucos km do Meposo, teve a amabilidade de me contactar a partir da sua maravilhosa Ilha da Madeira, dando conta de que o B. Caç 4912 era maioritariamente constituído por soldados Madeirenses e não por Açorianos como eu por lapso referi.
Ainda me informou que a 1ª companhia operacional deste Batalhão se encontrava em Cabeço da Velha e a 2ª e a 3ª nos locais por mim referidos.
Ao João Abreu os meus agradecimentos pelo seu contributo para o esclarecimento dos factos ocorridos durante esse negro período da historia recente de Portugal, que foi a guerra colonial.
Muita gente está a seguir esta minha estória e alguns têm-me telefonado e enviado e-mails, afirmando que não introduzem comentários porque não tem jeito para a escrita. Volto a referir que não se coíbam de inserir os comentários, e que podem escrever do modo genuíno como pensam, aliás é também assim de modo informal que eu estou a escrever esta minha estória.
E agora depois de feita a rectificação segue mais uma parte desta minha odisseia, agora com a chegada a Quiximba e uma breve descrição das precárias instalações das nossas tropas dispersas pelo imenso sertão Angolano.
Capítulo VII- Ao cabo de algumas dezenas de km e ao descrevermos uma sinuosa curva, o Farsola grita-me.
- Anima-te, pá! Estamos a chegar a Quiximba.
- Ainda bem. Já não era sem tempo – respondo eu acrescentando – Provavelmente pernoitamos lá, ao invés de prosseguirmos até São Salvador como previsto.
- Filha da puta de viagem, era preferível não termos saído do Luvo – Lamenta-se o meu companheiro de aventura.
Efectivamente começávamos a vislumbrar ao longe umas luzinhas muito ténues em circulo. Estávamos a aproximarmo-nos lentamente de Quiximba, um aglomerado de barracas de madeira cobertas com chapas de zinco que servia de aquartelamento ás nossas tropas.
O nosso exército dispunha de dezenas e dezenas de aquartelamentos deste tipo, por norma bastante distanciadas entre sí devido á enorme extensão do território e, disseminados por toda esta imensa vastidão da selva Angolana considerada zona operacional. Era uma ocupação militar designada por quadrícula, em que as enumeras companhias operacionais ficavam responsáveis por uma vasta região em forma de quadrilátero, contíguas umas ás outras e ocupando militarmente deste modo todo este vastíssimo território. A maioria das bases eram do género deste acampamento onde agora acabávamos de chegar, sendo a iluminação eléctrica fornecida por um gerador eléctrico e como não se dispunha de electrodomésticos, este só funcionava durante a noite com o principal intuito de garantir a segurança, iluminando com projectores as zonas circundantes que eram cercadas por arame farpado, ainda dentro deste recinto existia em todo o seu perímetro um conjunto de abrigos cavados no chão, cobertos com grossa camada de terra e ligados entre si por uma funda vala. A água normalmente era abastecida a partir de algum rio próximo, transportada diariamente num depósito atrelado a um hunimog. Os poucos frigoríficos funcionavam com o recurso a petróleo e os alimentos eram cozinhados com a muita lenha existente nas redondezas. Estes acampamentos também dispunham de um pequeno forno a lenha para o fabrico de pão. Os abastecimentos eram realizados a partir de Luanda de quinze em quinze dias por grandes colunas de camiões, como esta onde nós agora vínhamos inseridos e que eram designados por MVL (Movimento de Viaturas Logísticas).
Já os poucos alimentos frescos de que dispúnhamos eram transportados semanalmente. No nosso caso desde São Salvador, em pequenas avionetas civis fretadas ou nas versáteis D O 27 militares, as quais também transportavam o tão ambicionado correio.
Até São Salvador vindos de Luanda os frescos eram transportados duas vezes por semana no avião de carga Nordatlas, conhecido entre nós por Barriga de Ginguba.
Foi em locais deste genero que viveram e passaram parte da sua juventude cerca de 800.000 jovens Portugueses.
MANUEL ALDEIAS
Ainda me informou que a 1ª companhia operacional deste Batalhão se encontrava em Cabeço da Velha e a 2ª e a 3ª nos locais por mim referidos.
Ao João Abreu os meus agradecimentos pelo seu contributo para o esclarecimento dos factos ocorridos durante esse negro período da historia recente de Portugal, que foi a guerra colonial.
Muita gente está a seguir esta minha estória e alguns têm-me telefonado e enviado e-mails, afirmando que não introduzem comentários porque não tem jeito para a escrita. Volto a referir que não se coíbam de inserir os comentários, e que podem escrever do modo genuíno como pensam, aliás é também assim de modo informal que eu estou a escrever esta minha estória.
E agora depois de feita a rectificação segue mais uma parte desta minha odisseia, agora com a chegada a Quiximba e uma breve descrição das precárias instalações das nossas tropas dispersas pelo imenso sertão Angolano.
Capítulo VII- Ao cabo de algumas dezenas de km e ao descrevermos uma sinuosa curva, o Farsola grita-me.
- Anima-te, pá! Estamos a chegar a Quiximba.
- Ainda bem. Já não era sem tempo – respondo eu acrescentando – Provavelmente pernoitamos lá, ao invés de prosseguirmos até São Salvador como previsto.
- Filha da puta de viagem, era preferível não termos saído do Luvo – Lamenta-se o meu companheiro de aventura.
Efectivamente começávamos a vislumbrar ao longe umas luzinhas muito ténues em circulo. Estávamos a aproximarmo-nos lentamente de Quiximba, um aglomerado de barracas de madeira cobertas com chapas de zinco que servia de aquartelamento ás nossas tropas.
O nosso exército dispunha de dezenas e dezenas de aquartelamentos deste tipo, por norma bastante distanciadas entre sí devido á enorme extensão do território e, disseminados por toda esta imensa vastidão da selva Angolana considerada zona operacional. Era uma ocupação militar designada por quadrícula, em que as enumeras companhias operacionais ficavam responsáveis por uma vasta região em forma de quadrilátero, contíguas umas ás outras e ocupando militarmente deste modo todo este vastíssimo território. A maioria das bases eram do género deste acampamento onde agora acabávamos de chegar, sendo a iluminação eléctrica fornecida por um gerador eléctrico e como não se dispunha de electrodomésticos, este só funcionava durante a noite com o principal intuito de garantir a segurança, iluminando com projectores as zonas circundantes que eram cercadas por arame farpado, ainda dentro deste recinto existia em todo o seu perímetro um conjunto de abrigos cavados no chão, cobertos com grossa camada de terra e ligados entre si por uma funda vala. A água normalmente era abastecida a partir de algum rio próximo, transportada diariamente num depósito atrelado a um hunimog. Os poucos frigoríficos funcionavam com o recurso a petróleo e os alimentos eram cozinhados com a muita lenha existente nas redondezas. Estes acampamentos também dispunham de um pequeno forno a lenha para o fabrico de pão. Os abastecimentos eram realizados a partir de Luanda de quinze em quinze dias por grandes colunas de camiões, como esta onde nós agora vínhamos inseridos e que eram designados por MVL (Movimento de Viaturas Logísticas).
Já os poucos alimentos frescos de que dispúnhamos eram transportados semanalmente. No nosso caso desde São Salvador, em pequenas avionetas civis fretadas ou nas versáteis D O 27 militares, as quais também transportavam o tão ambicionado correio.
Até São Salvador vindos de Luanda os frescos eram transportados duas vezes por semana no avião de carga Nordatlas, conhecido entre nós por Barriga de Ginguba.
Foi em locais deste genero que viveram e passaram parte da sua juventude cerca de 800.000 jovens Portugueses.
MANUEL ALDEIAS
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Capíulo VI- E a odisseia continua
Com o final da tarde o céu até aqui muito azul, começa-se a tingir de escuro com grossas nuvens negras. Os raios riscam o céu e uma forte trovoada começa a despejar torrentes de água que obrigam os nossos passageiros a deixar o lamaçal e virem fazer -nos companhia.
O tempo vai passando lento e nós encharcados que nem pintos, até que a certa altura o Farsola grita-me com inquietação.
- Eh, Pá! Se passarmos aqui a noite, os cabrões caçam-nos á mão.
- Triste vida a nossa e puta de guerra, estou farto desta merda toda – desabafei atemorizado.
- Ainda agora partimos de Luanda e já tenho saudades daquela bela vida que lá levávamos – lamenta-se o Farsola torcendo o quico encharcado de água.
- Eu tenho saudades é da Metrópole e, dos meus familiares e amigos que já não vejo há quase dois anos – murmurei eu com nostalgia.
Entretanto com o dia a findar e a chuva a retomar de intensidade, este autentico carrossel de saltimbancos põe-se em movimento. Pela frente ainda temos varias dezenas de km de picada perigosa com o inimigo a espreitar e a forte trovoada a nos atormentar e impor respeito. A negra noite é cortada por inúmeros relâmpagos que desenham figuras funestas e diabólicas no céu escuro que nem breu, seguidos de trovões estridentes a recordarem-nos os rebentamentos que nos feriram os ouvidos e tiraram a vida a alguns dos nossos camaradas.
O tempo vai passando lento e nós encharcados que nem pintos, até que a certa altura o Farsola grita-me com inquietação.
- Eh, Pá! Se passarmos aqui a noite, os cabrões caçam-nos á mão.
- Triste vida a nossa e puta de guerra, estou farto desta merda toda – desabafei atemorizado.
- Ainda agora partimos de Luanda e já tenho saudades daquela bela vida que lá levávamos – lamenta-se o Farsola torcendo o quico encharcado de água.
- Eu tenho saudades é da Metrópole e, dos meus familiares e amigos que já não vejo há quase dois anos – murmurei eu com nostalgia.
Entretanto com o dia a findar e a chuva a retomar de intensidade, este autentico carrossel de saltimbancos põe-se em movimento. Pela frente ainda temos varias dezenas de km de picada perigosa com o inimigo a espreitar e a forte trovoada a nos atormentar e impor respeito. A negra noite é cortada por inúmeros relâmpagos que desenham figuras funestas e diabólicas no céu escuro que nem breu, seguidos de trovões estridentes a recordarem-nos os rebentamentos que nos feriram os ouvidos e tiraram a vida a alguns dos nossos camaradas.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Capíulo V- Mais um capitulo da minha odisseia
Agora já nos encontrávamos mais perto do final desta etapa e os turras ainda não se tinham metido connosco, não estava a correr mal esta viagem pelo sertão Angolano.
A coluna continuava a rodar normalmente na picada muito esburacada e, devido aos constantes saltos da viatura nós saltávamos juntamente com ela, mas sempre com a arma bem segura nas mãos e as cartucheiras na cinta, não podíamos descurar a segurança.
Repentinamente rebenta estrondoso e diabólico tiroteio de armas automáticas e metralhadoras pesadas, toda a coluna se imobiliza e nós saltamos rapidamente para debaixo da viatura protegendo-nos debaixo das suas rodas.
Sob este tiroteio terrível e infernal o Farsola grita-me.
- Os cabrões estão a atacar a cauda da coluna! Estão a dar porrada nos nossos amigos do Meposo.
E eu confirmo angustiado.
- Pois, é. Entre eles estão o transmissões Valinhas e o enfermeiro Marialva.
O Batalhão de Caçadores 4912 com sede em Noqui, tinha a 3º companhia destacada em Mepala e a 2º em Meposo- que estava agora a ser fortemente atacada e na qual estavam integrados o Valinhas e o Marialva- Esta companhia do Meposo, assim como o restante Batalhão 4912 eram constituidos por soldados atiradores Açoreanos. Apenas os graduados e os especialistas eram provenientes da Metrópole.
Efectivamente o inimigo tinha uma tremenda e bem montada emboscada á nossa espera. Deixara passar a quase totalidade das viaturas e atacava forte e feio as duas últimas, dois veículos hunimogues com seis soldados cada, que como já referi faziam parte da escolta protegendo-nos a retaguarda.
O inimigo tinha criteriosamente escolhido o local da emboscada, a picada muito estreita e sinuosa, o terreno bastante ravinado e a contornar um alto morro, não permitia que as viaturas da frente invertessem a marcha para virem em socorro dos que estavam a ser massacrados.
Parecia que os nossos estavam a reagir, mas muito timidamente, pois distinguiam-se alguns tiros de G3, mas muito poucos.
Entretanto passados minutos do começo deste inferno, passam por nós a correr alguns soldados das viaturas da frente, vinham curvados com as armas em riste, a gritarem, injuriando e chamando nomes e impropérios aos turras, ao mesmo tempo que se tentavam incentivar e encorajar mutuamente.
Algumas balas perdidas e estilhaços passam alto sobre nós e algumas assobiam batendo nos taipais metálicos das viaturas. Que será feito do nosso ancião que ficara sozinho em cima da camioneta?
Junto a nós a menina chorava desconsolada agarrada ao pescoço da mãe, enquanto o rapaz gritando descontroladamente se aninhara junto do Farsola.
Mais soldados correm e praguejam, subindo o morro tentando o envolvimento, o tiroteio de G3 e bazucas torna-se mais intenso, mas passado pouco tempo quase se faz silencio, apenas alguns rebentamentos de morteiros se fazem ouvir cada vês a rebentarem mais distante, sinal de que os turras retiram e os nossos os perseguem á morteirada.
Todo este inferno demoníaco se desenrola muito perto de nós, as viaturas emboscadas devem estar a uns 100 metros ou menos, mas nada conseguimos vislumbrar devido á curva que contorna o morro e á mata cerrada.
A coluna fica imobilizada durante longas horas e assistimos á chegada de um héli – canhão que nos sobrevoa fazendo um ruído ensurdecedor, de seguida aparecem dois helicópteros mais pequenos equipados com duas macas cada. Receamos que o pior possa ter acontecido aos nossos amigos e camaradas.
Entretanto ordenam-nos que subamos para os nossos postos em cima da camioneta,
o Farsola fica deitado com a arma apontada á mata cerrada, enquanto eu fico no lado oposto a controlar o alto capim que me bate na cara. O velhote que entretanto eu ajudara a descer, aninhara-se junto da mulher e das crianças debaixo da viatura e todos entoavam um enorme pranto.
MANUEL ALDEIAS
A coluna continuava a rodar normalmente na picada muito esburacada e, devido aos constantes saltos da viatura nós saltávamos juntamente com ela, mas sempre com a arma bem segura nas mãos e as cartucheiras na cinta, não podíamos descurar a segurança.
Repentinamente rebenta estrondoso e diabólico tiroteio de armas automáticas e metralhadoras pesadas, toda a coluna se imobiliza e nós saltamos rapidamente para debaixo da viatura protegendo-nos debaixo das suas rodas.
Sob este tiroteio terrível e infernal o Farsola grita-me.
- Os cabrões estão a atacar a cauda da coluna! Estão a dar porrada nos nossos amigos do Meposo.
E eu confirmo angustiado.
- Pois, é. Entre eles estão o transmissões Valinhas e o enfermeiro Marialva.
O Batalhão de Caçadores 4912 com sede em Noqui, tinha a 3º companhia destacada em Mepala e a 2º em Meposo- que estava agora a ser fortemente atacada e na qual estavam integrados o Valinhas e o Marialva- Esta companhia do Meposo, assim como o restante Batalhão 4912 eram constituidos por soldados atiradores Açoreanos. Apenas os graduados e os especialistas eram provenientes da Metrópole.
Efectivamente o inimigo tinha uma tremenda e bem montada emboscada á nossa espera. Deixara passar a quase totalidade das viaturas e atacava forte e feio as duas últimas, dois veículos hunimogues com seis soldados cada, que como já referi faziam parte da escolta protegendo-nos a retaguarda.
O inimigo tinha criteriosamente escolhido o local da emboscada, a picada muito estreita e sinuosa, o terreno bastante ravinado e a contornar um alto morro, não permitia que as viaturas da frente invertessem a marcha para virem em socorro dos que estavam a ser massacrados.
Parecia que os nossos estavam a reagir, mas muito timidamente, pois distinguiam-se alguns tiros de G3, mas muito poucos.
Entretanto passados minutos do começo deste inferno, passam por nós a correr alguns soldados das viaturas da frente, vinham curvados com as armas em riste, a gritarem, injuriando e chamando nomes e impropérios aos turras, ao mesmo tempo que se tentavam incentivar e encorajar mutuamente.
Algumas balas perdidas e estilhaços passam alto sobre nós e algumas assobiam batendo nos taipais metálicos das viaturas. Que será feito do nosso ancião que ficara sozinho em cima da camioneta?
Junto a nós a menina chorava desconsolada agarrada ao pescoço da mãe, enquanto o rapaz gritando descontroladamente se aninhara junto do Farsola.
Mais soldados correm e praguejam, subindo o morro tentando o envolvimento, o tiroteio de G3 e bazucas torna-se mais intenso, mas passado pouco tempo quase se faz silencio, apenas alguns rebentamentos de morteiros se fazem ouvir cada vês a rebentarem mais distante, sinal de que os turras retiram e os nossos os perseguem á morteirada.
Todo este inferno demoníaco se desenrola muito perto de nós, as viaturas emboscadas devem estar a uns 100 metros ou menos, mas nada conseguimos vislumbrar devido á curva que contorna o morro e á mata cerrada.
A coluna fica imobilizada durante longas horas e assistimos á chegada de um héli – canhão que nos sobrevoa fazendo um ruído ensurdecedor, de seguida aparecem dois helicópteros mais pequenos equipados com duas macas cada. Receamos que o pior possa ter acontecido aos nossos amigos e camaradas.
Entretanto ordenam-nos que subamos para os nossos postos em cima da camioneta,
o Farsola fica deitado com a arma apontada á mata cerrada, enquanto eu fico no lado oposto a controlar o alto capim que me bate na cara. O velhote que entretanto eu ajudara a descer, aninhara-se junto da mulher e das crianças debaixo da viatura e todos entoavam um enorme pranto.
MANUEL ALDEIAS
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Capítulo IV-Continua a minha viajem pelo setão Angolano
Partimos de Ambrizete com era hábito nestas deslocações ainda de madrugada, antes do sol nascer, para a última etapa com destino a São Salvador do Congo.
Esta seria a etapa mais difícil desta longa viagem, porque eram dezenas e dezenas de km por picadas de terra batida em péssimo estado, com muitos buracos ainda mais agravados por estarmos em plena época das chuvas. E viajarmos na caixa de carga da camioneta também não era nada agradável.
A composição da coluna sofrera alterações, a segurança fora reforçada, e nós também tomamos algumas medidas, limpamos muito bem com um pano as nossas meninas, tendo especial atenção á zona da culatra, puxei várias vezes o manipulo, injectando e expelindo algumas balas, confirmando que tudo estava em condições e pronto para qualquer eventualidade Agora já não viajávamos só nós os dois, em Ambrizete entraram novos passageiros que nos faziam companhia.Sentado no chão e tal como nós aos trambolhões provocados pelos imensos buracos, seguia um ancião vestido andrajosamente, muito magro, seco, com uma pequena barbicha e um braço ao peito. Aparentava talvez cinquenta anos, não sei bem precisar, porque estas pessoas ostentavam uma idade superior aquela que tinham na realidade e a sua esperança de vida era muito baixa, penso que na época não ultrapassaria os quarenta anos.
Também tínhamos por companhia uma jovem mãe, vestida ao modo tradicional das mulheres da tribo kicongo, com um pano garrido repleto de ramagens muito coloridas atado abaixo do peito, vinha acompanhada de dois filhos, uma menina de cinco ou seis anos com um pano atado á cinta e um rapaz um pouco mais velho, vestido simplesmente com uns calções bastante coçados e também descalço como todos os outros nossos companheiros de viajem. Segundo me disseram, todos eles regressavam a casa depois de uma ida ao Hospital.
Na nossa frente seguia uma camioneta civil com uma enorme carga de grades de cerveja, á qual o Farsola lançava um olhar de felino, farejando a oportunidade de deitar a mão a algumas garrafas.
Na nossa retaguarda vinha uma viatura militar com uma carga totalmente coberta por um oleado verde, o que não era comum, por aqui todas as cargas normalmente vinham descobertas, travadas no cimo com algumas tábuas atravessadas e amarradas com grossas cordas. O Farsola não resistiu á sua curiosidade de antigo larápio, na primeira paragem dirigiu-se á camioneta, levantou o oleado, mirou e correu para mim gritando esbaforido.
- Mike! Vamos bem acompanhados. Porra! É um carregamento de sobretudos de madeira.
Respondi-lhe, incomodado com a descoberta.
- Eh. Pá! Como a puta da guerra no norte está a aquecer, estão-se a precaver com caixões, Mau augúrio.
Viajávamos na cauda da coluna, atrás de nós só a camioneta dos caixões, e em último lugar para fechar este carrossel dois hunimogues com os soldados encarregados da protecção á retaguarda.
Com o escaldante sol Africano a pique e a água do cantil quase a ferver chegamos a Tamboco, uma grande Sanzala que se estendia de um e outro lado da poeirenta picada, os garotos aos bandos corriam ao lado dos hunimogues da tropa e os soldados atiravam-lhes algumas latas de conserva que rolavam pelo chão e provocavam uma renhida luta pela sua posse.
O Farsola aproveitou a pequena paragem e foi em corrida ao quartel encher os cantis de água, enquanto eu ficava de guarda aos nossos pertences.
Entretanto a coluna pôs-se em movimento e o meu camarada sem aparecer. Começava a ficar preocupado com a situação, apesar de saber que o Farsola era bastante desenrascado e portanto haveria de arranjar maneira de se desembaraçar da situação. Quando eu já desesperava de todo, á saída da povoação lá estava ele com os braços no ar a fazer sinal ao nosso motorista para parar.
Subiu para a camioneta cansado, e com voz ofegante disse.
- ÉH! Pá! No bar do Zé soldado, só já havia cerveja quente, de modo que tive de dar uma corrida até á cantina do civil que fica ao fundo da sanzala – e ao mesmo tempo que sacava duas cervejas dos grandes bolsos do camuflado, exclamava satisfeito.
- Toma lá! Ainda consegui estas duas bujecas fresquinhas.
Era um grande e prestimoso camarada este Farsola, e no relacionamento com os nossos amigos passageiros mostrava o seu lado mais humano, durante a viajem brincava muito com as crianças e oferecia-lhes atum com bolachas de água e sal, que era o nosso substituto do pão para acompanhar-mos as rações de combate. Muita fome e privações passávamos nós desditosos e ignorados soldados, calcorreando as selvas cerradas e hostis da imensa Angola, combatendo e sofrendo nesta terrivel e impiedosa guerra.
Esta seria a etapa mais difícil desta longa viagem, porque eram dezenas e dezenas de km por picadas de terra batida em péssimo estado, com muitos buracos ainda mais agravados por estarmos em plena época das chuvas. E viajarmos na caixa de carga da camioneta também não era nada agradável.
A composição da coluna sofrera alterações, a segurança fora reforçada, e nós também tomamos algumas medidas, limpamos muito bem com um pano as nossas meninas, tendo especial atenção á zona da culatra, puxei várias vezes o manipulo, injectando e expelindo algumas balas, confirmando que tudo estava em condições e pronto para qualquer eventualidade Agora já não viajávamos só nós os dois, em Ambrizete entraram novos passageiros que nos faziam companhia.Sentado no chão e tal como nós aos trambolhões provocados pelos imensos buracos, seguia um ancião vestido andrajosamente, muito magro, seco, com uma pequena barbicha e um braço ao peito. Aparentava talvez cinquenta anos, não sei bem precisar, porque estas pessoas ostentavam uma idade superior aquela que tinham na realidade e a sua esperança de vida era muito baixa, penso que na época não ultrapassaria os quarenta anos.
Também tínhamos por companhia uma jovem mãe, vestida ao modo tradicional das mulheres da tribo kicongo, com um pano garrido repleto de ramagens muito coloridas atado abaixo do peito, vinha acompanhada de dois filhos, uma menina de cinco ou seis anos com um pano atado á cinta e um rapaz um pouco mais velho, vestido simplesmente com uns calções bastante coçados e também descalço como todos os outros nossos companheiros de viajem. Segundo me disseram, todos eles regressavam a casa depois de uma ida ao Hospital.
Na nossa frente seguia uma camioneta civil com uma enorme carga de grades de cerveja, á qual o Farsola lançava um olhar de felino, farejando a oportunidade de deitar a mão a algumas garrafas.
Na nossa retaguarda vinha uma viatura militar com uma carga totalmente coberta por um oleado verde, o que não era comum, por aqui todas as cargas normalmente vinham descobertas, travadas no cimo com algumas tábuas atravessadas e amarradas com grossas cordas. O Farsola não resistiu á sua curiosidade de antigo larápio, na primeira paragem dirigiu-se á camioneta, levantou o oleado, mirou e correu para mim gritando esbaforido.
- Mike! Vamos bem acompanhados. Porra! É um carregamento de sobretudos de madeira.
Respondi-lhe, incomodado com a descoberta.
- Eh. Pá! Como a puta da guerra no norte está a aquecer, estão-se a precaver com caixões, Mau augúrio.
Viajávamos na cauda da coluna, atrás de nós só a camioneta dos caixões, e em último lugar para fechar este carrossel dois hunimogues com os soldados encarregados da protecção á retaguarda.
Com o escaldante sol Africano a pique e a água do cantil quase a ferver chegamos a Tamboco, uma grande Sanzala que se estendia de um e outro lado da poeirenta picada, os garotos aos bandos corriam ao lado dos hunimogues da tropa e os soldados atiravam-lhes algumas latas de conserva que rolavam pelo chão e provocavam uma renhida luta pela sua posse.
O Farsola aproveitou a pequena paragem e foi em corrida ao quartel encher os cantis de água, enquanto eu ficava de guarda aos nossos pertences.
Entretanto a coluna pôs-se em movimento e o meu camarada sem aparecer. Começava a ficar preocupado com a situação, apesar de saber que o Farsola era bastante desenrascado e portanto haveria de arranjar maneira de se desembaraçar da situação. Quando eu já desesperava de todo, á saída da povoação lá estava ele com os braços no ar a fazer sinal ao nosso motorista para parar.
Subiu para a camioneta cansado, e com voz ofegante disse.
- ÉH! Pá! No bar do Zé soldado, só já havia cerveja quente, de modo que tive de dar uma corrida até á cantina do civil que fica ao fundo da sanzala – e ao mesmo tempo que sacava duas cervejas dos grandes bolsos do camuflado, exclamava satisfeito.
- Toma lá! Ainda consegui estas duas bujecas fresquinhas.
Era um grande e prestimoso camarada este Farsola, e no relacionamento com os nossos amigos passageiros mostrava o seu lado mais humano, durante a viajem brincava muito com as crianças e oferecia-lhes atum com bolachas de água e sal, que era o nosso substituto do pão para acompanhar-mos as rações de combate. Muita fome e privações passávamos nós desditosos e ignorados soldados, calcorreando as selvas cerradas e hostis da imensa Angola, combatendo e sofrendo nesta terrivel e impiedosa guerra.
domingo, 18 de julho de 2010
Capítulo III-E a saga continua ( Hoje chegamos a Ambrizete)
O MVL partiu de madrugada, ainda de noite. Esta imensa coluna formada por dezenas e dezenas de viaturas, umas militares outras civis fretadas pela tropa, partia de quinze em quinze dias de Luanda e transportava todo o apoio logístico com destino aos diversos aquartelamentos disseminados pelo mato, e ia deixando pelos acampamentos que ficavam na sua rota os respectivos camiões. Chegada a São Salvador lá bem no norte invertia a marcha e agora em sentido inverso, ia recuperando de novo essas viaturas que voltavam a engrossar a coluna de volta a Luanda.
A protecção estava a cargo das nossas tropas que para o efeito intercalavam entre cada meia dúzia de viaturas, um hunimog com soldados fortemente armados. Á cabeça da coluna seguia uma berliet com apenas o condutor e outro soldado, sentados em cima de sacos de areia, era o chamado rebenta-minas.
Rodamos pela estrada alcatroada até Ambrizete situada na costa Atlântica, onde chegamos já ao fim da tarde, mas ainda a tempo de tomarmos um rico banho na sua maravilhosa praia de areias a perder de vista, banhada por uma luz doirada e cadente do final de dia. E extasiado assisti a um pôr do sol deslumbrante que se aproximava rapidamente do ocaso.
Sobranceiro á praia situava-se o Brinca-na-Areia um grande e conhecido café -restaurante que por ser dia de coluna se encontrava repleto de soldados. Dirigimo-nos para lá, a uma mesa ao fundo encontrava-se o meu colega de transmissões Valinhas, acompanhado do enfermeiro Marialva que iriam a partir daquele local fazer parte da escolta, reforçanda-a.
Ao ver-me o Valinhas chamou-me para a sua mesa e, demonstrando alegria e boa disposição confidenciou-me.
- É pá. Mike, isto das escoltas ao MVL é porreiro.
- Pois é – Disse eu, e indaguei.
- É muito melhor que fazer emboscadas junto da fronteira, não é?
- Se é! Mas o que tem de melhor são estas mariscadas aqui no Brinca -na – Areia.
Juntamente com estes dois amigos empanturramo-nos de cervejas cuca e do belo e apetitoso camarão, que aqui ainda tinha um preço mais acessível que em Luanda.
Bem comidos e melhor bebidos, despedimo-nos dos nossos amigos – Esta seria a ultima vez que os veria com vida, como adiante contarei – e dirigimo-nos para junto da nossa viatura, eu como era hábito fazer-mos nestas circunstancias, deitei-me em cima da capa camuflada com o saco e a arma por almofada e o céu estrelado por tecto.
O Farsola entregou-me o seu saco, pôs a arma a tiracolo e disse-me com a voz entaramelada pela cerveja.
- Guarda o meu saco, que eu vou ver se faço pela vida.
Ainda lhe recomendei.
-Não te metas em sarilhos. Ouvis-te?
Mas ele já se tinha afastado e não me ligou.
Pela madrugada sou acordado com um pontapé no cu, seguido do vozeirão cavernoso e inconfundivel do Farsola que me diz.
- Mike. Vê lá se acordas que os motores já estão em aquecimento e vamos partir - E com um sorriso de orelha a orelha rematou.
- Ganhei uma pipa de massa, a jogar á lerpa. Depenei os papalvos dos maçaricos que vão para Noqui! Os gajos ainda trazem grana fresca do Puto.
- Ai. Sim? interroguei eu.
- Pois é pá! E ainda lhes fanei esta garrafa de água do Puto.
- Não me digas que te meteste outra vez na vermelhinha? Perguntei com ar reprovador.
Não me respondeu. A vermelhinha é um jogo de três cartas da mais pura batota, e consiste em escolher uma dama de um naipe vermelho, de entre as outras duas de naipe preto. O Farsola era exímio a manipular as três cartas, baralhando completamente a vítima que ele pretendia ludibriar, e a quem só deixava ganhar o primeiro jogo a fim de o entusiasmar a apostar mais forte.
Geralmente a vitima apostava o dinheiro e na falta deste os seus pertences. A garrafa de água do Puto a que o Farsola se referiu e me mostrou, era o nome que os indígenas davam á aguardente e terá sido ganha com este jogo.
Era um jogo altamente proibido que quase sempre acabava mal, dando origem a cenas de grande discussão e até de pancadaria, pelo facto das vítimas se sentirem burladas.
Por todas estas razões pouquíssimas vezes presenciei este jogo, que apenas era executado e muito raramente em locais de grande movimento e de passagem, onde ninguém se conhecia.
A protecção estava a cargo das nossas tropas que para o efeito intercalavam entre cada meia dúzia de viaturas, um hunimog com soldados fortemente armados. Á cabeça da coluna seguia uma berliet com apenas o condutor e outro soldado, sentados em cima de sacos de areia, era o chamado rebenta-minas.
Rodamos pela estrada alcatroada até Ambrizete situada na costa Atlântica, onde chegamos já ao fim da tarde, mas ainda a tempo de tomarmos um rico banho na sua maravilhosa praia de areias a perder de vista, banhada por uma luz doirada e cadente do final de dia. E extasiado assisti a um pôr do sol deslumbrante que se aproximava rapidamente do ocaso.
Sobranceiro á praia situava-se o Brinca-na-Areia um grande e conhecido café -restaurante que por ser dia de coluna se encontrava repleto de soldados. Dirigimo-nos para lá, a uma mesa ao fundo encontrava-se o meu colega de transmissões Valinhas, acompanhado do enfermeiro Marialva que iriam a partir daquele local fazer parte da escolta, reforçanda-a.
Ao ver-me o Valinhas chamou-me para a sua mesa e, demonstrando alegria e boa disposição confidenciou-me.
- É pá. Mike, isto das escoltas ao MVL é porreiro.
- Pois é – Disse eu, e indaguei.
- É muito melhor que fazer emboscadas junto da fronteira, não é?
- Se é! Mas o que tem de melhor são estas mariscadas aqui no Brinca -na – Areia.
Juntamente com estes dois amigos empanturramo-nos de cervejas cuca e do belo e apetitoso camarão, que aqui ainda tinha um preço mais acessível que em Luanda.
Bem comidos e melhor bebidos, despedimo-nos dos nossos amigos – Esta seria a ultima vez que os veria com vida, como adiante contarei – e dirigimo-nos para junto da nossa viatura, eu como era hábito fazer-mos nestas circunstancias, deitei-me em cima da capa camuflada com o saco e a arma por almofada e o céu estrelado por tecto.
O Farsola entregou-me o seu saco, pôs a arma a tiracolo e disse-me com a voz entaramelada pela cerveja.
- Guarda o meu saco, que eu vou ver se faço pela vida.
Ainda lhe recomendei.
-Não te metas em sarilhos. Ouvis-te?
Mas ele já se tinha afastado e não me ligou.
Pela madrugada sou acordado com um pontapé no cu, seguido do vozeirão cavernoso e inconfundivel do Farsola que me diz.
- Mike. Vê lá se acordas que os motores já estão em aquecimento e vamos partir - E com um sorriso de orelha a orelha rematou.
- Ganhei uma pipa de massa, a jogar á lerpa. Depenei os papalvos dos maçaricos que vão para Noqui! Os gajos ainda trazem grana fresca do Puto.
- Ai. Sim? interroguei eu.
- Pois é pá! E ainda lhes fanei esta garrafa de água do Puto.
- Não me digas que te meteste outra vez na vermelhinha? Perguntei com ar reprovador.
Não me respondeu. A vermelhinha é um jogo de três cartas da mais pura batota, e consiste em escolher uma dama de um naipe vermelho, de entre as outras duas de naipe preto. O Farsola era exímio a manipular as três cartas, baralhando completamente a vítima que ele pretendia ludibriar, e a quem só deixava ganhar o primeiro jogo a fim de o entusiasmar a apostar mais forte.
Geralmente a vitima apostava o dinheiro e na falta deste os seus pertences. A garrafa de água do Puto a que o Farsola se referiu e me mostrou, era o nome que os indígenas davam á aguardente e terá sido ganha com este jogo.
Era um jogo altamente proibido que quase sempre acabava mal, dando origem a cenas de grande discussão e até de pancadaria, pelo facto das vítimas se sentirem burladas.
Por todas estas razões pouquíssimas vezes presenciei este jogo, que apenas era executado e muito raramente em locais de grande movimento e de passagem, onde ninguém se conhecia.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Capítulo II-Continuação da minha ida á consulta do H. M. de Luanda
Passada uma semana da primeira consulta ao Dr. Taborda, voltei a deslocar-me á Mamarrosa e fui novamente visitar o médico, voltando a afirmar-lhe que tinha bebido o leite condensado, mas que tudo o que comia vomitava e que agora as dores eram insuportáveis.
Para meu deleite e depois de me ouvir atentamente disse-me.
- Pois é Mike. Sendo assim, vais tratar das coisas para seguires no próximo MVL para Luanda, afim de efectuares algumas radiografias no Hospital Militar.
Agradeci-lhe a atenção, despedi-me e, quando me dirigia para a saída ainda o ouvi dizer
- Em Luanda tem cuidado com as cervejas e com o camarão, não são bons amigos do estômago.
Sempre me intrigou o bom do médico não ter descoberto a minha tramóia, tanto mais que as minhas queixas eram exactamente iguais ás do Farsola e praticamente coincidentes no tempo.
Atribuo tudo isto ao facto de ele ser sensível á nossa situação. Isto é, estarmos os dois já com praticamente dois anos de comissão, o que tínhamos passado anteriormente em Nambuangongo, na Força de Intervenção e agora neste cu de Judas.
Nunca tive oportunidade de esclarecer este episódio com o Dr. Taborda pois ele infelizmente faleceu vítima de um acidente de viação pouco tempo após o seu regresso á metrópole.
Durante a nossa curta estadia em Luanda estivemos instalados nos Adidos um quartel na periferia da cidade, onde ficavam os soldados que viessem tratar de assuntos, ou que simplesmente estivessem em transito.
Aqui a vida não poderia ser melhor, pela manha deslocávamo-nos ao Hospital afim de realizar-mos consultas e outros exames. De tarde após ingerirmos o intragável rancho, íamos até á praia na Ilha dar um mergulho nas suas águas tépidas e cristalinas, pois estávamos na estação quente. A noite era passada nas cervejarias da baixa da cidade – Portugália, Versalhes. Ou nos cinemas e noutros locais da vida nocturna que fervilhavam pela grande e maravilhosa cidade que era a bela capital de Angola.
Mas…. Como tudo o que é bom passa depressa, ao fim dumas breves três semanas, devido aos exames se terem revelado inconclusivos, como era de esperar …. Eis que de novo temos que apanhar o maldito MVL de regresso ao abominável mato e á fatídica guerra.
Filha da puta de guerra que já tinha ceifado dois anos á minha juventude. Estava farto de dormir debaixo do chão, feito coelho, acordar ao som de tiros, rebentamentos, suspiros e ais, mas …. Enfim por enquanto estava vivo e inteiro e isso era o que mais interessava naquele momento.
Afim de nos ser passada uma guia de marcha para a viagem, tivemos que nos fardar a rigor e irmo-nos apresentar ao sargento da secretaría dos Adidos. Eu tinha na altura o cabelo um pouco crescido, o que me ajudava a disfarçar a minha condição de soldado na noite Angolana. O homem quando me viu entrar olhou-me para o cabelo e desatou em altos berros.
- Rua! Ponha-se já na rua, e só apareça ao pé de mim com o cabelo devidamente cortado.
- Rua!- Ainda voltou a repetir o lateiro de merda! Cabrão! Filho da puta!
Estes chicos tinham o umbigo tão grande, que por vezes nos ignoravam, o que até acabava por ser vantajoso.
Mandei cortar o cabelo e apresentei-me de novo ao Chico, que desta vez simplesmente me ignorou, possivelmente já nem me reconheceu entre tantos soldados vestidos de igual e com a mesma idade.
Manuel Aldeias
Para meu deleite e depois de me ouvir atentamente disse-me.
- Pois é Mike. Sendo assim, vais tratar das coisas para seguires no próximo MVL para Luanda, afim de efectuares algumas radiografias no Hospital Militar.
Agradeci-lhe a atenção, despedi-me e, quando me dirigia para a saída ainda o ouvi dizer
- Em Luanda tem cuidado com as cervejas e com o camarão, não são bons amigos do estômago.
Sempre me intrigou o bom do médico não ter descoberto a minha tramóia, tanto mais que as minhas queixas eram exactamente iguais ás do Farsola e praticamente coincidentes no tempo.
Atribuo tudo isto ao facto de ele ser sensível á nossa situação. Isto é, estarmos os dois já com praticamente dois anos de comissão, o que tínhamos passado anteriormente em Nambuangongo, na Força de Intervenção e agora neste cu de Judas.
Nunca tive oportunidade de esclarecer este episódio com o Dr. Taborda pois ele infelizmente faleceu vítima de um acidente de viação pouco tempo após o seu regresso á metrópole.
Durante a nossa curta estadia em Luanda estivemos instalados nos Adidos um quartel na periferia da cidade, onde ficavam os soldados que viessem tratar de assuntos, ou que simplesmente estivessem em transito.
Aqui a vida não poderia ser melhor, pela manha deslocávamo-nos ao Hospital afim de realizar-mos consultas e outros exames. De tarde após ingerirmos o intragável rancho, íamos até á praia na Ilha dar um mergulho nas suas águas tépidas e cristalinas, pois estávamos na estação quente. A noite era passada nas cervejarias da baixa da cidade – Portugália, Versalhes. Ou nos cinemas e noutros locais da vida nocturna que fervilhavam pela grande e maravilhosa cidade que era a bela capital de Angola.
Mas…. Como tudo o que é bom passa depressa, ao fim dumas breves três semanas, devido aos exames se terem revelado inconclusivos, como era de esperar …. Eis que de novo temos que apanhar o maldito MVL de regresso ao abominável mato e á fatídica guerra.
Filha da puta de guerra que já tinha ceifado dois anos á minha juventude. Estava farto de dormir debaixo do chão, feito coelho, acordar ao som de tiros, rebentamentos, suspiros e ais, mas …. Enfim por enquanto estava vivo e inteiro e isso era o que mais interessava naquele momento.
Afim de nos ser passada uma guia de marcha para a viagem, tivemos que nos fardar a rigor e irmo-nos apresentar ao sargento da secretaría dos Adidos. Eu tinha na altura o cabelo um pouco crescido, o que me ajudava a disfarçar a minha condição de soldado na noite Angolana. O homem quando me viu entrar olhou-me para o cabelo e desatou em altos berros.
- Rua! Ponha-se já na rua, e só apareça ao pé de mim com o cabelo devidamente cortado.
- Rua!- Ainda voltou a repetir o lateiro de merda! Cabrão! Filho da puta!
Estes chicos tinham o umbigo tão grande, que por vezes nos ignoravam, o que até acabava por ser vantajoso.
Mandei cortar o cabelo e apresentei-me de novo ao Chico, que desta vez simplesmente me ignorou, possivelmente já nem me reconheceu entre tantos soldados vestidos de igual e com a mesma idade.
Manuel Aldeias
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Capítulo I-
Encontro-me presentemente a passar à escrita, a minha ida à consulta do Hospital Militar de Luanda, acompanhado do meu colega Farsola e, á medida que for escrevendo vou publicando no BLOG.
Assim sendo, aqui vai a primeira parte dessa odisseia, em que apenas alterei os nomes dos intervenientes.
O meu amigo Farsola não escondia de ninguém o seu lamentável e tumultuoso passado de larápio nas ruas de Cascais.
De altura mediana, gorducho, cabelo preto e liso já bastante ralo e com grandes entradas, era uma figura peculiar. Mais velho que todos nós cerca de 5 anos, tinha chegado à vida militar bastante tarde devido a ter cumprido pena de prisão.
Ele e o seu bando de delinquentes dedicavam-se ao arrombamento e roubo de bens deixados no interior dos automóveis – Nunca me faltava o dinheiro – gabava-se ele muitas vezes – Amachucávamos as notas em pequenas bolas antes de as colocarmos nos bolsos das calças.
O seu gang tinha sido desmantelado e condenado. Após o cumprimento da pena a que fora sujeito pelo tribunal, ingressara compulsivamente na tropa e enviado para Angola e para a pior zona de guerra – Nambuangongo. Tinha sido ali naqueles tempos difíceis dos ataques ao aquartelamento, das emboscadas mortíferas e das duras e espinhosas operações apeadas naquela intricada região dos Dembos, no Norte de Angola, que nos conhecemos e iniciamos a nossa amizade.
Apesar do seu passado pouco recomendável era um bom camarada, amigo do seu amigo, gingão, rebelde e desenrascado, em suma um bon vivan.
Com o regresso da nossa antiga companhia á Metrópole, e como a nós por termos ido em rendição individual, ainda nos faltar algum tempo para terminarmos a comissão, fomos enviados para junto da fronteira Norte.
O Farsola fora colocado na sede da companhia “ Os Felinos” em Mamarrosa, uma antiga roça de café no norte de Angola, e eu a 7 km dali numa pequena base em cima da linha de fronteira, chamada Luvo.
Numa tarde bastante quente e a ameaçar trovoada, desloquei-me em coluna militar á Mamarrosa. Á saída das viaturas sou abordado pelo Farsola que me diz.
- Mike, quero despedir-me de ti, pois vou passar uns dias a Luanda, mais precisamente ao Hospital Militar.
- Então estás doente? Perguntei preocupado.
- Achas? Simplesmente dei a volta ao Dr. Taborda.
De seguida contou-me pormenorizadamente como conseguiu enganar o nosso médico, fazendo-lhe crer que possivelmente teria uma úlcera no estômago, instigando-me a proceder de igual modo.
Não perdi tempo e, valendo-me das suas instruções rapidamente me dirigi ao Dr. Taborda. Este encontrava-se no seu improvisado gabinete em madeira coberto por chapas zincadas, junto do qual também funcionava a enfermaria.
Ao ver-me entrar, o medico que me conhecia perfeitamente, pois éramos muito poucos, perguntou-me:
- Então Mike! Entra! O que te trás por cá?
Depois de o cumprimentar, queixei-me dos sintomas que o Farsola me havia ensinado, na esperança de também eu ser enviado a Luanda. E não é que o nosso prestimoso e amável médico me prescreve exatamente o mesmo, que tinha prescrito ao Farsola duas semanas antes? Dizendo-me:
- Da ração de combate e do arroz com salsichas, que é o que todos nós comemos, não te posso livrar – e continuou – Mas vou dar indicações para te entregarem umas latas de leite condensado.
A primeira parte do plano estava a decorrer lindamente. De posse das latas de leite condensado encaminhei-me para a coluna, e segui de novo para o inferno do Luvo e para as noites mal dormidas no chão lamacento dos abrigos.
Escusado será dizer que como não sou apreciador de leite, tratei logo de me desfazer das latas, oferecendo-as ao guloso do Mouraria que lhes chamou um figo.
Manuel Aldeias
Encontro-me presentemente a passar à escrita, a minha ida à consulta do Hospital Militar de Luanda, acompanhado do meu colega Farsola e, á medida que for escrevendo vou publicando no BLOG.
Assim sendo, aqui vai a primeira parte dessa odisseia, em que apenas alterei os nomes dos intervenientes.
O meu amigo Farsola não escondia de ninguém o seu lamentável e tumultuoso passado de larápio nas ruas de Cascais.
De altura mediana, gorducho, cabelo preto e liso já bastante ralo e com grandes entradas, era uma figura peculiar. Mais velho que todos nós cerca de 5 anos, tinha chegado à vida militar bastante tarde devido a ter cumprido pena de prisão.
Ele e o seu bando de delinquentes dedicavam-se ao arrombamento e roubo de bens deixados no interior dos automóveis – Nunca me faltava o dinheiro – gabava-se ele muitas vezes – Amachucávamos as notas em pequenas bolas antes de as colocarmos nos bolsos das calças.
O seu gang tinha sido desmantelado e condenado. Após o cumprimento da pena a que fora sujeito pelo tribunal, ingressara compulsivamente na tropa e enviado para Angola e para a pior zona de guerra – Nambuangongo. Tinha sido ali naqueles tempos difíceis dos ataques ao aquartelamento, das emboscadas mortíferas e das duras e espinhosas operações apeadas naquela intricada região dos Dembos, no Norte de Angola, que nos conhecemos e iniciamos a nossa amizade.
Apesar do seu passado pouco recomendável era um bom camarada, amigo do seu amigo, gingão, rebelde e desenrascado, em suma um bon vivan.
Com o regresso da nossa antiga companhia á Metrópole, e como a nós por termos ido em rendição individual, ainda nos faltar algum tempo para terminarmos a comissão, fomos enviados para junto da fronteira Norte.
O Farsola fora colocado na sede da companhia “ Os Felinos” em Mamarrosa, uma antiga roça de café no norte de Angola, e eu a 7 km dali numa pequena base em cima da linha de fronteira, chamada Luvo.
Numa tarde bastante quente e a ameaçar trovoada, desloquei-me em coluna militar á Mamarrosa. Á saída das viaturas sou abordado pelo Farsola que me diz.
- Mike, quero despedir-me de ti, pois vou passar uns dias a Luanda, mais precisamente ao Hospital Militar.
- Então estás doente? Perguntei preocupado.
- Achas? Simplesmente dei a volta ao Dr. Taborda.
De seguida contou-me pormenorizadamente como conseguiu enganar o nosso médico, fazendo-lhe crer que possivelmente teria uma úlcera no estômago, instigando-me a proceder de igual modo.
Não perdi tempo e, valendo-me das suas instruções rapidamente me dirigi ao Dr. Taborda. Este encontrava-se no seu improvisado gabinete em madeira coberto por chapas zincadas, junto do qual também funcionava a enfermaria.
Ao ver-me entrar, o medico que me conhecia perfeitamente, pois éramos muito poucos, perguntou-me:
- Então Mike! Entra! O que te trás por cá?
Depois de o cumprimentar, queixei-me dos sintomas que o Farsola me havia ensinado, na esperança de também eu ser enviado a Luanda. E não é que o nosso prestimoso e amável médico me prescreve exatamente o mesmo, que tinha prescrito ao Farsola duas semanas antes? Dizendo-me:
- Da ração de combate e do arroz com salsichas, que é o que todos nós comemos, não te posso livrar – e continuou – Mas vou dar indicações para te entregarem umas latas de leite condensado.
A primeira parte do plano estava a decorrer lindamente. De posse das latas de leite condensado encaminhei-me para a coluna, e segui de novo para o inferno do Luvo e para as noites mal dormidas no chão lamacento dos abrigos.
Escusado será dizer que como não sou apreciador de leite, tratei logo de me desfazer das latas, oferecendo-as ao guloso do Mouraria que lhes chamou um figo.
Manuel Aldeias
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Esferografia: Pra sempre
Maravilhosos e deliciosos poemas de Janaiana Cruz
Esferografia: Pra sempre: "Traga-me teus lábios de luzTeu ar, tua fonteTua cruz, Teu horizonte Esse cansaço que é todo meuEsse toque conhecidoEstremecido pelo teuO ..."
Esferografia: Pra sempre: "Traga-me teus lábios de luzTeu ar, tua fonteTua cruz, Teu horizonte Esse cansaço que é todo meuEsse toque conhecidoEstremecido pelo teuO ..."
terça-feira, 6 de julho de 2010
Recordando o Kuvelai (Sul de Angola)
Belas imagens a deste vidio, onde nos é dado recordar a região do Kuvelai. Local onde tive o previlegio de passar cerca de 5 meses, no já distante ao de 1973.
MANUEL ALDEIAS
MANUEL ALDEIAS
sábado, 19 de junho de 2010
Morreu José Saramago- perfil do Nobel da Literatura
José Saramago, 87 anos, faleceu ontem dia 18 de Junho de 2010 em Lanzarote, Ilhas Canárias.
O ùnico Premio Nobel da Literatura Lusófona deixa uma extensa carreira literaria.
Pessoalmente não sou fã da escrita sem pontuação deste prestigiado e laureado escritor, tendo lido apenas dois dos seus livros- Jangada de pedra e Levantado do chão, este último narra a saga de três gerações de uma familia de trabalhadores rurais, na região onde eu vivi até aos doze anos de idade.
A minha homenagem ao Prémio Nobel da Literatura.
Manuel Aldeias
O ùnico Premio Nobel da Literatura Lusófona deixa uma extensa carreira literaria.
Pessoalmente não sou fã da escrita sem pontuação deste prestigiado e laureado escritor, tendo lido apenas dois dos seus livros- Jangada de pedra e Levantado do chão, este último narra a saga de três gerações de uma familia de trabalhadores rurais, na região onde eu vivi até aos doze anos de idade.
A minha homenagem ao Prémio Nobel da Literatura.
Manuel Aldeias
sexta-feira, 11 de junho de 2010
ELEIÇÃO DOS ORGÃOS SOCIAIS DA CPAA
Vai realizar-se a eleição dos órgãos sociais da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite
As listas de candidatos aos órgãos sociais da CPAA podem ser apresentadas até ás 18 horas do dia 17 de Junho de 2010.
O acto eleitoral terá lugar no dia 18 de Junho de 2010, funcionando com duas secções de voto nos locais e períodos de funcionamento que se passam a descrever:
Secção de voto nº 1 – na sede da CPAA na Cooperativa Piedense, sita na Rua da Cooperativa Piedense nº 94, Cova da Piedade, Concelho de Almada. Entre as 9h 30 m e as 17h 30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente.
Secção de voto nº 2 – no bar central do Arsenal do Alfeite, Alfeite, Concelho de Almada. Entre as 1200h e as 13h30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente
As listas de candidatos aos órgãos sociais da CPAA podem ser apresentadas até ás 18 horas do dia 17 de Junho de 2010.
O acto eleitoral terá lugar no dia 18 de Junho de 2010, funcionando com duas secções de voto nos locais e períodos de funcionamento que se passam a descrever:
Secção de voto nº 1 – na sede da CPAA na Cooperativa Piedense, sita na Rua da Cooperativa Piedense nº 94, Cova da Piedade, Concelho de Almada. Entre as 9h 30 m e as 17h 30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente.
Secção de voto nº 2 – no bar central do Arsenal do Alfeite, Alfeite, Concelho de Almada. Entre as 1200h e as 13h30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente
segunda-feira, 7 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
O EXTREMO SUL DE ANGOLA
Extracto de "A minha odisseia por terras Angolanas" onde caracterizo, a região fronteiriça do sul de Angola.
Ao fim de três longos dias e, de uma extensa viagem de perto de 1600km a dormirmos como já estávamos habituados no chão duro e, debaixo das viaturas, chegamos em 24 de março de 1973, a um local no meio do nada designado por Nehone, onde ficou colocada depois de montadas as tendas de campanha, a sede da C. Caç. 3386 “ Os Carolas Unidos”
Entretanto a C.C.S. ficara instalada em Pereira Dèça, uma pequena cidade capital do Distrito do Cunene e a Ç. Caç. 3387 “OS Escorpiões”alguns km mais adiante num local junto da fronteira sul de Angola denominado por Namacunde.
No dia seguinte à nossa chegada a Nehone, eu e o meu grupo de combate continuaríamos esta longa marcha por mais 200 km de picadas, até á ponte sobre o rio Cuvelai um afluente do majestoso rio Cunene, onde montámos uma nova base.
Aqui estávamos bastante longe da guerra e dos tempos conturbados e terríveis passados em Nambuangongo e na Força de Intervenção.
O imponente Rio Cunene delimitava a nossa zona de acção a norte, a qual se estendia até á fronteira sul com a actual Namíbia. Aqui tivemos oportunidade de observar de muito perto a imensa e variada fauna da savana e dos espaços abertos. Ao contrario do norte de Angola a que estávamos habituados, muito acidentado e com imensas e enormes florestas virgens cerradas, ou capinzal alto, aqui o terreno era bastante plano, de características arenosas e com poucas arvores, uma zona de savana, bastante seca e árida, já muito influenciada pelo vizinho deserto do Calaári.
Devido ao terreno ser demasiado plano e a estação das chuvas se caracterizar por chuvadas muito intensas, formavam-se durante esta estação autênticos lagos de grande extensão que condicionavam grandemente e por vezes tornavam impraticável a deslocação das viaturas.
Todavia logo que cessavam as chuvas, as viaturas podiam circular com relativa facilidade quer através dos caminhos existentes, quer através das longas chanas caracterizadas pela sua planura e ausência de arvoredo, apenas cobertas por um débil capim.
A estação seca era caracterizada por tão grandes amplitudes térmicas, que nos víamos obrigados a agasalhar com cobertores quando viajávamos durante a noite. Assistia-se também durante esta estação a uma total ausência de chuvas, levando á secagem da vegetação rasteira, das linhas de água e mesmo dos rios, excepção para o enorme Rio Cunene que se mantinha com uma fraca corrente, sendo no entanto possível a sua passagem a vau.
A escassez de água não proporcionava o desenvolvimento da agricultura, a não ser nalguns pontos junto dos cursos de agua que sulcavam a região, nomeadamente os rios Cunene e Cuvelai, e até a criação de gado, actividade predominante e que de uma maneira geral preenchia a vida destes povos se proporcionava com grandes dificuldades, forçando a uma constante transumancia em busca de alimentação e de água necessária á subsistência do gado.
A fronteira sul de Angola com o Sudoeste Africano (actual Namíbia) encontrava-se delimitada por uma extensa cerca de arame que se prolongava por uma recta de dezenas e dezenas de km.
Em princípios de 1972, um ano antes da nossa chegada, a etnia Cuanhama, a prevalecente nesta região, dera inicio a alguma agitação e apresentado certas reivindicações que foram atendidas pelas autoridades portuguesas, ao que se seguira uma fase de acalmia.
Estes acontecimentos tiveram lugar na mesma altura que os registados do outro lado da fronteira pela parte da etnia Ovambo, influenciados pela SWAPO – o movimento independentista do Sudoeste Africano – este movimento detinha uma célula nos arredores de Lusaca, capital da Zâmbia, muito próximo de uma célula do MPLA e foram referenciados na região agitadores afectos a este partido, o que confirmava a participação deste movimento nas citadas agitações. No seguimento destes acontecimentos as autoridades portuguesas decidiram ocupar militarmente a região e daí a nossa permanência neste esquecido e remoto sertão do fim do mundo.
Instalados em tendas de campanha sem electricidade, água, ou qualquer outro meio de conforto, durante o dia destilávamos com temperaturas elevadíssimas e á noite suportávamos um frio intenso, mas éramos jovens e estávamos afastados da maldita e penosa guerra que tantos sofrimento, atormentação e dor nos havia provocado.
O tempo era passado em patrulhamentos de acção psicológica e, alguma assistência sanitária, em que percorríamos centenas de km pela vasta savana. Esta era uma região muito pouca habitada, em que os seus habitantes de etnia Cuanhama viviam dispersos em pequenos quimbos familiares, constituídos por algumas palhotas cercadas por uma alta paliçada de paus a pique, que defendiam os seus habitantes e o gado dos animais selvagens como os leões.
Por aqui vivemos na paz dos deuses durante cerca de 4 meses, até ao final da comissão do B. Caç 3848, ao qual assisto, já em Luanda bastante emocionado e com os olhos marejados de lágrimas, ao embarque para a Metrópole em 4 de setembro 1973,destes meus amigos e camaradas, com os quais tinha passado cerca de um ano pelas mais variadas aventuras.
Esta minha passajem pelo Sertão do Sul de Angola está retratada em “ Calcorreando a Savana” que pode ser visionada clicando AQUI.
Ao fim de três longos dias e, de uma extensa viagem de perto de 1600km a dormirmos como já estávamos habituados no chão duro e, debaixo das viaturas, chegamos em 24 de março de 1973, a um local no meio do nada designado por Nehone, onde ficou colocada depois de montadas as tendas de campanha, a sede da C. Caç. 3386 “ Os Carolas Unidos”
Entretanto a C.C.S. ficara instalada em Pereira Dèça, uma pequena cidade capital do Distrito do Cunene e a Ç. Caç. 3387 “OS Escorpiões”alguns km mais adiante num local junto da fronteira sul de Angola denominado por Namacunde.
No dia seguinte à nossa chegada a Nehone, eu e o meu grupo de combate continuaríamos esta longa marcha por mais 200 km de picadas, até á ponte sobre o rio Cuvelai um afluente do majestoso rio Cunene, onde montámos uma nova base.
Aqui estávamos bastante longe da guerra e dos tempos conturbados e terríveis passados em Nambuangongo e na Força de Intervenção.
O imponente Rio Cunene delimitava a nossa zona de acção a norte, a qual se estendia até á fronteira sul com a actual Namíbia. Aqui tivemos oportunidade de observar de muito perto a imensa e variada fauna da savana e dos espaços abertos. Ao contrario do norte de Angola a que estávamos habituados, muito acidentado e com imensas e enormes florestas virgens cerradas, ou capinzal alto, aqui o terreno era bastante plano, de características arenosas e com poucas arvores, uma zona de savana, bastante seca e árida, já muito influenciada pelo vizinho deserto do Calaári.Todavia logo que cessavam as chuvas, as viaturas podiam circular com relativa facilidade quer através dos caminhos existentes, quer através das longas chanas caracterizadas pela sua planura e ausência de arvoredo, apenas cobertas por um débil capim.
A estação seca era caracterizada por tão grandes amplitudes térmicas, que nos víamos obrigados a agasalhar com cobertores quando viajávamos durante a noite. Assistia-se também durante esta estação a uma total ausência de chuvas, levando á secagem da vegetação rasteira, das linhas de água e mesmo dos rios, excepção para o enorme Rio Cunene que se mantinha com uma fraca corrente, sendo no entanto possível a sua passagem a vau.
A escassez de água não proporcionava o desenvolvimento da agricultura, a não ser nalguns pontos junto dos cursos de agua que sulcavam a região, nomeadamente os rios Cunene e Cuvelai, e até a criação de gado, actividade predominante e que de uma maneira geral preenchia a vida destes povos se proporcionava com grandes dificuldades, forçando a uma constante transumancia em busca de alimentação e de água necessária á subsistência do gado.
A fronteira sul de Angola com o Sudoeste Africano (actual Namíbia) encontrava-se delimitada por uma extensa cerca de arame que se prolongava por uma recta de dezenas e dezenas de km.
Em princípios de 1972, um ano antes da nossa chegada, a etnia Cuanhama, a prevalecente nesta região, dera inicio a alguma agitação e apresentado certas reivindicações que foram atendidas pelas autoridades portuguesas, ao que se seguira uma fase de acalmia.
Estes acontecimentos tiveram lugar na mesma altura que os registados do outro lado da fronteira pela parte da etnia Ovambo, influenciados pela SWAPO – o movimento independentista do Sudoeste Africano – este movimento detinha uma célula nos arredores de Lusaca, capital da Zâmbia, muito próximo de uma célula do MPLA e foram referenciados na região agitadores afectos a este partido, o que confirmava a participação deste movimento nas citadas agitações. No seguimento destes acontecimentos as autoridades portuguesas decidiram ocupar militarmente a região e daí a nossa permanência neste esquecido e remoto sertão do fim do mundo.
Instalados em tendas de campanha sem electricidade, água, ou qualquer outro meio de conforto, durante o dia destilávamos com temperaturas elevadíssimas e á noite suportávamos um frio intenso, mas éramos jovens e estávamos afastados da maldita e penosa guerra que tantos sofrimento, atormentação e dor nos havia provocado.
O tempo era passado em patrulhamentos de acção psicológica e, alguma assistência sanitária, em que percorríamos centenas de km pela vasta savana. Esta era uma região muito pouca habitada, em que os seus habitantes de etnia Cuanhama viviam dispersos em pequenos quimbos familiares, constituídos por algumas palhotas cercadas por uma alta paliçada de paus a pique, que defendiam os seus habitantes e o gado dos animais selvagens como os leões.
Por aqui vivemos na paz dos deuses durante cerca de 4 meses, até ao final da comissão do B. Caç 3848, ao qual assisto, já em Luanda bastante emocionado e com os olhos marejados de lágrimas, ao embarque para a Metrópole em 4 de setembro 1973,destes meus amigos e camaradas, com os quais tinha passado cerca de um ano pelas mais variadas aventuras.
Esta minha passajem pelo Sertão do Sul de Angola está retratada em “ Calcorreando a Savana” que pode ser visionada clicando AQUI.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
24º ALMOÇO DA CASA DO PESSOAL DO ARSENAL DO ALFEITE
Decorreu num clima de grande alegria e franca confraternização o 24º almoço/convívio da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite.
Como tem acontecido em anteriores edições a afluência foi grande, contando-se este ano com a presença de 250 participantes.
A confraternização teve início com um minuto de silêncio em memória dos Arsenalistas já falecidos.
O presidente da direcção tomou a palavra agradecendo a presença das entidades convidadas e de todos os participantes, também enalteceu a comissão organizadora que não se poupou a esforços para levar por diante mais este evento, o primeiro realizado após a extinção do A.A. nos moldes em que todos o conhecemos,
Apelou também para que todos os Arsenalistas que ainda não são sócios da C. P. A. A. se inscrevam quanto antes a fim de todos juntos lutarmos para manter e preservar as memorias Arsenalistas, entre as quais as bibliotecas oficinais, que tão relevante e inestimável serviço prestaram durante os setenta anos em que o Arsenal se manteve no Alfeite.
Seguidamente leu a saudação seguinte.
SAUDAÇÃO
Amigos.
Apesar da extinção do Arsenal do Alfeite, como estaleiro naval da Marinha, nada nos impede de continuarmos com o nosso espírito de confraternização anual. Assim, congratulamo-nos com os presentes e apelamos que futuramente, os trabalhadores ex-arsenalistas, Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, SA, se juntem a nós através da Casa do Pessoal.
Ao saudar a vossa presença, assim como, a de todos os convidados neste evento, é justo lembrar todos aqueles que, ao longo dos anos vêem realizando estas efemérides, sinonimo de amizades partilhadas, como Trabalhadores do extinto Arsenal do Alfeite.
Assim, para todos aqueles que, por motivos vários não estão entre nós, a Organização Da Casa do Pessoal solicita a todos os presentes que, de pé e em silêncio, lhe prestemos a nossa justa Homenagem.
MANUEL ALDEIAS
Como tem acontecido em anteriores edições a afluência foi grande, contando-se este ano com a presença de 250 participantes.
A confraternização teve início com um minuto de silêncio em memória dos Arsenalistas já falecidos.
O presidente da direcção tomou a palavra agradecendo a presença das entidades convidadas e de todos os participantes, também enalteceu a comissão organizadora que não se poupou a esforços para levar por diante mais este evento, o primeiro realizado após a extinção do A.A. nos moldes em que todos o conhecemos,
Apelou também para que todos os Arsenalistas que ainda não são sócios da C. P. A. A. se inscrevam quanto antes a fim de todos juntos lutarmos para manter e preservar as memorias Arsenalistas, entre as quais as bibliotecas oficinais, que tão relevante e inestimável serviço prestaram durante os setenta anos em que o Arsenal se manteve no Alfeite.
Seguidamente leu a saudação seguinte.
SAUDAÇÃO
Amigos.
Apesar da extinção do Arsenal do Alfeite, como estaleiro naval da Marinha, nada nos impede de continuarmos com o nosso espírito de confraternização anual. Assim, congratulamo-nos com os presentes e apelamos que futuramente, os trabalhadores ex-arsenalistas, Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, SA, se juntem a nós através da Casa do Pessoal.
Ao saudar a vossa presença, assim como, a de todos os convidados neste evento, é justo lembrar todos aqueles que, ao longo dos anos vêem realizando estas efemérides, sinonimo de amizades partilhadas, como Trabalhadores do extinto Arsenal do Alfeite.
Assim, para todos aqueles que, por motivos vários não estão entre nós, a Organização Da Casa do Pessoal solicita a todos os presentes que, de pé e em silêncio, lhe prestemos a nossa justa Homenagem.
MANUEL ALDEIAS
terça-feira, 18 de maio de 2010
A REGIÃO DOS DEMBOS
Extracto de "A MINHA ODISSEIA POR TERRAS ANGOLANAS", onde caracterizo a região em que eu como soldado de transmissões, iniciei a minha longa odisseia de mais de dois anos pelo imenso território Angolano.
Esta era uma região de terreno muitíssimo acidentado com bastantes ravinas, vales fortemente acentuados, e muitos morros cobertos de capim designados por morros carecas, os vales a perder de vista eram cobertos por florestas virgens cerradas, só transponíveis pelos trilhos dos animais ou a golpes de catana.
Perto de Nambuangongo existia uma das maiores florestas virgens do norte de Angola, a denominada floresta dos Dembos, a tal onde o MPLA tinha instalado o quartel-general da sua 1ª Região Militar. A abundância de arbustos, trepadeiras e lianas desta floresta galeria opulenta, constituíam autenticas muralhas de penetração muito difícil e que forneciam excelente abrigo ao inimigo
O clima tinha características tropicais e era muito adverso para a saúde de todos nós, caracterizava-se por duas estações: a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio, com altas temperaturas, humidade muito elevada e altos índices de pluviosidade em que chovia bastante. Devido á natureza argilosa dos solos que ofereciam pouca permeabilidade, as picadas eram grandemente afectadas ficando bastante lamacentas e escorregadias, dificultando consideravelmente a circulação das viaturas militares e tornando os percursos morosos e difíceis.
A outra estação de meados de Maio a meados de Outubro, era a chamada estação seca em que não chovia, e que durante a noite e parte da manha o céu se encobria de um manto de nevoeiro, o chamado cacimbo, que por vezes chegava a ser tão denso que tornava impraticável a utilização das pequenas avionetas e helicópteros, com graves consequências no evaquamento de doentes e feridos.
Nesta estação também conhecida por época do cacimbo as picadas tornavam-se extraordinariamente poeirentas, levantando-se grandes nuvens de pó á passagem das colunas militares, que nos obrigavam a cobrir a boca e o nariz com grandes lenços atados em volta do pescoço. Para protegermos os olhos desse pó utilizávamos uns enormes óculos que se ajustavam á face em redor dos olhos.
Esta era uma região com bastantes rios e linhas de agua, a maioria deles transponíveis a vau na época seca, porem na estação das chuvas aumentavam consideravelmente o seu caudal dificultando ou mesmo impedindo a sua transposição.
O apoio logístico dos acampamentos das nossas tropas disseminados pela selva do Norte Angolano era realizado de quinze em quinze dias, pelo MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) estas enormes colunas partiam de Luanda e eram constituídas por verdadeiros comboios de camiões civis fretados pelo exército para o transporte dos vários reabastecimentos. Eram escoltadas pelos “Dragões”, um esquadrão de auto metralhadoras Panhard EBR sediado em Luanda e por outras viaturas militares. Os poucos alimentos frescos eram distribuídos duas vezes por semana em pequenas avionetas Dorniers DO 27, que também transportavam o ambicionado correio e evacuavam os doentes.
Nesta zona não existiam populações civis devido á intensidade da guerra, os seus naturais de etnia Quimbundo tinham-se refugiado nas matas ou fugido para a Republica do Zaire logo no início das hostilidades em 1961. Esta região que antes do eclodir da guerra colonial fora muito rica em café, encontrava-se agora com a maioria das suas fazendas abandonadas. Nas raras roças de café ainda existentes e protegidas pela tropa, os trabalhadores eram de étnia Bailundo oriundos do centro de Angola e aqui deslocados das suas terras a trabalhar como contratados.
Era considerada em termos militares uma zona de grande intensidade bélica, a mais violenta do Norte de Angola. Aqui o exército Português era obrigado a defrontar-se com dois dos principais movimentos independentistas, o (MPLA) Movimento Popular para a Libertação de Angola liderado por Agostinho Neto e o Movimento de Holden Roberto (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola.
Ambos os movimentos possuíam aqui bases permanentes, algumas muito importantes, escondidas no interior das densas e quase impenetráveis florestas virgens que abundavam na região e, delas saíam para colocarem minas anti-carro nas picadas e minas anti-pessoais nos trilhos utilizados pelas nossas tropas. Também recorriam imenso a duras emboscadas contra as colunas de viaturas militares e, chegando mesmo a atacar os nossos aquartelamentos como foi o caso daqueles a que assisti em Nambuangongo, que no curto espaço de 2 semanas foi alvo por parte da FNLA de 4 horríveis ataques, em 31 de Agosto, 10, 12 e 15 de Setembro de 1972.
Estes movimentos também disputavam entre si o controle da região, já que Nambuangongo era um local mítico e simbólico onde tudo começou em 1961.
O ELNA ( Exercito de Libertação Nacional de Angola), braço armado da FNLA era muito forte e agressivo nesta zona, estava organizada em Centrais, Quartéis e Secções. As Centrais dispunham de 1 ou mais grupos móveis bem armados, municiados e instruídos militarmente. Os Quartéis eram compostos por numerosos grupos inimigos de carácter fixo com organização semelhante ás nossas tropas. Por sua vez as Secções eram aglomerados civis protegidos por 3 ou 4 elementos armados em instalações próprias e que se destinavam a alertar as populações da aproximação das nossas tropas e retardá-las se possível. Normalmente tinham postos de vigia nestes aglomerados populacionais, onde normalmente existiam escolas para crianças em que estas aprendiam a ler e a escrever Português.
Por seu lado o MPLA que tinha aqui perto o seu Quartel-general estava dividido em Zonas com sede em Centrais, das quais dependiam as Secções. As Centrais e Secções tinham uma organização semelhante ás da FNLA e tal como esta utilizavam armadilhas, minas e avisos sonoros nos trilhos de acesso ás suas instalações que assinalavam com referencias só deles conhecidas.
Tanto um como o outro movimento tinham uma bem montada e eficiente rede de observação e vigilância, que lhes permitiam controlar todos os movimentos das NT.
MANUEL ALDEIAS
Esta era uma região de terreno muitíssimo acidentado com bastantes ravinas, vales fortemente acentuados, e muitos morros cobertos de capim designados por morros carecas, os vales a perder de vista eram cobertos por florestas virgens cerradas, só transponíveis pelos trilhos dos animais ou a golpes de catana.
Perto de Nambuangongo existia uma das maiores florestas virgens do norte de Angola, a denominada floresta dos Dembos, a tal onde o MPLA tinha instalado o quartel-general da sua 1ª Região Militar. A abundância de arbustos, trepadeiras e lianas desta floresta galeria opulenta, constituíam autenticas muralhas de penetração muito difícil e que forneciam excelente abrigo ao inimigo
O clima tinha características tropicais e era muito adverso para a saúde de todos nós, caracterizava-se por duas estações: a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio, com altas temperaturas, humidade muito elevada e altos índices de pluviosidade em que chovia bastante. Devido á natureza argilosa dos solos que ofereciam pouca permeabilidade, as picadas eram grandemente afectadas ficando bastante lamacentas e escorregadias, dificultando consideravelmente a circulação das viaturas militares e tornando os percursos morosos e difíceis.
A outra estação de meados de Maio a meados de Outubro, era a chamada estação seca em que não chovia, e que durante a noite e parte da manha o céu se encobria de um manto de nevoeiro, o chamado cacimbo, que por vezes chegava a ser tão denso que tornava impraticável a utilização das pequenas avionetas e helicópteros, com graves consequências no evaquamento de doentes e feridos.
Nesta estação também conhecida por época do cacimbo as picadas tornavam-se extraordinariamente poeirentas, levantando-se grandes nuvens de pó á passagem das colunas militares, que nos obrigavam a cobrir a boca e o nariz com grandes lenços atados em volta do pescoço. Para protegermos os olhos desse pó utilizávamos uns enormes óculos que se ajustavam á face em redor dos olhos.
Esta era uma região com bastantes rios e linhas de agua, a maioria deles transponíveis a vau na época seca, porem na estação das chuvas aumentavam consideravelmente o seu caudal dificultando ou mesmo impedindo a sua transposição.
O apoio logístico dos acampamentos das nossas tropas disseminados pela selva do Norte Angolano era realizado de quinze em quinze dias, pelo MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) estas enormes colunas partiam de Luanda e eram constituídas por verdadeiros comboios de camiões civis fretados pelo exército para o transporte dos vários reabastecimentos. Eram escoltadas pelos “Dragões”, um esquadrão de auto metralhadoras Panhard EBR sediado em Luanda e por outras viaturas militares. Os poucos alimentos frescos eram distribuídos duas vezes por semana em pequenas avionetas Dorniers DO 27, que também transportavam o ambicionado correio e evacuavam os doentes.
Nesta zona não existiam populações civis devido á intensidade da guerra, os seus naturais de etnia Quimbundo tinham-se refugiado nas matas ou fugido para a Republica do Zaire logo no início das hostilidades em 1961. Esta região que antes do eclodir da guerra colonial fora muito rica em café, encontrava-se agora com a maioria das suas fazendas abandonadas. Nas raras roças de café ainda existentes e protegidas pela tropa, os trabalhadores eram de étnia Bailundo oriundos do centro de Angola e aqui deslocados das suas terras a trabalhar como contratados.
Era considerada em termos militares uma zona de grande intensidade bélica, a mais violenta do Norte de Angola. Aqui o exército Português era obrigado a defrontar-se com dois dos principais movimentos independentistas, o (MPLA) Movimento Popular para a Libertação de Angola liderado por Agostinho Neto e o Movimento de Holden Roberto (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola.
Ambos os movimentos possuíam aqui bases permanentes, algumas muito importantes, escondidas no interior das densas e quase impenetráveis florestas virgens que abundavam na região e, delas saíam para colocarem minas anti-carro nas picadas e minas anti-pessoais nos trilhos utilizados pelas nossas tropas. Também recorriam imenso a duras emboscadas contra as colunas de viaturas militares e, chegando mesmo a atacar os nossos aquartelamentos como foi o caso daqueles a que assisti em Nambuangongo, que no curto espaço de 2 semanas foi alvo por parte da FNLA de 4 horríveis ataques, em 31 de Agosto, 10, 12 e 15 de Setembro de 1972.
Estes movimentos também disputavam entre si o controle da região, já que Nambuangongo era um local mítico e simbólico onde tudo começou em 1961.
O ELNA ( Exercito de Libertação Nacional de Angola), braço armado da FNLA era muito forte e agressivo nesta zona, estava organizada em Centrais, Quartéis e Secções. As Centrais dispunham de 1 ou mais grupos móveis bem armados, municiados e instruídos militarmente. Os Quartéis eram compostos por numerosos grupos inimigos de carácter fixo com organização semelhante ás nossas tropas. Por sua vez as Secções eram aglomerados civis protegidos por 3 ou 4 elementos armados em instalações próprias e que se destinavam a alertar as populações da aproximação das nossas tropas e retardá-las se possível. Normalmente tinham postos de vigia nestes aglomerados populacionais, onde normalmente existiam escolas para crianças em que estas aprendiam a ler e a escrever Português.
Por seu lado o MPLA que tinha aqui perto o seu Quartel-general estava dividido em Zonas com sede em Centrais, das quais dependiam as Secções. As Centrais e Secções tinham uma organização semelhante ás da FNLA e tal como esta utilizavam armadilhas, minas e avisos sonoros nos trilhos de acesso ás suas instalações que assinalavam com referencias só deles conhecidas.
Tanto um como o outro movimento tinham uma bem montada e eficiente rede de observação e vigilância, que lhes permitiam controlar todos os movimentos das NT.
MANUEL ALDEIAS
sábado, 15 de maio de 2010
24ª Confraternização da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite
A Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, vai realizar na próxima sexta-feira dia 21 de Maio pelas 12 00 H o 24º Almoço de Confraternização.
Este ano o evento terá lugar no restaurante “O Pavão” situado na Charneca da Caparica, concelho de Almada.
Este é sempre um acontecimento aguardado com enorme ansiedade, por proporcionar momentos de sã confraternização entre os seus participantes e, também de grande expectativa pelo reencontro de velhos amigos com os quais há muito tempo não se tem contacto.
É sempre grande a afluência de participantes presentes nesta confraternização, contando todos os anos com uma participação de varias centenas de Arsenalistas e, que se espera que este ano tenha uma afluência ainda mais elevada do que as edições anteriores.
Este ano o evento terá lugar no restaurante “O Pavão” situado na Charneca da Caparica, concelho de Almada.
Este é sempre um acontecimento aguardado com enorme ansiedade, por proporcionar momentos de sã confraternização entre os seus participantes e, também de grande expectativa pelo reencontro de velhos amigos com os quais há muito tempo não se tem contacto.
É sempre grande a afluência de participantes presentes nesta confraternização, contando todos os anos com uma participação de varias centenas de Arsenalistas e, que se espera que este ano tenha uma afluência ainda mais elevada do que as edições anteriores.
terça-feira, 11 de maio de 2010
CONFRATERNIZAÇÃO DOS CAROLAS UNIDOS
Decorreu num clima de grande animação e franca camaradagem o almoço de confraternização dos CAROLAS UNIDOS.
Este evento foi realizado juntamente com os camaradas da CCS e do Pelotão de Morteiros, que amargaram connosco nos tempos difíceis da batalha de Nambuangongo. Teve lugar no sábado dia 8 de Maio na Mealhada e foi iniciado com todos nós a rezar um pai nosso em memória de todos os camaradas já falecidos, seguido de um minuto de silencio.
A CSS como anfitriã e veterana nestas andanças contou com uma bela representação de varias dezenas de participantes, já da parte dos CAROLAS UNIDOS apenas compareceram 17 elementos acompanhados dos seus familiares.
Éramos poucos, bastante poucos, para um universo de cerca de 180 camaradas que compunham a C.CAÇ.3386, no entanto a emoção e a alegria foram enormes e contagiantes por encontrarmos alguns camaradas ao fim de tantos anos.
Espero que para o próximo ano, com uma campanha de marketing mais agressiva consigamos juntar um maior número de CAROLAS.
MANUEL ALDEIAS
Éramos poucos, bastante poucos, para um universo de cerca de 180 camaradas que compunham a C.CAÇ.3386, no entanto a emoção e a alegria foram enormes e contagiantes por encontrarmos alguns camaradas ao fim de tantos anos.
Espero que para o próximo ano, com uma campanha de marketing mais agressiva consigamos juntar um maior número de CAROLAS.
MANUEL ALDEIAS
domingo, 9 de maio de 2010
�Fomos atacados no dia do meu aniversario�
Para ler este artigo, publicado no jornal CORREIO da MANHÃ clicar no titulo acima.
Para ler este artigo, publicado no jornal CORREIO da MANHÃ clicar no titulo acima.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
RELÍQUIA
Quem se recorda desta camisola tão vélhinha?
Provavelmente todo aquele punhado de rapazes feitos soldados que compunham a C. Caç. 3386 “ Os “Carolas Unidos”,
os quais passaram o inverno das suas jovens vidas calcorreando não só as inóspitas e densas matas do Norte, como tambem as belas e amplas savanas do extremo Meridional da imensa Angola
Rebuscando nas poucas recordações que foi possível trazer comigo para a Metrópole. Digo poucas, pois devido á minha atormentada saída de Luanda no final do já longínquo ano de 1974, não tive oportunidade de enviar a célebre “mala de porão” que era habitual os soldados despacharem gratuitamente por via marítima, e onde seguiam varias recordações com destaque para o artesanato local.
Durante a minha atribulada permanência de mais de 2 anos em Angola, fui coleccionando vários artefactos com os quais ia recheando a minha mala de porão.
Foi com dificuldades extremas que consegui manter comigo essa mala, chegando a viajar comigo no conhecido avião de carga Nordatlas e também várias vezes pelas inúmeras picadas Angolanas e, isto devido ás minhas constantes e diversas andanças pelo imenso território. Basta recordar que o percorri desde a fronteira Norte até á longínqua fronteira Sul.
Devido a ter sido á ultima hora que tive conhecimento do meu muito ambicionado regresso a casa, seleccionei apressadamente alguns poucos objectos, entre as quais esta camisola que transportaria comigo numa pequena mala de cartão, colocada na bagageira do avião por cima da minha cabeça.
MANUEL ALDEIAS
Provavelmente todo aquele punhado de rapazes feitos soldados que compunham a C. Caç. 3386 “ Os “Carolas Unidos”,
os quais passaram o inverno das suas jovens vidas calcorreando não só as inóspitas e densas matas do Norte, como tambem as belas e amplas savanas do extremo Meridional da imensa Angola
Rebuscando nas poucas recordações que foi possível trazer comigo para a Metrópole. Digo poucas, pois devido á minha atormentada saída de Luanda no final do já longínquo ano de 1974, não tive oportunidade de enviar a célebre “mala de porão” que era habitual os soldados despacharem gratuitamente por via marítima, e onde seguiam varias recordações com destaque para o artesanato local.
Durante a minha atribulada permanência de mais de 2 anos em Angola, fui coleccionando vários artefactos com os quais ia recheando a minha mala de porão.
Foi com dificuldades extremas que consegui manter comigo essa mala, chegando a viajar comigo no conhecido avião de carga Nordatlas e também várias vezes pelas inúmeras picadas Angolanas e, isto devido ás minhas constantes e diversas andanças pelo imenso território. Basta recordar que o percorri desde a fronteira Norte até á longínqua fronteira Sul.
Devido a ter sido á ultima hora que tive conhecimento do meu muito ambicionado regresso a casa, seleccionei apressadamente alguns poucos objectos, entre as quais esta camisola que transportaria comigo numa pequena mala de cartão, colocada na bagageira do avião por cima da minha cabeça.
MANUEL ALDEIAS
domingo, 25 de abril de 2010
Tambem estive na fronteira norte de Angola
Extrato de " A minha odisseia por terras Angolanas", onde caracterizo a região fronteiriça Norte, junto da qual terminei a longa comissão de mais de 2 anos, Já depois de 25 de Abril de 1974.
Esta região fronteiriça do norte de Angola, apresentava um relevo bastante ondulado com altos capinzais, diversas espinhosas e alguns pântanos repletos dos incomodáveis mosquitos em espacial na época das chuvas. Também se encontravam principalmente nos vales e junto das linhas de água algumas florestas virgens cerradas, mas que não impossibilitavam a sua penetração.
O clima de características tropicais era muito adverso para a saúde de todos nós, e propício ao aparecimento de doenças como o paludismo e as hepatites. Registavam-se duas estações, a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio que se caracterizava por altas temperaturas, humidade elevada e, enormes índices de pluviosidade que dificultavam enormemente o transito de viaturas pelas picadas de terreno argiloso de cor avermelhada muito escorregadio característico desta região.
A estação seca ou do cacimbo de meados de Maio a meados de Outubro caracterizava-se pela ausência de chuvas, descida de temperatura e formação durante a noite de um tipo de nevoeiro que designávamos por cacimbo, o qual se prolongava até meio da manha com condições de visibilidade muito reduzidas, condicionando fortemente as deslocações das aeronaves com consequências muito nefastas nas evacuações aéreas de doentes e feridos.
Esta zona que antes do eclodir da guerra em 1961 tinha uma relativamente grande densidade populacional, encontrava-se agora praticamente desabitada, os aglomerados populacionais indígenas tinham sido abandonadas no seguimento desses acontecimentos, tendo os seus habitantes pertencentes ao grupo étnico kicongo, refugiado-se nas matas ou foragido para a vizinha Republica do Zaire.
Os indivíduos que se apresentavam ou eram resgatados da mata pelas N.T ( nossas tropas). foram no seguimento de directrizes governamentais e para melhor controle militar, reordenados em povoações ao longo dos principais itinerários, ou nos centros populacionais existentes, como São Salvador a capital do distrito, distante de nós cerca de 80 km, que além da guarnição militar e de alguns comerciantes e funcionários brancos, possuía uma sanzala habitada por várias centenas de africanos.
Na Mamarrosa base militar onde agora me encontrava existia uma roça de café, a única da região que tinha sobrevivido ao eclodir da guerra, era protegida pelas N.T. e empregava cerca de 100 trabalhadores Bailundos, oriundos do centro de Angola e aqui a laborar como contratados.
Esta era uma zona de influência da (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola, presidida por Holden Roberto, que possuía os seus santuários logo alí na vizinha Republica do Zaire. Ao contrário da região dos Dembos, onde iniciei a minha longa comissão de mais de dois anos, aqui o IN (inimigo) não se encontrava radicado com carácter de permanência, apenas a utilizando como área de trânsito, reabastecimento e recolha de informações. Era um dos principais corredores de penetração utilizados para infiltrar grupos armados para essa zona fulcral da guerra que era a mata dos Dembos-Nambuangongo, Zala – e na rota em sentido inverso para fazer entrar na Republica do Zaire populações retiradas dessas matas do interior, ou guerrilheiros para recuperação, treino e rearmamento para posterior reentrada em Angola.
Estas colunas IN durante os seus movimentos lançavam a grande distância batedores avançados que mantinham informados o grosso da coluna. De igual modo utilizavam guardas para protegerem a retaguarda.
Aqui o IN procurava esquivar-se ao contacto com as NT, evitando deixar vestígios da sua passagem ou permanência e quando detectado reagia pelo fogo, mas sempre procurando pôr-se em fuga.
Também espiavam os nossos movimentos e actividades e esporadicamente actuavam através das suas temíveis Companhias Moveis, as quais se revelavam muito destemidas, violentas e bem organizadas, assim como aquela chefiada pelo temível Pedro Afamado.
Por terem logo do outro lado da fronteira as suas importantes bases de Sangololo e Kinkuso, tornava-se muito tentador o ataque relâmpago aos aquartelamentos de fronteira seguido de fuga para esses santuarios, como aquele ao nosso pequeno destacamento do Luvo, como descrevo em: "O meu 29 de julho" que pode ser lido clicando AQUI
Manuel Aldeias
Esta região fronteiriça do norte de Angola, apresentava um relevo bastante ondulado com altos capinzais, diversas espinhosas e alguns pântanos repletos dos incomodáveis mosquitos em espacial na época das chuvas. Também se encontravam principalmente nos vales e junto das linhas de água algumas florestas virgens cerradas, mas que não impossibilitavam a sua penetração.
O clima de características tropicais era muito adverso para a saúde de todos nós, e propício ao aparecimento de doenças como o paludismo e as hepatites. Registavam-se duas estações, a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio que se caracterizava por altas temperaturas, humidade elevada e, enormes índices de pluviosidade que dificultavam enormemente o transito de viaturas pelas picadas de terreno argiloso de cor avermelhada muito escorregadio característico desta região.
A estação seca ou do cacimbo de meados de Maio a meados de Outubro caracterizava-se pela ausência de chuvas, descida de temperatura e formação durante a noite de um tipo de nevoeiro que designávamos por cacimbo, o qual se prolongava até meio da manha com condições de visibilidade muito reduzidas, condicionando fortemente as deslocações das aeronaves com consequências muito nefastas nas evacuações aéreas de doentes e feridos.
Esta zona que antes do eclodir da guerra em 1961 tinha uma relativamente grande densidade populacional, encontrava-se agora praticamente desabitada, os aglomerados populacionais indígenas tinham sido abandonadas no seguimento desses acontecimentos, tendo os seus habitantes pertencentes ao grupo étnico kicongo, refugiado-se nas matas ou foragido para a vizinha Republica do Zaire.
Os indivíduos que se apresentavam ou eram resgatados da mata pelas N.T ( nossas tropas). foram no seguimento de directrizes governamentais e para melhor controle militar, reordenados em povoações ao longo dos principais itinerários, ou nos centros populacionais existentes, como São Salvador a capital do distrito, distante de nós cerca de 80 km, que além da guarnição militar e de alguns comerciantes e funcionários brancos, possuía uma sanzala habitada por várias centenas de africanos.
Na Mamarrosa base militar onde agora me encontrava existia uma roça de café, a única da região que tinha sobrevivido ao eclodir da guerra, era protegida pelas N.T. e empregava cerca de 100 trabalhadores Bailundos, oriundos do centro de Angola e aqui a laborar como contratados.
Esta era uma zona de influência da (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola, presidida por Holden Roberto, que possuía os seus santuários logo alí na vizinha Republica do Zaire. Ao contrário da região dos Dembos, onde iniciei a minha longa comissão de mais de dois anos, aqui o IN (inimigo) não se encontrava radicado com carácter de permanência, apenas a utilizando como área de trânsito, reabastecimento e recolha de informações. Era um dos principais corredores de penetração utilizados para infiltrar grupos armados para essa zona fulcral da guerra que era a mata dos Dembos-Nambuangongo, Zala – e na rota em sentido inverso para fazer entrar na Republica do Zaire populações retiradas dessas matas do interior, ou guerrilheiros para recuperação, treino e rearmamento para posterior reentrada em Angola.
Estas colunas IN durante os seus movimentos lançavam a grande distância batedores avançados que mantinham informados o grosso da coluna. De igual modo utilizavam guardas para protegerem a retaguarda.
Aqui o IN procurava esquivar-se ao contacto com as NT, evitando deixar vestígios da sua passagem ou permanência e quando detectado reagia pelo fogo, mas sempre procurando pôr-se em fuga.
Também espiavam os nossos movimentos e actividades e esporadicamente actuavam através das suas temíveis Companhias Moveis, as quais se revelavam muito destemidas, violentas e bem organizadas, assim como aquela chefiada pelo temível Pedro Afamado.
Por terem logo do outro lado da fronteira as suas importantes bases de Sangololo e Kinkuso, tornava-se muito tentador o ataque relâmpago aos aquartelamentos de fronteira seguido de fuga para esses santuarios, como aquele ao nosso pequeno destacamento do Luvo, como descrevo em: "O meu 29 de julho" que pode ser lido clicando AQUI
Manuel Aldeias
domingo, 18 de abril de 2010
16º ANIVERSÁRIO DA APOIAR
A APOIAR (Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vitimas do Stess de Guerra), realizou no domingo dia 18 de Abril um convívio no pavilhão do Liberdade Futebol Clube, em lisboa, para comemorar o seu 16º aniversário.
Assistiram a este evento além de vários sócios e familiares, diversas entidades convidadas entre as quais a Drª Felicidade Bapista em representação do Secretario de Estado da Defesa e Assuntos do Mar, o Presidente da Comissão Nacional de Apoio aos Ex-Combatentes general Aníbal Flambó, o Dr. Ricardo Almeida em representação da C.M. de Lisboa e representantes de alguns partidos políticos.
O presidente da direcção Dr. Armindo Roque iniciou a sessão de boas vindas saudando e agradecendo a presença de todos, começando por denunciar o estado de abandono a que foram vetados os ex-militares das incorporações locais de Angola, Moçambique e Guiné, que lutaram incorporados no exercito português. Muitos destes militares foram assassinados e enterrados em valas comuns nos anos a seguir a 25 de Abril de 1974. Armindo Roque chamou ao pálco Iaia Jamanca um antigo fuzileiro Guineense que ao cabo de vários anos refugiado na selva, conseguiu alcançar Portugal onde encontrou refugio.
No seguimento da palavra o Dr. Afonso de Albuquerque na qualidade de presidente da assembleia-geral, enalteceu o meritório trabalho da Apoiar em prol dos ex-combatentes e mostrou-se disponível para prosseguir com o seu apoio a esta causa.
A jovem e promissora cantora Francisca Nouronha animou com as suas melodiosas interpretações este salutar convívio, que decorreu num clima de franca e alegre convivência entre sócios e convidados.
Seguiu-se um repasto com mesas fartas de diversas doçarias e variados petiscos, tudo confeccionado palas prestimosas esposas dos sócios, onde também não faltou um bonito e delicioso bolo de aniversario.
Manuel Aldeias
Assistiram a este evento além de vários sócios e familiares, diversas entidades convidadas entre as quais a Drª Felicidade Bapista em representação do Secretario de Estado da Defesa e Assuntos do Mar, o Presidente da Comissão Nacional de Apoio aos Ex-Combatentes general Aníbal Flambó, o Dr. Ricardo Almeida em representação da C.M. de Lisboa e representantes de alguns partidos políticos.
O presidente da direcção Dr. Armindo Roque iniciou a sessão de boas vindas saudando e agradecendo a presença de todos, começando por denunciar o estado de abandono a que foram vetados os ex-militares das incorporações locais de Angola, Moçambique e Guiné, que lutaram incorporados no exercito português. Muitos destes militares foram assassinados e enterrados em valas comuns nos anos a seguir a 25 de Abril de 1974. Armindo Roque chamou ao pálco Iaia Jamanca um antigo fuzileiro Guineense que ao cabo de vários anos refugiado na selva, conseguiu alcançar Portugal onde encontrou refugio.
No seguimento da palavra o Dr. Afonso de Albuquerque na qualidade de presidente da assembleia-geral, enalteceu o meritório trabalho da Apoiar em prol dos ex-combatentes e mostrou-se disponível para prosseguir com o seu apoio a esta causa.
A jovem e promissora cantora Francisca Nouronha animou com as suas melodiosas interpretações este salutar convívio, que decorreu num clima de franca e alegre convivência entre sócios e convidados.
Seguiu-se um repasto com mesas fartas de diversas doçarias e variados petiscos, tudo confeccionado palas prestimosas esposas dos sócios, onde também não faltou um bonito e delicioso bolo de aniversario.
Manuel Aldeias
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Recordando o convivio de 2007
Agora que se aproxima a passos largos o 2º convívio da C.CAÇ. 3386 “Os Carolas Unidos”, que terá lugar a 8 de Maio, não posso deixar de recordar o 1º convívio, organizado conjuntamente com os "Escorpiões" da C.CAÇ. 3387 que teve lugar na maravilhosa cidade de Aveiro no ano de 2007.
Aqueles tempos de má memoria, em que rapazes de 20 anos feitos homens á força, foram forçadamente armados em guerrilheiros, marcaram profundamente, tanto na alma como no espírito e, deixaram intimamente enraizados em todos um elevado sentimento de lealdade e amizade. Sentimentos estes que todos aqueles que tiveram a felicidade de não passar por essa lamentável tormenta, têm enorme dificuldade em compreender.
Quando após passados 34 anos nos foi dada a enorme alegria de reencontrar-mos alguns dos nossos antigos camaradas, a comoção foi enorme, o coração bateu apressado e, algumas lágrimas traiçoeiras marejaram os olhos destes ex-rapazes soldados, agora a entrarem no Outono da vida.
Aqueles tempos de má memoria, em que rapazes de 20 anos feitos homens á força, foram forçadamente armados em guerrilheiros, marcaram profundamente, tanto na alma como no espírito e, deixaram intimamente enraizados em todos um elevado sentimento de lealdade e amizade. Sentimentos estes que todos aqueles que tiveram a felicidade de não passar por essa lamentável tormenta, têm enorme dificuldade em compreender.Quem a viu! e a quem a vê! Não parece. Mas realmente por muito estranho que pareça este é o estado actual da emblemática igreja.
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