segunda-feira, 26 de julho de 2010

Capíulo V- Mais um capitulo da minha odisseia

Agora já nos encontrávamos mais perto do final desta etapa e os turras ainda não se tinham metido connosco, não estava a correr mal esta viagem pelo sertão Angolano.

A coluna continuava a rodar normalmente na picada muito esburacada e, devido aos constantes saltos da viatura nós saltávamos juntamente com ela, mas sempre com a arma bem segura nas mãos e as cartucheiras na cinta, não podíamos descurar a segurança.
Repentinamente rebenta estrondoso e diabólico tiroteio de armas automáticas e metralhadoras pesadas, toda a coluna se imobiliza e nós saltamos rapidamente para debaixo da viatura protegendo-nos debaixo das suas rodas.
Sob este tiroteio terrível e infernal o Farsola grita-me.
- Os cabrões estão a atacar a cauda da coluna! Estão a dar porrada nos nossos amigos do Meposo.
E eu confirmo angustiado.
- Pois, é. Entre eles estão o transmissões Valinhas e o enfermeiro Marialva.
O Batalhão de Caçadores 4912 com sede em Noqui, tinha a 3º companhia destacada em Mepala e a 2º em Meposo- que estava agora a ser fortemente atacada e na qual estavam integrados o Valinhas e o Marialva- Esta companhia do Meposo, assim como o restante Batalhão 4912 eram constituidos por soldados atiradores Açoreanos. Apenas os graduados e os especialistas eram provenientes da Metrópole.
Efectivamente o inimigo tinha uma tremenda e bem montada emboscada á nossa espera. Deixara passar a quase totalidade das viaturas e atacava forte e feio as duas últimas, dois veículos hunimogues com seis soldados cada, que como já referi faziam parte da escolta protegendo-nos a retaguarda.
O inimigo tinha criteriosamente escolhido o local da emboscada, a picada muito estreita e sinuosa, o terreno bastante ravinado e a contornar um alto morro, não permitia que as viaturas da frente invertessem a marcha para virem em socorro dos que estavam a ser massacrados.
Parecia que os nossos estavam a reagir, mas muito timidamente, pois distinguiam-se alguns tiros de G3, mas muito poucos.
Entretanto passados minutos do começo deste inferno, passam por nós a correr alguns soldados das viaturas da frente, vinham curvados com as armas em riste, a gritarem, injuriando e chamando nomes e impropérios aos turras, ao mesmo tempo que se tentavam incentivar e encorajar mutuamente.
Algumas balas perdidas e estilhaços passam alto sobre nós e algumas assobiam batendo nos taipais metálicos das viaturas. Que será feito do nosso ancião que ficara sozinho em cima da camioneta?
Junto a nós a menina chorava desconsolada agarrada ao pescoço da mãe, enquanto o rapaz gritando descontroladamente se aninhara junto do Farsola.
Mais soldados correm e praguejam, subindo o morro tentando o envolvimento, o tiroteio de G3 e bazucas torna-se mais intenso, mas passado pouco tempo quase se faz silencio, apenas alguns rebentamentos de morteiros se fazem ouvir cada vês a rebentarem mais distante, sinal de que os turras retiram e os nossos os perseguem á morteirada.
Todo este inferno demoníaco se desenrola muito perto de nós, as viaturas emboscadas devem estar a uns 100 metros ou menos, mas nada conseguimos vislumbrar devido á curva que contorna o morro e á mata cerrada.
A coluna fica imobilizada durante longas horas e assistimos á chegada de um héli – canhão que nos sobrevoa fazendo um ruído ensurdecedor, de seguida aparecem dois helicópteros mais pequenos equipados com duas macas cada. Receamos que o pior possa ter acontecido aos nossos amigos e camaradas.
Entretanto ordenam-nos que subamos para os nossos postos em cima da camioneta,
o Farsola fica deitado com a arma apontada á mata cerrada, enquanto eu fico no lado oposto a controlar o alto capim que me bate na cara. O velhote que entretanto eu ajudara a descer, aninhara-se junto da mulher e das crianças debaixo da viatura e todos entoavam um enorme pranto.
MANUEL ALDEIAS

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Capítulo IV-Continua a minha viajem pelo setão Angolano

Partimos de Ambrizete com era hábito nestas deslocações ainda de madrugada, antes do sol nascer, para a última etapa com destino a São Salvador do Congo.
Esta seria a etapa mais difícil desta longa viagem, porque eram dezenas e dezenas de km por picadas de terra batida em péssimo estado, com muitos buracos ainda mais agravados por estarmos em plena época das chuvas. E viajarmos na caixa de carga da camioneta também não era nada agradável.
A composição da coluna sofrera alterações, a segurança fora reforçada, e nós também tomamos algumas medidas, limpamos  muito bem com um pano as nossas meninas, tendo especial atenção á zona da culatra, puxei várias vezes o manipulo, injectando e expelindo algumas balas, confirmando que tudo estava em condições e pronto para qualquer eventualidade Agora já não viajávamos só nós os dois, em Ambrizete entraram novos passageiros que nos faziam companhia.Sentado no chão e tal como nós aos trambolhões provocados pelos imensos buracos, seguia um ancião vestido andrajosamente, muito magro, seco, com uma pequena barbicha e um braço ao peito. Aparentava talvez cinquenta anos, não sei bem precisar, porque estas pessoas ostentavam uma idade superior aquela que tinham na realidade e a sua esperança de vida era muito baixa, penso que na época  não ultrapassaria os quarenta anos.
Também tínhamos por companhia uma jovem mãe, vestida ao modo tradicional das mulheres da tribo kicongo, com um pano garrido repleto de ramagens muito coloridas atado abaixo do peito, vinha acompanhada de dois filhos, uma menina de cinco ou seis anos com um pano atado á cinta e um rapaz um pouco mais velho, vestido simplesmente com uns calções bastante coçados e também descalço como todos os outros nossos companheiros de viajem. Segundo me disseram, todos eles regressavam a casa depois de uma ida ao Hospital.
Na nossa frente seguia uma camioneta civil com uma enorme carga de grades de cerveja, á qual o Farsola lançava um olhar de felino, farejando a oportunidade de deitar a mão a algumas garrafas.
Na nossa retaguarda vinha uma viatura militar com uma carga totalmente coberta por um oleado verde, o que não era comum, por aqui todas as cargas normalmente vinham descobertas, travadas no cimo com algumas tábuas atravessadas e amarradas com grossas cordas. O Farsola não resistiu á sua curiosidade de antigo larápio, na primeira paragem dirigiu-se á camioneta, levantou o oleado, mirou e correu para mim gritando esbaforido.
- Mike! Vamos bem acompanhados. Porra! É um carregamento de sobretudos de madeira.
Respondi-lhe, incomodado com a descoberta.
- Eh. Pá! Como a puta da guerra no norte está a aquecer, estão-se a precaver com caixões, Mau augúrio.
Viajávamos na cauda da coluna, atrás de nós só a camioneta dos caixões, e em último lugar para fechar este carrossel dois hunimogues com os soldados encarregados da protecção á retaguarda.
Com o escaldante sol Africano a pique e a água do cantil quase a ferver chegamos a Tamboco, uma grande Sanzala que se estendia de um e outro lado da poeirenta picada, os garotos aos bandos corriam ao lado dos hunimogues da tropa e os soldados atiravam-lhes algumas latas de conserva que rolavam pelo chão e provocavam uma renhida luta pela sua posse.
O Farsola aproveitou a pequena paragem e foi em corrida ao quartel encher os cantis de água, enquanto eu ficava de guarda aos nossos pertences.
Entretanto a coluna pôs-se em movimento e o meu camarada sem aparecer. Começava a ficar preocupado com a situação, apesar de saber que o Farsola era bastante desenrascado e portanto haveria de arranjar maneira de se desembaraçar da situação. Quando eu já desesperava de todo, á saída da povoação lá estava ele com os braços no ar a fazer sinal ao nosso motorista para parar.
Subiu para a camioneta cansado, e com voz ofegante disse.
- ÉH! Pá! No bar do Zé soldado, só já havia cerveja quente, de modo que tive de dar uma corrida até á cantina do civil que fica ao fundo da sanzala – e ao mesmo tempo que sacava duas cervejas dos grandes bolsos do camuflado, exclamava satisfeito.
- Toma lá! Ainda consegui estas duas bujecas fresquinhas.
Era um grande e prestimoso camarada este Farsola, e no relacionamento com os nossos amigos passageiros mostrava o seu lado mais humano, durante a viajem brincava muito com as crianças e oferecia-lhes atum com bolachas de água e sal, que era o nosso substituto do pão para acompanhar-mos as rações de combate. Muita fome e privações passávamos nós desditosos e ignorados soldados, calcorreando as selvas cerradas e hostis da imensa Angola, combatendo e sofrendo nesta terrivel e impiedosa guerra.

domingo, 18 de julho de 2010

Capítulo III-E a saga continua ( Hoje chegamos a Ambrizete)

O MVL partiu de madrugada, ainda de noite. Esta imensa coluna formada por dezenas e dezenas de viaturas, umas militares outras civis fretadas pela tropa, partia de quinze em quinze dias de Luanda e transportava todo o apoio logístico com destino aos diversos aquartelamentos disseminados pelo mato, e ia deixando pelos acampamentos que ficavam na sua rota os respectivos camiões. Chegada a São Salvador lá bem no norte invertia a marcha e agora em sentido inverso, ia recuperando de novo essas viaturas que voltavam a engrossar a coluna de volta a Luanda.
A protecção estava a cargo das nossas tropas que para o efeito intercalavam entre cada meia dúzia de viaturas, um hunimog com soldados fortemente armados. Á cabeça da coluna seguia uma berliet com apenas o condutor e outro soldado, sentados em cima de sacos de areia, era o chamado rebenta-minas.
Rodamos pela estrada alcatroada até Ambrizete situada na costa Atlântica, onde chegamos já ao fim da tarde, mas ainda a tempo de tomarmos um rico banho na sua maravilhosa praia de areias a perder de vista, banhada por uma luz doirada e cadente do final de dia. E extasiado assisti a um pôr do sol deslumbrante que se aproximava rapidamente do ocaso.
Sobranceiro á praia situava-se o Brinca-na-Areia um grande e conhecido café -restaurante que por ser dia de coluna se encontrava repleto de soldados. Dirigimo-nos para lá, a uma mesa ao fundo encontrava-se o meu colega de transmissões Valinhas, acompanhado do enfermeiro Marialva que iriam a partir daquele local fazer parte da escolta, reforçanda-a.
Ao ver-me o Valinhas chamou-me para a sua mesa e, demonstrando alegria e boa disposição confidenciou-me.
- É pá. Mike, isto das escoltas ao MVL é porreiro.
- Pois é – Disse eu, e indaguei.
- É muito melhor que fazer emboscadas junto da fronteira, não é?
- Se é! Mas o que tem de melhor são estas mariscadas aqui no Brinca -na – Areia.
Juntamente com estes dois amigos empanturramo-nos de cervejas cuca e do belo e apetitoso camarão, que aqui ainda tinha um preço mais acessível que em Luanda.
Bem comidos e melhor bebidos, despedimo-nos dos nossos amigos – Esta seria a ultima vez que os veria com vida, como adiante contarei – e dirigimo-nos para junto da nossa viatura, eu como era hábito fazer-mos nestas circunstancias, deitei-me em cima da capa camuflada com o saco e a arma por almofada e o céu estrelado por tecto.
O Farsola entregou-me o seu saco, pôs a arma a tiracolo e disse-me com a voz entaramelada pela cerveja.
- Guarda o meu saco, que eu vou ver se faço pela vida.
Ainda lhe recomendei.
-Não te metas em sarilhos. Ouvis-te?
Mas ele já se tinha afastado e não me ligou.
Pela madrugada sou acordado com um pontapé no cu, seguido do vozeirão cavernoso e inconfundivel do Farsola que me diz.
- Mike. Vê lá se acordas que os motores já estão em aquecimento e vamos partir - E com um sorriso de orelha a orelha rematou. 
- Ganhei uma pipa de massa, a jogar á lerpa. Depenei os papalvos dos maçaricos que vão para Noqui! Os gajos ainda trazem grana fresca do Puto.
- Ai. Sim? interroguei eu.
- Pois é pá! E ainda lhes fanei esta garrafa de água do Puto.
- Não me digas que te meteste outra vez na vermelhinha? Perguntei com ar reprovador.
Não me respondeu. A vermelhinha é um jogo de três cartas da mais pura batota, e consiste em escolher uma dama de um naipe vermelho, de entre as outras duas de naipe preto. O Farsola era exímio a manipular as três cartas, baralhando completamente a vítima que ele pretendia ludibriar, e a quem só deixava ganhar o primeiro jogo a fim de o entusiasmar a apostar mais forte.
Geralmente a vitima apostava o dinheiro e na falta deste os seus pertences. A garrafa de água do Puto a que o Farsola se referiu e me mostrou, era o nome que os indígenas davam á aguardente e terá sido ganha com este jogo.
Era um jogo altamente proibido que quase sempre acabava mal, dando origem a cenas de grande discussão e até de pancadaria, pelo facto das vítimas se sentirem burladas.
Por todas estas razões pouquíssimas vezes presenciei este jogo, que apenas era executado e muito raramente em locais de grande movimento e de passagem, onde ninguém se conhecia.



sexta-feira, 16 de julho de 2010

Capítulo II-Continuação da minha ida á consulta do H. M. de Luanda

Passada uma semana da primeira consulta ao Dr. Taborda, voltei a deslocar-me á Mamarrosa e fui novamente visitar o médico, voltando a afirmar-lhe que tinha bebido o leite condensado, mas que tudo o que comia vomitava e que agora as dores eram insuportáveis.
Para meu deleite e depois de me ouvir atentamente disse-me.
- Pois é Mike. Sendo assim, vais tratar das coisas para seguires no próximo MVL para Luanda, afim de efectuares algumas radiografias no Hospital Militar.
Agradeci-lhe a atenção, despedi-me e, quando me dirigia para a saída ainda o ouvi dizer
- Em Luanda tem cuidado com as cervejas e com o camarão, não são bons amigos do estômago.
Sempre me intrigou o bom do médico não ter descoberto a minha tramóia, tanto mais que as minhas queixas eram exactamente iguais ás do Farsola e praticamente coincidentes no tempo.
Atribuo tudo isto ao facto de ele ser sensível á nossa situação. Isto é, estarmos os dois já com praticamente dois anos de comissão, o que tínhamos passado anteriormente em Nambuangongo, na Força de Intervenção e agora neste cu de Judas.
Nunca tive oportunidade de esclarecer este episódio com o Dr. Taborda pois ele infelizmente faleceu vítima de um acidente de viação pouco tempo após o seu regresso á metrópole.
Durante a nossa curta estadia em Luanda estivemos instalados nos Adidos um quartel na periferia da cidade, onde ficavam os soldados que viessem tratar de assuntos, ou que simplesmente estivessem em transito.
Aqui a vida não poderia ser melhor, pela manha deslocávamo-nos ao Hospital afim de realizar-mos consultas e outros exames. De tarde após ingerirmos o intragável rancho, íamos até á praia na Ilha dar um mergulho nas suas águas tépidas e cristalinas, pois estávamos na estação quente. A noite era passada nas cervejarias da baixa da cidade – Portugália, Versalhes. Ou nos cinemas e noutros locais da vida nocturna que fervilhavam pela grande e maravilhosa cidade que era a bela capital de Angola.
Mas…. Como tudo o que é bom passa depressa, ao fim dumas breves três semanas, devido aos exames se terem revelado inconclusivos, como era de esperar …. Eis que de novo temos que apanhar o maldito MVL de regresso ao abominável mato e á fatídica guerra.
Filha da puta de guerra que já tinha ceifado dois anos á minha juventude. Estava farto de dormir debaixo do chão, feito coelho, acordar ao som de tiros, rebentamentos, suspiros e ais, mas …. Enfim por enquanto estava vivo e inteiro e isso era o que mais interessava naquele momento.
Afim de nos ser passada uma guia de marcha para a viagem, tivemos que nos fardar a rigor e irmo-nos apresentar ao sargento da secretaría dos Adidos. Eu tinha na altura o cabelo um pouco crescido, o que me ajudava a disfarçar a minha condição de soldado na noite Angolana. O homem quando me viu entrar olhou-me para o cabelo e desatou em altos berros.
- Rua! Ponha-se já na rua, e só apareça ao pé de mim com o cabelo devidamente cortado.
- Rua!- Ainda voltou a repetir o lateiro de merda! Cabrão! Filho da puta!
Estes chicos tinham o umbigo tão grande, que por vezes nos ignoravam, o que até acabava por ser vantajoso.
Mandei cortar o cabelo e apresentei-me de novo ao Chico, que desta vez simplesmente me ignorou, possivelmente já nem me reconheceu entre tantos soldados vestidos de igual e com a mesma idade.
Manuel Aldeias

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Capítulo I-
Encontro-me presentemente a passar à escrita, a minha ida à consulta do Hospital Militar de Luanda, acompanhado do meu colega Farsola e, á medida que for escrevendo vou publicando no BLOG.
Assim sendo, aqui vai a primeira parte dessa odisseia, em que apenas alterei os nomes dos intervenientes.
 O meu amigo Farsola não escondia de ninguém o seu lamentável e  tumultuoso passado de larápio nas ruas de Cascais.

De altura mediana, gorducho, cabelo preto e liso já bastante ralo e com grandes entradas, era uma figura peculiar. Mais velho que todos nós cerca de 5 anos, tinha chegado à vida militar bastante tarde devido a ter cumprido pena de prisão.
Ele e o seu bando de delinquentes dedicavam-se ao arrombamento e roubo de bens deixados no interior dos automóveis – Nunca me faltava o dinheiro – gabava-se ele muitas vezes – Amachucávamos as notas em pequenas bolas antes de as colocarmos nos bolsos das calças.
O seu gang tinha sido desmantelado e condenado. Após o cumprimento da pena a que fora sujeito pelo tribunal, ingressara compulsivamente na tropa e enviado para Angola e para a pior zona de guerra – Nambuangongo. Tinha sido ali naqueles tempos difíceis dos ataques ao aquartelamento, das emboscadas mortíferas e das duras e espinhosas operações apeadas naquela intricada região dos Dembos, no Norte de Angola, que nos conhecemos e iniciamos a nossa amizade.
Apesar do seu passado pouco recomendável era um bom camarada, amigo do seu amigo, gingão, rebelde e desenrascado, em suma um bon vivan.
Com o regresso da nossa antiga companhia á Metrópole, e como a nós por termos ido em rendição individual, ainda nos faltar algum tempo para terminarmos a comissão, fomos enviados para junto da fronteira Norte.
O Farsola fora colocado na sede da companhia “ Os Felinos” em Mamarrosa, uma antiga roça de café no norte de Angola, e eu a 7 km dali numa pequena base em cima da linha de fronteira, chamada Luvo.
Numa tarde bastante quente e a ameaçar trovoada, desloquei-me em coluna militar á Mamarrosa. Á saída das viaturas sou abordado pelo Farsola que me diz.
- Mike, quero despedir-me de ti, pois vou passar uns dias a Luanda, mais precisamente ao Hospital Militar.
- Então estás doente? Perguntei preocupado.
- Achas? Simplesmente dei a volta ao Dr. Taborda.
De seguida contou-me pormenorizadamente como conseguiu enganar o nosso médico, fazendo-lhe crer que possivelmente teria uma úlcera no estômago, instigando-me a proceder de igual modo.
Não perdi tempo e, valendo-me das suas instruções rapidamente me dirigi ao Dr. Taborda. Este encontrava-se no seu improvisado gabinete em madeira coberto por chapas zincadas, junto do qual também funcionava a enfermaria.
Ao ver-me entrar, o medico que me conhecia perfeitamente, pois éramos muito poucos, perguntou-me:
- Então Mike! Entra! O que te trás por cá?
Depois de o cumprimentar, queixei-me dos sintomas que o Farsola me havia ensinado, na esperança de também eu ser enviado a Luanda. E não é que o nosso prestimoso e amável médico me prescreve exatamente o mesmo, que tinha prescrito ao Farsola duas semanas antes? Dizendo-me:
- Da ração de combate e do arroz com salsichas, que é o que todos nós comemos, não te posso livrar – e continuou – Mas vou dar indicações para te entregarem umas latas de leite condensado.
A primeira parte do plano estava a decorrer lindamente. De posse das latas de leite condensado encaminhei-me para a coluna, e segui de novo para o inferno do Luvo e para as noites mal dormidas no chão lamacento dos abrigos.
Escusado será dizer que como não sou apreciador de  leite, tratei logo de me desfazer das latas, oferecendo-as ao guloso do Mouraria que lhes chamou um figo.
Manuel Aldeias 


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Esferografia: Pra sempre

Maravilhosos e deliciosos poemas de Janaiana Cruz
Esferografia: Pra sempre: "Traga-me teus lábios de luzTeu ar, tua fonteTua cruz, Teu horizonte Esse cansaço que é todo meuEsse toque conhecidoEstremecido pelo teuO ..."

terça-feira, 6 de julho de 2010

Recordando o Kuvelai (Sul de Angola)

Belas imagens a deste vidio, onde nos é dado recordar a região do Kuvelai. Local onde tive o previlegio de passar cerca de 5 meses, no já distante ao de 1973.
MANUEL ALDEIAS

sábado, 19 de junho de 2010

Morreu José Saramago- perfil do Nobel da Literatura

José Saramago, 87 anos, faleceu ontem dia 18 de Junho de 2010 em Lanzarote, Ilhas Canárias.
O ùnico Premio Nobel da Literatura Lusófona deixa uma extensa carreira literaria.
Pessoalmente não sou fã da escrita sem pontuação deste prestigiado e laureado escritor, tendo lido apenas dois dos seus livros- Jangada de pedra e Levantado do chão, este último narra a saga de três gerações de uma familia de trabalhadores rurais, na região onde eu vivi até aos doze anos de idade.
A minha homenagem ao Prémio Nobel da Literatura.
Manuel Aldeias

sexta-feira, 11 de junho de 2010

ELEIÇÃO DOS ORGÃOS SOCIAIS DA CPAA

Vai realizar-se a eleição dos órgãos sociais da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite

As listas de candidatos aos órgãos sociais da CPAA podem ser apresentadas até ás 18 horas do dia 17 de Junho de 2010.
O acto eleitoral terá lugar no dia 18 de Junho de 2010, funcionando com duas secções de voto nos locais e períodos de funcionamento que se passam a descrever:


Secção de voto nº 1 – na sede da CPAA na Cooperativa Piedense, sita na Rua da Cooperativa Piedense nº 94, Cova da Piedade, Concelho de Almada. Entre as 9h 30 m e as 17h 30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente.


Secção de voto nº 2no bar central do Arsenal do Alfeite, Alfeite, Concelho de Almada. Entre as 1200h e as 13h30m, horário de abertura e encerramento da mesa de voto respectivamente

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O EXTREMO SUL DE ANGOLA

Extracto de "A minha odisseia por terras Angolanas" onde caracterizo, a região fronteiriça do sul de Angola.
Ao fim de três longos dias e, de uma extensa viagem de perto de 1600km a dormirmos como já estávamos habituados no chão duro e, debaixo das viaturas, chegamos em 24 de março de 1973, a um local no meio do nada designado por Nehone, onde ficou colocada depois de montadas as tendas de campanha, a sede da C. Caç. 3386 “ Os Carolas Unidos”
Entretanto a C.C.S. ficara instalada em Pereira Dèça, uma pequena cidade capital do Distrito do Cunene e a Ç. Caç. 3387  “OS Escorpiões”alguns km mais adiante num local junto da fronteira sul de Angola denominado por Namacunde.
No dia seguinte à nossa chegada a Nehone, eu e o meu grupo de combate continuaríamos esta longa marcha por mais 200 km de picadas, até á ponte sobre o rio Cuvelai um afluente do majestoso rio Cunene, onde montámos uma nova base.
Aqui estávamos bastante longe da guerra e dos tempos conturbados e terríveis passados em Nambuangongo e na Força de Intervenção.
O imponente Rio Cunene delimitava a nossa zona de acção a norte, a qual se estendia até á fronteira sul com a actual Namíbia. Aqui tivemos oportunidade de observar de muito perto a imensa e variada fauna da savana e dos espaços abertos. Ao contrario do norte de Angola a que estávamos habituados, muito acidentado e com imensas e enormes florestas virgens cerradas, ou capinzal alto, aqui o terreno era bastante plano, de características arenosas e com poucas arvores, uma zona de savana, bastante seca e árida, já muito influenciada pelo vizinho deserto do Calaári.
Devido ao terreno ser demasiado plano e a estação das chuvas se caracterizar por chuvadas muito intensas, formavam-se durante esta estação autênticos lagos de grande extensão que condicionavam grandemente e por vezes tornavam impraticável a deslocação das viaturas.
Todavia logo que cessavam as chuvas, as viaturas podiam circular com relativa facilidade quer através dos caminhos existentes, quer através das longas chanas caracterizadas pela sua planura e ausência de arvoredo, apenas cobertas por um débil capim.
A estação seca era caracterizada por tão grandes amplitudes térmicas, que nos víamos obrigados a agasalhar com cobertores quando viajávamos durante a noite. Assistia-se também durante esta estação a uma total ausência de chuvas, levando á secagem da vegetação rasteira, das linhas de água e mesmo dos rios, excepção para o enorme Rio Cunene que se mantinha com uma fraca corrente, sendo no entanto possível a sua passagem a vau.
A escassez de água não proporcionava o desenvolvimento da agricultura, a não ser nalguns pontos junto dos cursos de agua que sulcavam a região, nomeadamente os rios Cunene e Cuvelai, e até a criação de gado, actividade predominante e que de uma maneira geral preenchia a vida destes povos se proporcionava com grandes dificuldades, forçando a uma constante transumancia em busca de alimentação e de água necessária á subsistência do gado.
A fronteira sul de Angola com o Sudoeste Africano (actual Namíbia) encontrava-se delimitada por uma extensa cerca de arame que se prolongava por uma recta de dezenas e dezenas de km.
Em princípios de 1972, um ano antes da nossa chegada, a etnia Cuanhama, a prevalecente nesta região, dera inicio a alguma agitação e apresentado certas reivindicações que foram atendidas pelas autoridades portuguesas, ao que se seguira uma fase de acalmia.
Estes acontecimentos tiveram lugar na mesma altura que os registados do outro lado da fronteira pela parte da etnia Ovambo, influenciados pela SWAPO – o movimento independentista do Sudoeste Africano – este movimento detinha uma célula nos arredores de Lusaca, capital da Zâmbia, muito próximo de uma célula do MPLA e foram referenciados na região agitadores afectos a este partido, o que confirmava a participação deste movimento nas citadas agitações. No seguimento destes acontecimentos as autoridades portuguesas decidiram ocupar militarmente a região e daí a nossa permanência neste esquecido e remoto sertão do fim do mundo.
Instalados em tendas de campanha sem electricidade, água, ou qualquer outro meio de conforto, durante o dia destilávamos com temperaturas elevadíssimas e á noite suportávamos um frio intenso, mas éramos jovens e estávamos afastados da maldita e penosa guerra que tantos sofrimento, atormentação e dor nos havia provocado.
O tempo era passado em patrulhamentos de acção psicológica e, alguma assistência sanitária, em que percorríamos centenas de km pela vasta savana. Esta era uma região muito pouca habitada, em que os seus habitantes de etnia Cuanhama viviam dispersos em pequenos quimbos familiares, constituídos por algumas palhotas cercadas por uma alta paliçada de paus a pique, que defendiam os seus habitantes e o gado dos animais selvagens como os leões.
Por aqui vivemos na paz dos deuses durante cerca de 4 meses, até ao final da comissão do B. Caç 3848, ao qual assisto, já em Luanda bastante emocionado e com os olhos marejados de lágrimas, ao embarque para a Metrópole em 4 de setembro 1973,destes meus amigos e camaradas, com os quais tinha passado cerca de um ano pelas mais variadas aventuras.
Esta minha passajem pelo Sertão do Sul de Angola está retratada em “ Calcorreando a Savana” que pode ser visionada clicando AQUI.  





domingo, 23 de maio de 2010

24º ALMOÇO DA CASA DO PESSOAL DO ARSENAL DO ALFEITE

Decorreu num clima de grande alegria e franca confraternização o 24º almoço/convívio da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite.
Como tem acontecido em anteriores edições a afluência foi grande, contando-se este ano com a presença de 250 participantes.
A confraternização teve início com um minuto de silêncio em memória dos Arsenalistas já falecidos.
O presidente da direcção tomou a palavra agradecendo a presença das entidades convidadas e de todos os participantes, também enalteceu a comissão organizadora que não se poupou a esforços para levar por diante mais este evento, o primeiro realizado após a extinção do A.A. nos moldes em que todos o conhecemos,
Apelou também para que todos os Arsenalistas que ainda não são sócios da C. P. A. A. se inscrevam quanto antes a fim de todos juntos lutarmos para manter e preservar as memorias Arsenalistas, entre as quais as bibliotecas oficinais, que tão relevante e inestimável serviço prestaram durante os setenta anos em que o Arsenal se manteve no Alfeite.
Seguidamente leu a saudação seguinte.

SAUDAÇÃO


Amigos.
Apesar da extinção do Arsenal do Alfeite, como estaleiro naval da Marinha, nada nos impede de continuarmos com o nosso espírito de confraternização anual. Assim, congratulamo-nos com os presentes e apelamos que futuramente, os trabalhadores ex-arsenalistas, Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, SA, se juntem a nós através da Casa do Pessoal.
Ao saudar a vossa presença, assim como, a de todos os convidados neste evento, é justo lembrar todos aqueles que, ao longo dos anos vêem realizando estas efemérides, sinonimo de amizades partilhadas, como Trabalhadores do extinto Arsenal do Alfeite.
Assim, para todos aqueles que, por motivos vários não estão entre nós, a Organização Da Casa do Pessoal solicita a todos os presentes que, de pé e em silêncio, lhe prestemos a nossa justa Homenagem.
MANUEL ALDEIAS

terça-feira, 18 de maio de 2010

A REGIÃO DOS DEMBOS

Extracto de "A MINHA ODISSEIA POR TERRAS ANGOLANAS", onde caracterizo a região em que  eu como soldado de transmissões, iniciei a minha longa odisseia de mais de dois anos pelo imenso território Angolano. 


Esta era uma região de terreno muitíssimo acidentado com bastantes ravinas, vales fortemente acentuados, e muitos morros cobertos de capim designados por morros carecas, os vales a perder de vista eram cobertos por florestas virgens cerradas, só transponíveis pelos trilhos dos animais ou a golpes de catana.


Perto de Nambuangongo existia uma das maiores florestas virgens do norte de Angola, a denominada floresta dos Dembos, a tal onde o MPLA tinha instalado o quartel-general da sua 1ª Região Militar. A abundância de arbustos, trepadeiras e lianas desta floresta galeria opulenta, constituíam autenticas muralhas de penetração muito difícil e que forneciam excelente abrigo ao inimigo
O clima tinha características tropicais e era muito adverso para a saúde de todos nós, caracterizava-se por duas estações: a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio, com altas temperaturas, humidade muito elevada e altos índices de pluviosidade em que chovia bastante. Devido á natureza argilosa dos solos que ofereciam pouca permeabilidade, as picadas eram grandemente afectadas ficando bastante lamacentas e escorregadias, dificultando consideravelmente a circulação das viaturas militares e tornando os percursos morosos e difíceis.
A outra estação de meados de Maio a meados de Outubro, era a chamada estação seca em que não chovia, e que durante a noite e parte da manha o céu se encobria de um manto de nevoeiro, o chamado cacimbo, que por vezes chegava a ser tão denso que tornava impraticável a utilização das pequenas avionetas e helicópteros, com graves consequências no evaquamento de doentes e feridos.
Nesta estação também conhecida por época do cacimbo as picadas tornavam-se extraordinariamente poeirentas, levantando-se grandes nuvens de pó á passagem das colunas militares, que nos obrigavam a cobrir a boca e o nariz com grandes lenços atados em volta do pescoço. Para protegermos os olhos desse pó utilizávamos uns enormes óculos que se ajustavam á face em redor dos olhos.
Esta era uma região com bastantes rios e linhas de agua, a maioria deles transponíveis a vau na época seca, porem na estação das chuvas aumentavam consideravelmente o seu caudal dificultando ou mesmo impedindo a sua transposição.
O apoio logístico dos acampamentos das nossas tropas disseminados pela selva do Norte Angolano era realizado de quinze em quinze dias, pelo MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) estas enormes colunas partiam de Luanda e eram constituídas por verdadeiros comboios de camiões civis fretados pelo exército para o transporte dos vários reabastecimentos. Eram escoltadas pelos “Dragões”, um esquadrão de auto metralhadoras Panhard EBR sediado em Luanda e por outras viaturas militares. Os poucos alimentos frescos eram distribuídos duas vezes por semana em pequenas avionetas Dorniers DO 27, que também transportavam o ambicionado correio e evacuavam os doentes.
Nesta zona não existiam populações civis devido á intensidade da guerra, os seus naturais de etnia Quimbundo tinham-se refugiado nas matas ou fugido para a Republica do Zaire logo no início das hostilidades em 1961. Esta região que antes do eclodir da guerra colonial fora muito rica em café, encontrava-se agora com a maioria das suas fazendas abandonadas. Nas raras roças de café ainda existentes e protegidas pela tropa, os trabalhadores eram de étnia Bailundo oriundos do centro de Angola e aqui deslocados das suas terras a trabalhar como contratados.
Era considerada em termos militares uma zona de grande intensidade bélica, a mais violenta do Norte de Angola. Aqui o exército Português era obrigado a defrontar-se com dois dos principais movimentos independentistas, o (MPLA) Movimento Popular para a Libertação de Angola liderado por Agostinho Neto e o Movimento de Holden Roberto (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola.
Ambos os movimentos possuíam aqui bases permanentes, algumas muito importantes, escondidas no interior das densas e quase impenetráveis florestas virgens que abundavam na região e, delas saíam para colocarem minas anti-carro nas picadas e minas anti-pessoais nos trilhos utilizados pelas nossas tropas. Também recorriam imenso a duras emboscadas contra as colunas de viaturas militares e, chegando mesmo a atacar os nossos aquartelamentos como foi o caso daqueles a que assisti em Nambuangongo, que no curto espaço de 2 semanas foi alvo por parte da FNLA de 4 horríveis ataques, em 31 de Agosto, 10, 12 e 15 de Setembro de 1972.
Estes movimentos também disputavam entre si o controle da região, já que Nambuangongo era um local mítico e simbólico onde tudo começou em 1961.
O ELNA ( Exercito de Libertação Nacional de Angola), braço armado da FNLA era muito forte e agressivo nesta zona, estava organizada em Centrais, Quartéis e Secções. As Centrais dispunham de 1 ou mais grupos móveis bem armados, municiados e instruídos militarmente. Os Quartéis eram compostos por numerosos grupos inimigos de carácter fixo com organização semelhante ás nossas tropas. Por sua vez as Secções eram aglomerados civis protegidos por 3 ou 4 elementos armados em instalações próprias e que se destinavam a alertar as populações da aproximação das nossas tropas e retardá-las se possível. Normalmente tinham postos de vigia nestes aglomerados populacionais, onde normalmente existiam escolas para crianças em que estas aprendiam a ler e a escrever Português.
Por seu lado o MPLA que tinha aqui perto o seu Quartel-general estava dividido em Zonas com sede em Centrais, das quais dependiam as Secções. As Centrais e Secções tinham uma organização semelhante ás da FNLA e tal como esta utilizavam armadilhas, minas e avisos sonoros nos trilhos de acesso ás suas instalações que assinalavam com referencias só deles conhecidas.
Tanto um como o outro movimento tinham uma bem montada e eficiente rede de observação e vigilância, que lhes permitiam controlar todos os movimentos das NT.
MANUEL ALDEIAS

sábado, 15 de maio de 2010

24ª Confraternização da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite

A Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, vai realizar na próxima sexta-feira dia 21 de Maio pelas 12 00 H o 24º Almoço de Confraternização.

Este ano o evento terá lugar no restaurante “O Pavão” situado na Charneca da Caparica, concelho de Almada.
Este é sempre um acontecimento aguardado com enorme ansiedade, por proporcionar momentos de sã confraternização entre os seus participantes e, também de grande expectativa pelo reencontro de velhos amigos com os quais há muito tempo não se tem contacto.
É sempre grande a afluência de participantes presentes nesta confraternização, contando todos os anos com uma participação de varias centenas de Arsenalistas e, que se espera que este ano tenha uma afluência ainda mais elevada do que as edições anteriores.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CONFRATERNIZAÇÃO DOS CAROLAS UNIDOS

Decorreu num clima de grande animação e franca camaradagem o almoço de confraternização dos CAROLAS UNIDOS.

Este evento foi realizado juntamente com os camaradas da CCS e do Pelotão de Morteiros, que amargaram connosco nos tempos difíceis da batalha  de Nambuangongo. Teve lugar no sábado dia 8 de Maio na Mealhada e foi iniciado com todos nós a rezar um pai nosso em memória de todos os camaradas já falecidos, seguido de um minuto de silencio.

A CSS como anfitriã e veterana nestas andanças contou com uma bela representação de varias dezenas de participantes, já da parte dos CAROLAS UNIDOS apenas compareceram 17 elementos acompanhados dos seus familiares.
Éramos poucos, bastante poucos, para um universo de cerca de 180 camaradas que compunham a C.CAÇ.3386, no entanto a emoção e a alegria foram enormes e contagiantes por encontrarmos alguns camaradas ao fim de tantos anos.
Espero que para o próximo ano, com uma campanha de marketing mais agressiva consigamos juntar um maior número de CAROLAS.
MANUEL ALDEIAS

domingo, 9 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

RELÍQUIA

Quem se recorda desta camisola tão vélhinha?
Provavelmente todo aquele punhado de rapazes feitos soldados que compunham a C. Caç. 3386 “ Os “Carolas Unidos”,
 os quais passaram o inverno das suas jovens vidas calcorreando não só as inóspitas e densas matas do Norte, como tambem as belas e amplas savanas do extremo Meridional da imensa Angola
Rebuscando nas poucas recordações que foi possível trazer comigo para a Metrópole. Digo poucas, pois devido á minha atormentada saída de Luanda no final do já longínquo ano de 1974, não tive oportunidade de enviar a célebre “mala de porão” que era habitual os soldados despacharem gratuitamente por via marítima, e onde seguiam varias recordações com destaque para o artesanato local.
Durante a minha atribulada permanência de mais de 2 anos em Angola, fui coleccionando vários artefactos com os quais ia recheando a minha mala de porão.
Foi com dificuldades extremas que consegui manter comigo essa mala, chegando a viajar comigo no conhecido avião de carga Nordatlas e também várias vezes pelas inúmeras picadas Angolanas e, isto devido ás minhas constantes e diversas andanças pelo imenso território. Basta recordar que o percorri desde a fronteira Norte até á longínqua fronteira Sul.
Devido a ter sido á ultima hora que tive conhecimento do meu  muito ambicionado regresso a casa, seleccionei apressadamente alguns poucos objectos, entre as quais esta camisola que transportaria comigo numa pequena mala de cartão, colocada na bagageira do avião por cima da minha cabeça.
MANUEL ALDEIAS

domingo, 25 de abril de 2010

Tambem estive na fronteira norte de Angola

Extrato de " A minha odisseia por terras Angolanas", onde caracterizo a região fronteiriça Norte, junto da qual terminei a longa comissão de mais de 2 anos, Já depois de 25 de Abril de 1974.
Esta região fronteiriça do norte de Angola, apresentava um relevo bastante ondulado com altos capinzais, diversas espinhosas e alguns pântanos repletos dos incomodáveis mosquitos em espacial na época das chuvas. Também se encontravam principalmente nos vales e junto das linhas de água algumas florestas virgens cerradas, mas que não impossibilitavam a sua penetração.
O clima de características tropicais era muito adverso para a saúde de todos nós, e propício ao aparecimento de doenças como o paludismo e as hepatites. Registavam-se duas estações, a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio que se caracterizava por altas temperaturas, humidade elevada e, enormes índices de pluviosidade que dificultavam enormemente o transito de viaturas pelas picadas de terreno argiloso de cor avermelhada muito escorregadio característico desta região.
A estação seca ou do cacimbo de meados de Maio a meados de Outubro caracterizava-se pela ausência de chuvas, descida de temperatura e formação durante a noite de um tipo de nevoeiro que designávamos por cacimbo, o qual se prolongava até meio da manha com condições de visibilidade muito reduzidas, condicionando fortemente as deslocações das aeronaves com consequências muito nefastas nas evacuações aéreas de doentes e feridos.
Esta zona que antes do eclodir da guerra em 1961 tinha uma relativamente grande densidade populacional, encontrava-se agora praticamente desabitada, os aglomerados populacionais indígenas tinham sido abandonadas no seguimento desses acontecimentos, tendo os seus habitantes pertencentes ao grupo étnico kicongo, refugiado-se nas matas ou foragido para a vizinha Republica do Zaire.
Os indivíduos que se apresentavam ou eram resgatados da mata pelas N.T ( nossas tropas). foram no seguimento de directrizes governamentais e para melhor controle militar, reordenados em povoações ao longo dos principais itinerários, ou nos centros populacionais existentes, como São Salvador a capital do distrito, distante de nós cerca de 80 km, que além da guarnição militar e de alguns comerciantes e funcionários brancos, possuía uma sanzala habitada por várias centenas de africanos.
Na Mamarrosa base militar onde agora me encontrava existia uma roça de café, a única da região que tinha sobrevivido ao eclodir da guerra, era protegida pelas N.T. e empregava cerca de 100 trabalhadores Bailundos, oriundos do centro de Angola e aqui a laborar como contratados.
Esta era uma zona de influência da (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola, presidida por Holden Roberto, que possuía os seus santuários logo alí na vizinha Republica do Zaire. Ao contrário da região dos Dembos, onde iniciei a minha longa comissão de mais de dois anos, aqui o IN (inimigo) não se encontrava radicado com carácter de permanência, apenas a utilizando como área de trânsito, reabastecimento e recolha de informações. Era um dos principais corredores de penetração utilizados para infiltrar grupos armados para essa zona fulcral da guerra que era a mata dos Dembos-Nambuangongo, Zala – e na rota em sentido inverso para fazer entrar na Republica do Zaire populações retiradas dessas matas do interior, ou guerrilheiros para recuperação, treino e rearmamento para posterior reentrada em Angola.
Estas colunas IN durante os seus movimentos lançavam a grande distância batedores avançados que mantinham informados o grosso da coluna. De igual modo utilizavam guardas para protegerem a retaguarda.
Aqui o IN procurava esquivar-se ao contacto com as NT, evitando deixar vestígios da sua passagem ou permanência e quando detectado reagia pelo fogo, mas sempre procurando pôr-se em fuga.
Também espiavam os nossos movimentos e actividades e esporadicamente actuavam através das suas temíveis Companhias Moveis, as quais se revelavam muito destemidas, violentas e bem organizadas, assim como aquela chefiada pelo temível Pedro Afamado.
Por terem logo do outro lado da fronteira as suas importantes bases de Sangololo e Kinkuso, tornava-se muito tentador o ataque relâmpago aos aquartelamentos de fronteira seguido de fuga para esses santuarios, como aquele ao nosso pequeno destacamento do Luvo, como descrevo em: "O meu 29 de julho" que pode ser lido clicando AQUI 
Manuel Aldeias

domingo, 18 de abril de 2010

16º ANIVERSÁRIO DA APOIAR

A APOIAR (Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vitimas do Stess de Guerra), realizou no domingo dia 18 de Abril um convívio no pavilhão do Liberdade Futebol Clube, em lisboa, para comemorar o seu 16º aniversário.
Assistiram a este evento além de vários sócios e familiares, diversas entidades convidadas entre as quais a Drª Felicidade Bapista em representação do Secretario de Estado da Defesa e Assuntos do Mar, o Presidente da Comissão Nacional de Apoio aos Ex-Combatentes general Aníbal Flambó, o Dr. Ricardo Almeida em representação da C.M. de Lisboa e representantes de alguns partidos políticos.
O presidente da direcção Dr. Armindo Roque iniciou a sessão de boas vindas saudando e agradecendo a presença de todos, começando por denunciar o estado de abandono a que foram vetados os ex-militares das incorporações locais de Angola, Moçambique e Guiné, que lutaram incorporados no exercito português. Muitos destes militares foram assassinados e enterrados em valas comuns nos anos a seguir a 25 de Abril de 1974. Armindo Roque chamou ao pálco Iaia Jamanca um antigo fuzileiro Guineense que ao cabo de vários anos refugiado na selva, conseguiu alcançar Portugal onde encontrou refugio.
No seguimento da palavra o Dr. Afonso de Albuquerque na qualidade de presidente da assembleia-geral, enalteceu o meritório trabalho da Apoiar em prol dos ex-combatentes e mostrou-se disponível para prosseguir com o seu apoio a esta causa.
A jovem e promissora cantora Francisca Nouronha animou com as suas melodiosas interpretações este salutar convívio, que decorreu num clima de franca e alegre convivência entre sócios e convidados.
Seguiu-se um repasto com mesas fartas de diversas doçarias e variados petiscos, tudo confeccionado palas prestimosas esposas dos sócios, onde também não faltou um bonito e delicioso bolo de aniversario.
Manuel Aldeias

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Recordando o convivio de 2007

Agora que se aproxima a passos largos o 2º convívio da C.CAÇ. 3386 “Os Carolas Unidos”, que terá lugar a 8 de Maio, não posso deixar de recordar o 1º convívio, organizado conjuntamente com os "Escorpiões" da C.CAÇ. 3387 que teve lugar na maravilhosa cidade de Aveiro no ano de 2007.
Quando após passados 34 anos nos foi dada a enorme alegria de reencontrar-mos alguns dos nossos antigos camaradas, a comoção foi enorme, o coração bateu apressado e, algumas lágrimas traiçoeiras marejaram os olhos destes ex-rapazes soldados, agora a entrarem no Outono da vida.
Aqueles tempos de má memoria, em que rapazes de 20 anos feitos homens á força, foram forçadamente armados em guerrilheiros, marcaram profundamente, tanto na alma como no espírito e, deixaram intimamente enraizados em todos um elevado sentimento de lealdade e amizade. Sentimentos estes que todos aqueles que tiveram a felicidade de não passar por essa lamentável tormenta, têm enorme dificuldade em compreender.
Para recordar esse tão importante acontecimento de há três anos, reproduzo as imagens do bolo de aniversário e também do grupo de 27 Carolas aqui reunidos e, já agora uma imagem actual da nossa tão conhecida e simbólica igreja de Nambuangongo.
Quem a viu! e a quem a vê! Não parece. Mas realmente por muito estranho que pareça este é o estado actual da emblemática igreja.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Confraternização da C. Caç.3386 “Os Carolas Unidos”




No dia 8 de Maio vamos realizar o 2º almoço de confraternização, digo o 2º, pois o 1º foi há três anos em 2007, juntamente com os escorpiões da C.Caç 3387 organizados pelo incansável cabo padeiro Mário Silva.
Esporadicamente alguns, poucos, camaradas têm-se reunido juntamente com a CCS.
Espero que de agora em diante tenhamos o nosso convívio com dignidade e anualmente junto da CCS e do Pel. Morteiros.
Estes nossos camaradas do Pel. Morteiros acompanharam-nos em Nambuangongo, sofrendo um morto e um ferido grave quando do feroz e faídico ataque desencadeado pela FNLA em 10 de Setembro de 1972.
O programa tem inicio ás 10. 30 Horas, com concentração junto ao restaurante “ o telheiro”, situado na E.N. nº 1 em Malaposta do Carqueijo na Mealhada, onde o almoço será servido a partir das 13 00 Horas e será antecedido de 1 minuto de silencio em memoria dos nossos camaradas falecidos.
O preço por adulto será de 27,50 euros, as crianças dos 5 aos 10 anos pagam 13.50 euros e os menores de 5 anos não pagam.
A organização estará a cargo dos camaradas Antunes, Duarte, Jaime, Martins e Cruz, pela parte da CCS e Manuel Aldeias pela parte da C.Caç. 3386.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os eternos esquecidos

Homenagem aos ex-militares da Trafaria

Um grupo de ex-combatentes Trafarienses liderados pelo ex-fur. mil. Pinheiro, ao cabo de um longo e importante trabalho de pesquisa, lançou o livro intitulado” Os eternos esquecidos”.
Antes de mais convêm recordar que a vila da Trafaria fica localizada na margem esquerda do rio Tejo já muito perto da sua foz, é uma antiga vila piscatória do concelho de Almada, situada bem junto das famosas praias da Caparica.
Ao longo das 175 páginas deste documento agora editado e depois de um pequeno resumo histórico sobre as origens desta povoação, podemos vislumbrar a ficha técnica de cada um dos Trafarienses mobilizados para o ex-ultramar português (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo-verde, São Tome e Príncipe, Timor, Índia e Macau).
Neste livro cada ex-militar tem direito a uma pagina completa, onde se encontram registados os dados pessoais e militares mais relevantes de cada um deles.
A todos aqueles que se empenharam na construção deste documento histórico, o meu bem-haja pela preservação da memoria dos ex-combatentes

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cinema em tempo de Guerra

Durante os longos períodos em que permaneci no isolamento dos aquartelamentos das nossas tropas espalhados pelo vasto sertão Angolano, não tive oportunidade de assistir a qualquer sessão de cinema.
Regra apenas quebrada, durante a tenebrosa e de má memória Operação Canacassala. Na altura e como relato em: http://www.prof2000.pt/users/secjeste/CCac3387/Canacassala.htm
encontrávamo-nos acampados em tendas de campanha em plena mata dos Dembos, no coração da guerrilha do norte de Angola, e tivemos oportunidade de assistir gratuitamente ao clássico do cinema western, o filme Rio Bravo, realizado e produzido por Howard Hawks em 1959, e protagonizado pelos inesquecíveis: John Wayne, Dean Martin e Ricky Nelson.
Tendo este filme sido projectado para um ecrã formado por um lençol esticado entre dois veículos hunimogues.
Já durante os períodos de aproximadamente duas semanas em que descansávamos na nossa base situada no Campo Militar do Grafanil nos arredores de Luanda, alem das idas á praia da Corimba para a qual tínhamos diariamente transporte militar, assim como para a noite Luandense. Também aproveitava este período de descanso operacional para me deslocar ao cinema, como é o caso do Cinema Restauração, na época 28 escudos dava direito a um ingresso na matiné, a partir do 1º Balcão.
No Grafanil também existia um cinema ao ar livre, com o pomposo nome de "Auditório-Cine", que exibia  sessões aos fins-de-semana e com entradas substancialmente mais baratas, que eu também frequentava assiduamente.
Desses tempos guardo até hoje os três bilhetes que aqui reproduzo.

sábado, 3 de abril de 2010

Madrinhas de Guerra

Também eu tive a minha madrinha de guerra que me ajudou imenso a ultrapassar os longos e angustiantes dias de trevas, longe dos familiares e amigos enquanto amargurava nas tenebrosas matas Angolanas.

Residia na região de Aveiro, mais propriamente na terra natal do cabo escritas Martinho esta minha madrinha e frequentava o magistério primário, futura professora como a sua irmã um pouco mais velha.


Redigia-lhe extensos aerogramas, chegando a dirigir-lhe quatro e cinco consecutivos, enumerando a sequencia no canto superior direito, ela correspondia-me de igual modo com extensas cartas, ou com vários aerogramas de cor amarela que na metrópole tinham um custo unitário de vinte centavos e estavam isentos de franquia.


Logo pelo Natal de 1972, o primeiro que passei em Angola, enviou-me como Menino Jesus o interessante livro da autoria da premio Nobel Norte Americana Pearl S. Buck intitulado “A Serpente Vermelha”, este excelente livro que eu li com sofreguidão e ainda hoje guardo com carinho, trazia na contra capa uma dedicatória da minha madrinha de guerra, que muito me sensibilizou e que eu aqui reproduzo.


Felicidade Maria onde quer que estejas aceita o meu sincero pedido de perdão, pelo brusco e lamentável corte no nosso relacionamento de escrita, sem aviso prévio e sem de ti me despedir. Atribuo este meu deplorável acto de interromper a nossa amizade virtual ao estado de euforia que de mim se apoderou com o tão ansiado regresso a casa.


No entanto estou-te extremamente grato pelo importantíssimo papel que demonstraste com o teu carinho, palavras de conforto e de estímulo, com que sempre me presenteaste e que tão importantes foram naquela pavorosa odisseia, que foi a interminável e longa noite da guerra em Angola.


Só aqueles que sentiram o coração bater aceleradamente com a chegada do apetecido e ambicionado correio, poderão conceder o justo valor ao importantíssimo papel de uma madrinha de guerra.


Não foi o meu caso, mas no entanto convém recordar que a criação das madrinhas de guerra foi uma iniciativa do (MNF) Movimento Nacional Feminino, fazendo parte de uma estratégia de apoio moral e social aos jovens soldados que combatiam nas ex-colónias, para o efeito publicava-se em algumas revistas, pedidos ás jovens raparigas Portuguesas para participarem neste acto patriótico com o seguinte texto;


"Que cada uma de nós se lembre que lá longe, nas províncias ultramarinas, há rapazes que deixaram tudo: mulheres, filhos, mães, noivas e o seu trabalho, o seu interesse, tudo enfim, para cumprirem o seu dever de soldados. É preciso que as mulheres portuguesas se compenetrem da sua missão, e assim como eles estão cumprindo o seu dever, lutando pela nossa querida Pátria, também vós tendes para cumprir o vosso, lutando pelo bem-estar dos nossos soldados, luta essa bem pequenina, pois uma só palavra, um pouco de conforto moral basta para levar alguma felicidade aos que estão contribuindo para a defesa da integridade do nosso Portugal.


OFEREÇAM-SE PARA MADRINHAS DE GUERRA. MANDEM O VOSSO NOME E A VOSSA MORADA PARA A SEDE DO MOVIMENTO NACIONAL FEMININO".


("Madrinhas de guerra". Revista Presença. Nº 1, 1963, p. 36-37).

sábado, 27 de março de 2010

.Afinal os elementos inimigos eram três vezes mais numerosos do que nós

Quando jovem lia nos livros de historia, episódios épicos em que se glorificavam os feitos heróicos das forças portuguesas por terem vencido exércitos várias vezes superiores em numero de homens. Na época não valorizava a questão, por supor que eram apenas estórias alteradas para enaltecerem a heroicidade de um povo.
Contudo esta minha concepção da história de Portugal viria a alterar-se drasticamente em 29 de Julho de 1974. Nessa longa e fatídica noite em que eu comemorava mais um aniversario natalício, tive ocasião de testemunhar como seu directo interveniente uma tremenda e horrorosa batalha, em que as forças inimigas eram três vezes mais numerosas que as heróicas tropas portuguesas.
No dia seguinte á noite em que se desenrolou esta infernal batalha e, na sequencia do reconhecimento exaustivo que levamos a efeito em todo o perímetro do nosso pequeno e isolado destacamento, os indícios recolhidos apontavam para um elevadíssimo numero de atacantes, cerca de 250 segundo os nossos cálculos.
Estes elevadíssimos números de elementos inimigos, seriam alguns dias mais tarde confirmados pelos elementos da PIM (Policia de Informação Militar), que as teriam obtido através da sua bem estruturada rede de informações. Encontravam-se juntamente connosco dois elementos desta PIM, desterrados neste cu do mundo, que era o pequeno e ermo destacamento do Luvo em cima da linha de fronteira com a Republica do Zaire, no extremo norte de Angola.
Tambem segundo as informações militares, este númeroso grupo inimigo enquadrado por instrutores Chineses, seria precedente da importante base da FNLA ( Frente Nacional para a Independencia de Angola) em Sangololo, situada a 180 Km da fronteira e teria sido transportado assim como o seu vasto armamento em camiões do exercito Zairense até muito proximo da nossa posição. Alguns camaradas que se encontravam de sentinela nessa noite de má memoria terão ouvido o ruido dos motores, mas relacionaram-no com o movimento de uma posição de paraquedistas Zairenses localizada a 200 m da fronteira.
Até agora só o relato oral dos meus camaradas de armas apontava para esta tão grande desproporcionalidade de números, evidenciando uma relação de três para um, na medida em que as nossas forças eram apenas compostas por cerca de oitenta homens e isto porque ao inicio dessa noite o meu grupo de combate que se encontrava no mato, em patrulhamento apeado de reconhecimento e nomadizarão se ter deslocado para o Luvo afim de reforçar este posto, devido ao facto de as informações militares apontarem com elevado grau de probabilidade um ataque de grande envergadura para essa mesma noite.
Só agora passado bastante tempo foi possível recolher documentação que comprovam estes tão elevados números, conforme documentos em anexo.
A Rasenha Histórica do Comando do Sector de São Salvador refere estes números no capítulo II da página 84. (Anexo I)
Igualmente o 7º Volume das Campanhas de África na síntese da actividade operacional do Comando de Agrupamento Nº 6008/73, menciona igual número. (AnexoII).
Ambos os documentos encontram-se á guarda do Arquivo Histórico Militar em Lisboa.
No 7º Volume das Campanhas de África é tambem referido que o posto do Luvo se encontrava guarnecido por dois grupos de combate da C. Cav. 8453 e também por uma “ Esq. canhão src 10.6 “ Para esclarecimento dos factos devo esclarecer que os referidos obuses,  que tinham por missão defender este posto, não  se encontravam nele instalados, mas sim posicionados na sede da C. CAV. 8453 “OS FELINOS” em Mamarrosa a 5 km de distancia e que cumpriram completa e cabalmente a missão que varias vezes tínhamos exercitado.
Foram sem dúvida de uma contribuição imprescindível para o desfecho do combate e pôr o inimigo em debandada. Eu próprio no abrigo das transmissões e colado ao rádio Racal tr28, transmiti em condições bastante adversas,durante toda a batalha as coordenadas que os dois obuses iam varrendo com o seu poder de fogo e creio que sem a sua prestimosa colaboração muito provavelmente não estaria hoje aqui relatando esta extraordinária e corajosa odisseia.
A PIM herdeira pós 25 de Abril, da intricada mas bastante eficaz rede de informações da PIDE/DGS, tinha conhecimento de que a FNLA de Holden Roberto planeava intensificar os ataques aos aquartelamentos de fronteira, incluindo um ataque de grande envergadura ao Luvo com o intuito de  tomar de assalto este pequeno posto avançado, afim de forçar o indeciso governo provisório de Lisboa, presidido pelo Gen. Spinola, a conceder a independência a Angola.
Estes graves e atrozes acontecimentos passaram-se paradoxalmente no dia em que os principais jornais portugueses publicaram a proclamação histórica do general Spínola então presidente da República Portuguesa, que reconhece desde essa data o direito dos povos ultramarinos á sua independência.
Este terá sido um dos últimos grandes ataques ás instalações das nossas tropas. No entanto a actividade inimiga embora esporádica continuaria, principalmente com a colocação de minas anticarro nos itinerários e só viria a terminar com a última acção em 29 de Dezembro de 1974.


ANEXO I


ANEXOII

quarta-feira, 24 de março de 2010

A minha chegada a Luanda

Recordando a minha chegada a Luanda no já distante ano de 1972, transcrevo seguidamente o primeiro capítulo de " A minha odisseia por terras Angolanas".
 Ao cabo de oito horas e trinta minutos de voo num dos dois Boeing 707 dos (TAM) Transportes Aéreos Militares, chego ao aeroporto de Luanda. Ao sair do avião tive o primeiro embate ao receber uma lufada de ar quente na cara, com uma temperatura superior a trinta graus e uma humidade sufocante, estava definitivamente em África.
Ao contrário da maioria dos soldados que viajavam enquadrados em companhias juntamente com os seus restantes camaradas, eu viajava só, vinha em rendição individual, isto é vinha substituir uma baixa em combate.
Devido ao motivo de viajar sozinho, encontrava-se á minha espera um jipe com o respectivo condutor que me transportaria até á (CMR 113) Companhia Metropolitana de Recompletamento. Esta companhia tinha sido criada exclusivamente para albergar o pessoal que chegava da Metrópole em rendição individual tal como eu e, que por aqui permanecia enquanto aguardava transporte para os vários aquartelamentos no mato.
A CMR 113 encontrava-se instalada no (RI 20) Regimento de Infantaria de Luanda, um grande quartel situado na periferia da cidade que era guarnecido por soldados do recrutamento local.
Três dias após a minha chegada a Luanda sou acometido por febres altas e dores de garganta, pelo que dou entrada na enfermaria do quartel onde permaneço internado durante cinco dias. A minha chegada a Angola estava a começar da pior maneira, no entanto a convalescença foi rápida e aproveitei a minha curta estadia de cerca de três semanas em Luanda, para conhecer esta maravilhosa e admirável cidade.
Luanda era efectivamente uma cidade majestosa cruzada por largas e belas avenidas, nas principais praças e cruzamentos o intenso transito era regulado por semáforos e polícias sinaleiros, estava deslumbrado com a sua beleza e grandiosidade.
A Avenida Marginal era fascinante assim como a admirável Ilha do Cabo conhecida por Ilha de Luanda com praias de águas cristalinas e temperaturas tépidas, encontrava-se ligada á cidade por uma ponte em betão.
As grandes cervejarias da baixa da cidade achavam-se repletas de soldados, que se encontravam em trânsito ou faziam parte da guarnição dos vários quartéis da cidade, aqui a cerveja que corria a rodos tinha preços acessíveis assim como o marisco.
Diariamente deslocava-me de machibombo (autocarro) até á baixa, mais precisamente ao quarteirão ocupado pelo restaurante Pólo Norte, a cervejaria Portugália e as pastelarias Gelo e Versalhes. Esta zona da baixa da cidade era um roteiro obrigatório para quem chegava ou partia de Luanda e portanto um local onde se podiam encontrar amigos e antigos camaradas de escola e do trabalho. Alguns deles já de volta a casa gastavam os últimos Escudos Angolanos na compra de peças de artesanato e outras recordações para trazerem de regresso á Metrópole.
Tento informar-me junto deles sobre a situação militar em Nambuangongo, local mítico no Norte de Angola para onde eu aguardava transporte afim de render um soldado de Transmissões caído em combate. Só alguns dias após a minha chegada a Luanda é que fora informado do local e da companhia para onde seria enviado.

Naquela época a guerra que travávamos nas três províncias ultramarinas (Angola, Moçambique e Guiné) era assunto tabu e a escassa informação que se tinha na Metrópole sobre a guerra colonial era controlada pala censura que transmitia a ideia de que não existia guerra em África. As mortes de soldados eram noticiadas como sendo vítimas de acidentes, e o que acontecia na longínqua e inóspita selva não interessava á população civil de Luanda ou da Metrópole. No entanto as informações que ia colhendo eram totalmente contrárias, eram-me relatados episódios de intensa actividade guerrilheira no Leste e, no norte de Angola principalmente na região dos Dembos onde se situava Nambuangongo.
Relatavam-me os meus amigos que o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) tinha instalado o Quartel-general da sua 1ª Região Militar na densa e cerrada mata do Canacassala a poucos kms de Nambuangongo, local onde as NT não conseguiam entrar. Também me apresentaram um homem bastante experiente nestas andanças da guerra, pertencia a um grupo de milícias conhecidos por OPVDCA (Organização Provincial de Defesa Civil de Angola), que tinha chegado há poucos dias do Onzo uma antiga roça de café perto de Nambuangongo cuja segurança era mantida por aquela força, este homem de cerca de quarenta anos, de raça branca mas de cor muito morena, pintou-me um quadro bastante negro e tenebroso daquela zona, na altura pensei que talvez exagerasse nas suas descrições, no entanto o medo e a incerteza começavam a tomar lugar na minha cabeça.
No contacto que procurava manter diariamente com os militares chegados do mato, começava a inteirar-me da enorme magnitude e horrores desta guerra esquecida. Na véspera da minha partida para o mato encontro-me com um soldado, que me relata que a sua companhia estacionada perto da fronteira Norte em Buela, próximo de São Salvador do Congo, tinha sofrido no anterior mês de Junho de 1972 uma tremenda emboscada, que causara sete mortos e treze feridos, entre os quais ele próprio e, que agora ao fim de vários dias de internamento no Hospital Militar de Luanda se encontrava a aguardar transporte para regressar de novo á sua companhia e ás agruras da guerra, estava bastante traumatizado psicologicamente e eu ouviu-o com atenção durante várias horas em que ele me caracterizou bastante bem o ambiente de incerteza, sofrimento e solidão em que viviam os nossos solados espalhados por estes lugares esquecidos da selva Angolana.