segunda-feira, 31 de maio de 2010

O EXTREMO SUL DE ANGOLA

Extracto de "A minha odisseia por terras Angolanas" onde caracterizo, a região fronteiriça do sul de Angola.
Ao fim de três longos dias e, de uma extensa viagem de perto de 1600km a dormirmos como já estávamos habituados no chão duro e, debaixo das viaturas, chegamos em 24 de março de 1973, a um local no meio do nada designado por Nehone, onde ficou colocada depois de montadas as tendas de campanha, a sede da C. Caç. 3386 “ Os Carolas Unidos”
Entretanto a C.C.S. ficara instalada em Pereira Dèça, uma pequena cidade capital do Distrito do Cunene e a Ç. Caç. 3387  “OS Escorpiões”alguns km mais adiante num local junto da fronteira sul de Angola denominado por Namacunde.
No dia seguinte à nossa chegada a Nehone, eu e o meu grupo de combate continuaríamos esta longa marcha por mais 200 km de picadas, até á ponte sobre o rio Cuvelai um afluente do majestoso rio Cunene, onde montámos uma nova base.
Aqui estávamos bastante longe da guerra e dos tempos conturbados e terríveis passados em Nambuangongo e na Força de Intervenção.
O imponente Rio Cunene delimitava a nossa zona de acção a norte, a qual se estendia até á fronteira sul com a actual Namíbia. Aqui tivemos oportunidade de observar de muito perto a imensa e variada fauna da savana e dos espaços abertos. Ao contrario do norte de Angola a que estávamos habituados, muito acidentado e com imensas e enormes florestas virgens cerradas, ou capinzal alto, aqui o terreno era bastante plano, de características arenosas e com poucas arvores, uma zona de savana, bastante seca e árida, já muito influenciada pelo vizinho deserto do Calaári.
Devido ao terreno ser demasiado plano e a estação das chuvas se caracterizar por chuvadas muito intensas, formavam-se durante esta estação autênticos lagos de grande extensão que condicionavam grandemente e por vezes tornavam impraticável a deslocação das viaturas.
Todavia logo que cessavam as chuvas, as viaturas podiam circular com relativa facilidade quer através dos caminhos existentes, quer através das longas chanas caracterizadas pela sua planura e ausência de arvoredo, apenas cobertas por um débil capim.
A estação seca era caracterizada por tão grandes amplitudes térmicas, que nos víamos obrigados a agasalhar com cobertores quando viajávamos durante a noite. Assistia-se também durante esta estação a uma total ausência de chuvas, levando á secagem da vegetação rasteira, das linhas de água e mesmo dos rios, excepção para o enorme Rio Cunene que se mantinha com uma fraca corrente, sendo no entanto possível a sua passagem a vau.
A escassez de água não proporcionava o desenvolvimento da agricultura, a não ser nalguns pontos junto dos cursos de agua que sulcavam a região, nomeadamente os rios Cunene e Cuvelai, e até a criação de gado, actividade predominante e que de uma maneira geral preenchia a vida destes povos se proporcionava com grandes dificuldades, forçando a uma constante transumancia em busca de alimentação e de água necessária á subsistência do gado.
A fronteira sul de Angola com o Sudoeste Africano (actual Namíbia) encontrava-se delimitada por uma extensa cerca de arame que se prolongava por uma recta de dezenas e dezenas de km.
Em princípios de 1972, um ano antes da nossa chegada, a etnia Cuanhama, a prevalecente nesta região, dera inicio a alguma agitação e apresentado certas reivindicações que foram atendidas pelas autoridades portuguesas, ao que se seguira uma fase de acalmia.
Estes acontecimentos tiveram lugar na mesma altura que os registados do outro lado da fronteira pela parte da etnia Ovambo, influenciados pela SWAPO – o movimento independentista do Sudoeste Africano – este movimento detinha uma célula nos arredores de Lusaca, capital da Zâmbia, muito próximo de uma célula do MPLA e foram referenciados na região agitadores afectos a este partido, o que confirmava a participação deste movimento nas citadas agitações. No seguimento destes acontecimentos as autoridades portuguesas decidiram ocupar militarmente a região e daí a nossa permanência neste esquecido e remoto sertão do fim do mundo.
Instalados em tendas de campanha sem electricidade, água, ou qualquer outro meio de conforto, durante o dia destilávamos com temperaturas elevadíssimas e á noite suportávamos um frio intenso, mas éramos jovens e estávamos afastados da maldita e penosa guerra que tantos sofrimento, atormentação e dor nos havia provocado.
O tempo era passado em patrulhamentos de acção psicológica e, alguma assistência sanitária, em que percorríamos centenas de km pela vasta savana. Esta era uma região muito pouca habitada, em que os seus habitantes de etnia Cuanhama viviam dispersos em pequenos quimbos familiares, constituídos por algumas palhotas cercadas por uma alta paliçada de paus a pique, que defendiam os seus habitantes e o gado dos animais selvagens como os leões.
Por aqui vivemos na paz dos deuses durante cerca de 4 meses, até ao final da comissão do B. Caç 3848, ao qual assisto, já em Luanda bastante emocionado e com os olhos marejados de lágrimas, ao embarque para a Metrópole em 4 de setembro 1973,destes meus amigos e camaradas, com os quais tinha passado cerca de um ano pelas mais variadas aventuras.
Esta minha passajem pelo Sertão do Sul de Angola está retratada em “ Calcorreando a Savana” que pode ser visionada clicando AQUI.  





domingo, 23 de maio de 2010

24º ALMOÇO DA CASA DO PESSOAL DO ARSENAL DO ALFEITE

Decorreu num clima de grande alegria e franca confraternização o 24º almoço/convívio da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite.
Como tem acontecido em anteriores edições a afluência foi grande, contando-se este ano com a presença de 250 participantes.
A confraternização teve início com um minuto de silêncio em memória dos Arsenalistas já falecidos.
O presidente da direcção tomou a palavra agradecendo a presença das entidades convidadas e de todos os participantes, também enalteceu a comissão organizadora que não se poupou a esforços para levar por diante mais este evento, o primeiro realizado após a extinção do A.A. nos moldes em que todos o conhecemos,
Apelou também para que todos os Arsenalistas que ainda não são sócios da C. P. A. A. se inscrevam quanto antes a fim de todos juntos lutarmos para manter e preservar as memorias Arsenalistas, entre as quais as bibliotecas oficinais, que tão relevante e inestimável serviço prestaram durante os setenta anos em que o Arsenal se manteve no Alfeite.
Seguidamente leu a saudação seguinte.

SAUDAÇÃO


Amigos.
Apesar da extinção do Arsenal do Alfeite, como estaleiro naval da Marinha, nada nos impede de continuarmos com o nosso espírito de confraternização anual. Assim, congratulamo-nos com os presentes e apelamos que futuramente, os trabalhadores ex-arsenalistas, Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, SA, se juntem a nós através da Casa do Pessoal.
Ao saudar a vossa presença, assim como, a de todos os convidados neste evento, é justo lembrar todos aqueles que, ao longo dos anos vêem realizando estas efemérides, sinonimo de amizades partilhadas, como Trabalhadores do extinto Arsenal do Alfeite.
Assim, para todos aqueles que, por motivos vários não estão entre nós, a Organização Da Casa do Pessoal solicita a todos os presentes que, de pé e em silêncio, lhe prestemos a nossa justa Homenagem.
MANUEL ALDEIAS

terça-feira, 18 de maio de 2010

A REGIÃO DOS DEMBOS

Extracto de "A MINHA ODISSEIA POR TERRAS ANGOLANAS", onde caracterizo a região em que  eu como soldado de transmissões, iniciei a minha longa odisseia de mais de dois anos pelo imenso território Angolano. 


Esta era uma região de terreno muitíssimo acidentado com bastantes ravinas, vales fortemente acentuados, e muitos morros cobertos de capim designados por morros carecas, os vales a perder de vista eram cobertos por florestas virgens cerradas, só transponíveis pelos trilhos dos animais ou a golpes de catana.


Perto de Nambuangongo existia uma das maiores florestas virgens do norte de Angola, a denominada floresta dos Dembos, a tal onde o MPLA tinha instalado o quartel-general da sua 1ª Região Militar. A abundância de arbustos, trepadeiras e lianas desta floresta galeria opulenta, constituíam autenticas muralhas de penetração muito difícil e que forneciam excelente abrigo ao inimigo
O clima tinha características tropicais e era muito adverso para a saúde de todos nós, caracterizava-se por duas estações: a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio, com altas temperaturas, humidade muito elevada e altos índices de pluviosidade em que chovia bastante. Devido á natureza argilosa dos solos que ofereciam pouca permeabilidade, as picadas eram grandemente afectadas ficando bastante lamacentas e escorregadias, dificultando consideravelmente a circulação das viaturas militares e tornando os percursos morosos e difíceis.
A outra estação de meados de Maio a meados de Outubro, era a chamada estação seca em que não chovia, e que durante a noite e parte da manha o céu se encobria de um manto de nevoeiro, o chamado cacimbo, que por vezes chegava a ser tão denso que tornava impraticável a utilização das pequenas avionetas e helicópteros, com graves consequências no evaquamento de doentes e feridos.
Nesta estação também conhecida por época do cacimbo as picadas tornavam-se extraordinariamente poeirentas, levantando-se grandes nuvens de pó á passagem das colunas militares, que nos obrigavam a cobrir a boca e o nariz com grandes lenços atados em volta do pescoço. Para protegermos os olhos desse pó utilizávamos uns enormes óculos que se ajustavam á face em redor dos olhos.
Esta era uma região com bastantes rios e linhas de agua, a maioria deles transponíveis a vau na época seca, porem na estação das chuvas aumentavam consideravelmente o seu caudal dificultando ou mesmo impedindo a sua transposição.
O apoio logístico dos acampamentos das nossas tropas disseminados pela selva do Norte Angolano era realizado de quinze em quinze dias, pelo MVL (Movimento de Viaturas Logísticas) estas enormes colunas partiam de Luanda e eram constituídas por verdadeiros comboios de camiões civis fretados pelo exército para o transporte dos vários reabastecimentos. Eram escoltadas pelos “Dragões”, um esquadrão de auto metralhadoras Panhard EBR sediado em Luanda e por outras viaturas militares. Os poucos alimentos frescos eram distribuídos duas vezes por semana em pequenas avionetas Dorniers DO 27, que também transportavam o ambicionado correio e evacuavam os doentes.
Nesta zona não existiam populações civis devido á intensidade da guerra, os seus naturais de etnia Quimbundo tinham-se refugiado nas matas ou fugido para a Republica do Zaire logo no início das hostilidades em 1961. Esta região que antes do eclodir da guerra colonial fora muito rica em café, encontrava-se agora com a maioria das suas fazendas abandonadas. Nas raras roças de café ainda existentes e protegidas pela tropa, os trabalhadores eram de étnia Bailundo oriundos do centro de Angola e aqui deslocados das suas terras a trabalhar como contratados.
Era considerada em termos militares uma zona de grande intensidade bélica, a mais violenta do Norte de Angola. Aqui o exército Português era obrigado a defrontar-se com dois dos principais movimentos independentistas, o (MPLA) Movimento Popular para a Libertação de Angola liderado por Agostinho Neto e o Movimento de Holden Roberto (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola.
Ambos os movimentos possuíam aqui bases permanentes, algumas muito importantes, escondidas no interior das densas e quase impenetráveis florestas virgens que abundavam na região e, delas saíam para colocarem minas anti-carro nas picadas e minas anti-pessoais nos trilhos utilizados pelas nossas tropas. Também recorriam imenso a duras emboscadas contra as colunas de viaturas militares e, chegando mesmo a atacar os nossos aquartelamentos como foi o caso daqueles a que assisti em Nambuangongo, que no curto espaço de 2 semanas foi alvo por parte da FNLA de 4 horríveis ataques, em 31 de Agosto, 10, 12 e 15 de Setembro de 1972.
Estes movimentos também disputavam entre si o controle da região, já que Nambuangongo era um local mítico e simbólico onde tudo começou em 1961.
O ELNA ( Exercito de Libertação Nacional de Angola), braço armado da FNLA era muito forte e agressivo nesta zona, estava organizada em Centrais, Quartéis e Secções. As Centrais dispunham de 1 ou mais grupos móveis bem armados, municiados e instruídos militarmente. Os Quartéis eram compostos por numerosos grupos inimigos de carácter fixo com organização semelhante ás nossas tropas. Por sua vez as Secções eram aglomerados civis protegidos por 3 ou 4 elementos armados em instalações próprias e que se destinavam a alertar as populações da aproximação das nossas tropas e retardá-las se possível. Normalmente tinham postos de vigia nestes aglomerados populacionais, onde normalmente existiam escolas para crianças em que estas aprendiam a ler e a escrever Português.
Por seu lado o MPLA que tinha aqui perto o seu Quartel-general estava dividido em Zonas com sede em Centrais, das quais dependiam as Secções. As Centrais e Secções tinham uma organização semelhante ás da FNLA e tal como esta utilizavam armadilhas, minas e avisos sonoros nos trilhos de acesso ás suas instalações que assinalavam com referencias só deles conhecidas.
Tanto um como o outro movimento tinham uma bem montada e eficiente rede de observação e vigilância, que lhes permitiam controlar todos os movimentos das NT.
MANUEL ALDEIAS

sábado, 15 de maio de 2010

24ª Confraternização da Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite

A Casa do Pessoal do Arsenal do Alfeite, vai realizar na próxima sexta-feira dia 21 de Maio pelas 12 00 H o 24º Almoço de Confraternização.

Este ano o evento terá lugar no restaurante “O Pavão” situado na Charneca da Caparica, concelho de Almada.
Este é sempre um acontecimento aguardado com enorme ansiedade, por proporcionar momentos de sã confraternização entre os seus participantes e, também de grande expectativa pelo reencontro de velhos amigos com os quais há muito tempo não se tem contacto.
É sempre grande a afluência de participantes presentes nesta confraternização, contando todos os anos com uma participação de varias centenas de Arsenalistas e, que se espera que este ano tenha uma afluência ainda mais elevada do que as edições anteriores.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CONFRATERNIZAÇÃO DOS CAROLAS UNIDOS

Decorreu num clima de grande animação e franca camaradagem o almoço de confraternização dos CAROLAS UNIDOS.

Este evento foi realizado juntamente com os camaradas da CCS e do Pelotão de Morteiros, que amargaram connosco nos tempos difíceis da batalha  de Nambuangongo. Teve lugar no sábado dia 8 de Maio na Mealhada e foi iniciado com todos nós a rezar um pai nosso em memória de todos os camaradas já falecidos, seguido de um minuto de silencio.

A CSS como anfitriã e veterana nestas andanças contou com uma bela representação de varias dezenas de participantes, já da parte dos CAROLAS UNIDOS apenas compareceram 17 elementos acompanhados dos seus familiares.
Éramos poucos, bastante poucos, para um universo de cerca de 180 camaradas que compunham a C.CAÇ.3386, no entanto a emoção e a alegria foram enormes e contagiantes por encontrarmos alguns camaradas ao fim de tantos anos.
Espero que para o próximo ano, com uma campanha de marketing mais agressiva consigamos juntar um maior número de CAROLAS.
MANUEL ALDEIAS

domingo, 9 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

RELÍQUIA

Quem se recorda desta camisola tão vélhinha?
Provavelmente todo aquele punhado de rapazes feitos soldados que compunham a C. Caç. 3386 “ Os “Carolas Unidos”,
 os quais passaram o inverno das suas jovens vidas calcorreando não só as inóspitas e densas matas do Norte, como tambem as belas e amplas savanas do extremo Meridional da imensa Angola
Rebuscando nas poucas recordações que foi possível trazer comigo para a Metrópole. Digo poucas, pois devido á minha atormentada saída de Luanda no final do já longínquo ano de 1974, não tive oportunidade de enviar a célebre “mala de porão” que era habitual os soldados despacharem gratuitamente por via marítima, e onde seguiam varias recordações com destaque para o artesanato local.
Durante a minha atribulada permanência de mais de 2 anos em Angola, fui coleccionando vários artefactos com os quais ia recheando a minha mala de porão.
Foi com dificuldades extremas que consegui manter comigo essa mala, chegando a viajar comigo no conhecido avião de carga Nordatlas e também várias vezes pelas inúmeras picadas Angolanas e, isto devido ás minhas constantes e diversas andanças pelo imenso território. Basta recordar que o percorri desde a fronteira Norte até á longínqua fronteira Sul.
Devido a ter sido á ultima hora que tive conhecimento do meu  muito ambicionado regresso a casa, seleccionei apressadamente alguns poucos objectos, entre as quais esta camisola que transportaria comigo numa pequena mala de cartão, colocada na bagageira do avião por cima da minha cabeça.
MANUEL ALDEIAS

domingo, 25 de abril de 2010

Tambem estive na fronteira norte de Angola

Extrato de " A minha odisseia por terras Angolanas", onde caracterizo a região fronteiriça Norte, junto da qual terminei a longa comissão de mais de 2 anos, Já depois de 25 de Abril de 1974.
Esta região fronteiriça do norte de Angola, apresentava um relevo bastante ondulado com altos capinzais, diversas espinhosas e alguns pântanos repletos dos incomodáveis mosquitos em espacial na época das chuvas. Também se encontravam principalmente nos vales e junto das linhas de água algumas florestas virgens cerradas, mas que não impossibilitavam a sua penetração.
O clima de características tropicais era muito adverso para a saúde de todos nós, e propício ao aparecimento de doenças como o paludismo e as hepatites. Registavam-se duas estações, a das chuvas de meados de Outubro a meados de Maio que se caracterizava por altas temperaturas, humidade elevada e, enormes índices de pluviosidade que dificultavam enormemente o transito de viaturas pelas picadas de terreno argiloso de cor avermelhada muito escorregadio característico desta região.
A estação seca ou do cacimbo de meados de Maio a meados de Outubro caracterizava-se pela ausência de chuvas, descida de temperatura e formação durante a noite de um tipo de nevoeiro que designávamos por cacimbo, o qual se prolongava até meio da manha com condições de visibilidade muito reduzidas, condicionando fortemente as deslocações das aeronaves com consequências muito nefastas nas evacuações aéreas de doentes e feridos.
Esta zona que antes do eclodir da guerra em 1961 tinha uma relativamente grande densidade populacional, encontrava-se agora praticamente desabitada, os aglomerados populacionais indígenas tinham sido abandonadas no seguimento desses acontecimentos, tendo os seus habitantes pertencentes ao grupo étnico kicongo, refugiado-se nas matas ou foragido para a vizinha Republica do Zaire.
Os indivíduos que se apresentavam ou eram resgatados da mata pelas N.T ( nossas tropas). foram no seguimento de directrizes governamentais e para melhor controle militar, reordenados em povoações ao longo dos principais itinerários, ou nos centros populacionais existentes, como São Salvador a capital do distrito, distante de nós cerca de 80 km, que além da guarnição militar e de alguns comerciantes e funcionários brancos, possuía uma sanzala habitada por várias centenas de africanos.
Na Mamarrosa base militar onde agora me encontrava existia uma roça de café, a única da região que tinha sobrevivido ao eclodir da guerra, era protegida pelas N.T. e empregava cerca de 100 trabalhadores Bailundos, oriundos do centro de Angola e aqui a laborar como contratados.
Esta era uma zona de influência da (FNLA) Frente Nacional de Libertação de Angola, presidida por Holden Roberto, que possuía os seus santuários logo alí na vizinha Republica do Zaire. Ao contrário da região dos Dembos, onde iniciei a minha longa comissão de mais de dois anos, aqui o IN (inimigo) não se encontrava radicado com carácter de permanência, apenas a utilizando como área de trânsito, reabastecimento e recolha de informações. Era um dos principais corredores de penetração utilizados para infiltrar grupos armados para essa zona fulcral da guerra que era a mata dos Dembos-Nambuangongo, Zala – e na rota em sentido inverso para fazer entrar na Republica do Zaire populações retiradas dessas matas do interior, ou guerrilheiros para recuperação, treino e rearmamento para posterior reentrada em Angola.
Estas colunas IN durante os seus movimentos lançavam a grande distância batedores avançados que mantinham informados o grosso da coluna. De igual modo utilizavam guardas para protegerem a retaguarda.
Aqui o IN procurava esquivar-se ao contacto com as NT, evitando deixar vestígios da sua passagem ou permanência e quando detectado reagia pelo fogo, mas sempre procurando pôr-se em fuga.
Também espiavam os nossos movimentos e actividades e esporadicamente actuavam através das suas temíveis Companhias Moveis, as quais se revelavam muito destemidas, violentas e bem organizadas, assim como aquela chefiada pelo temível Pedro Afamado.
Por terem logo do outro lado da fronteira as suas importantes bases de Sangololo e Kinkuso, tornava-se muito tentador o ataque relâmpago aos aquartelamentos de fronteira seguido de fuga para esses santuarios, como aquele ao nosso pequeno destacamento do Luvo, como descrevo em: "O meu 29 de julho" que pode ser lido clicando AQUI 
Manuel Aldeias

domingo, 18 de abril de 2010

16º ANIVERSÁRIO DA APOIAR

A APOIAR (Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vitimas do Stess de Guerra), realizou no domingo dia 18 de Abril um convívio no pavilhão do Liberdade Futebol Clube, em lisboa, para comemorar o seu 16º aniversário.
Assistiram a este evento além de vários sócios e familiares, diversas entidades convidadas entre as quais a Drª Felicidade Bapista em representação do Secretario de Estado da Defesa e Assuntos do Mar, o Presidente da Comissão Nacional de Apoio aos Ex-Combatentes general Aníbal Flambó, o Dr. Ricardo Almeida em representação da C.M. de Lisboa e representantes de alguns partidos políticos.
O presidente da direcção Dr. Armindo Roque iniciou a sessão de boas vindas saudando e agradecendo a presença de todos, começando por denunciar o estado de abandono a que foram vetados os ex-militares das incorporações locais de Angola, Moçambique e Guiné, que lutaram incorporados no exercito português. Muitos destes militares foram assassinados e enterrados em valas comuns nos anos a seguir a 25 de Abril de 1974. Armindo Roque chamou ao pálco Iaia Jamanca um antigo fuzileiro Guineense que ao cabo de vários anos refugiado na selva, conseguiu alcançar Portugal onde encontrou refugio.
No seguimento da palavra o Dr. Afonso de Albuquerque na qualidade de presidente da assembleia-geral, enalteceu o meritório trabalho da Apoiar em prol dos ex-combatentes e mostrou-se disponível para prosseguir com o seu apoio a esta causa.
A jovem e promissora cantora Francisca Nouronha animou com as suas melodiosas interpretações este salutar convívio, que decorreu num clima de franca e alegre convivência entre sócios e convidados.
Seguiu-se um repasto com mesas fartas de diversas doçarias e variados petiscos, tudo confeccionado palas prestimosas esposas dos sócios, onde também não faltou um bonito e delicioso bolo de aniversario.
Manuel Aldeias

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Recordando o convivio de 2007

Agora que se aproxima a passos largos o 2º convívio da C.CAÇ. 3386 “Os Carolas Unidos”, que terá lugar a 8 de Maio, não posso deixar de recordar o 1º convívio, organizado conjuntamente com os "Escorpiões" da C.CAÇ. 3387 que teve lugar na maravilhosa cidade de Aveiro no ano de 2007.
Quando após passados 34 anos nos foi dada a enorme alegria de reencontrar-mos alguns dos nossos antigos camaradas, a comoção foi enorme, o coração bateu apressado e, algumas lágrimas traiçoeiras marejaram os olhos destes ex-rapazes soldados, agora a entrarem no Outono da vida.
Aqueles tempos de má memoria, em que rapazes de 20 anos feitos homens á força, foram forçadamente armados em guerrilheiros, marcaram profundamente, tanto na alma como no espírito e, deixaram intimamente enraizados em todos um elevado sentimento de lealdade e amizade. Sentimentos estes que todos aqueles que tiveram a felicidade de não passar por essa lamentável tormenta, têm enorme dificuldade em compreender.
Para recordar esse tão importante acontecimento de há três anos, reproduzo as imagens do bolo de aniversário e também do grupo de 27 Carolas aqui reunidos e, já agora uma imagem actual da nossa tão conhecida e simbólica igreja de Nambuangongo.
Quem a viu! e a quem a vê! Não parece. Mas realmente por muito estranho que pareça este é o estado actual da emblemática igreja.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Confraternização da C. Caç.3386 “Os Carolas Unidos”




No dia 8 de Maio vamos realizar o 2º almoço de confraternização, digo o 2º, pois o 1º foi há três anos em 2007, juntamente com os escorpiões da C.Caç 3387 organizados pelo incansável cabo padeiro Mário Silva.
Esporadicamente alguns, poucos, camaradas têm-se reunido juntamente com a CCS.
Espero que de agora em diante tenhamos o nosso convívio com dignidade e anualmente junto da CCS e do Pel. Morteiros.
Estes nossos camaradas do Pel. Morteiros acompanharam-nos em Nambuangongo, sofrendo um morto e um ferido grave quando do feroz e faídico ataque desencadeado pela FNLA em 10 de Setembro de 1972.
O programa tem inicio ás 10. 30 Horas, com concentração junto ao restaurante “ o telheiro”, situado na E.N. nº 1 em Malaposta do Carqueijo na Mealhada, onde o almoço será servido a partir das 13 00 Horas e será antecedido de 1 minuto de silencio em memoria dos nossos camaradas falecidos.
O preço por adulto será de 27,50 euros, as crianças dos 5 aos 10 anos pagam 13.50 euros e os menores de 5 anos não pagam.
A organização estará a cargo dos camaradas Antunes, Duarte, Jaime, Martins e Cruz, pela parte da CCS e Manuel Aldeias pela parte da C.Caç. 3386.



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os eternos esquecidos

Homenagem aos ex-militares da Trafaria

Um grupo de ex-combatentes Trafarienses liderados pelo ex-fur. mil. Pinheiro, ao cabo de um longo e importante trabalho de pesquisa, lançou o livro intitulado” Os eternos esquecidos”.
Antes de mais convêm recordar que a vila da Trafaria fica localizada na margem esquerda do rio Tejo já muito perto da sua foz, é uma antiga vila piscatória do concelho de Almada, situada bem junto das famosas praias da Caparica.
Ao longo das 175 páginas deste documento agora editado e depois de um pequeno resumo histórico sobre as origens desta povoação, podemos vislumbrar a ficha técnica de cada um dos Trafarienses mobilizados para o ex-ultramar português (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo-verde, São Tome e Príncipe, Timor, Índia e Macau).
Neste livro cada ex-militar tem direito a uma pagina completa, onde se encontram registados os dados pessoais e militares mais relevantes de cada um deles.
A todos aqueles que se empenharam na construção deste documento histórico, o meu bem-haja pela preservação da memoria dos ex-combatentes

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cinema em tempo de Guerra

Durante os longos períodos em que permaneci no isolamento dos aquartelamentos das nossas tropas espalhados pelo vasto sertão Angolano, não tive oportunidade de assistir a qualquer sessão de cinema.
Regra apenas quebrada, durante a tenebrosa e de má memória Operação Canacassala. Na altura e como relato em: http://www.prof2000.pt/users/secjeste/CCac3387/Canacassala.htm
encontrávamo-nos acampados em tendas de campanha em plena mata dos Dembos, no coração da guerrilha do norte de Angola, e tivemos oportunidade de assistir gratuitamente ao clássico do cinema western, o filme Rio Bravo, realizado e produzido por Howard Hawks em 1959, e protagonizado pelos inesquecíveis: John Wayne, Dean Martin e Ricky Nelson.
Tendo este filme sido projectado para um ecrã formado por um lençol esticado entre dois veículos hunimogues.
Já durante os períodos de aproximadamente duas semanas em que descansávamos na nossa base situada no Campo Militar do Grafanil nos arredores de Luanda, alem das idas á praia da Corimba para a qual tínhamos diariamente transporte militar, assim como para a noite Luandense. Também aproveitava este período de descanso operacional para me deslocar ao cinema, como é o caso do Cinema Restauração, na época 28 escudos dava direito a um ingresso na matiné, a partir do 1º Balcão.
No Grafanil também existia um cinema ao ar livre, com o pomposo nome de "Auditório-Cine", que exibia  sessões aos fins-de-semana e com entradas substancialmente mais baratas, que eu também frequentava assiduamente.
Desses tempos guardo até hoje os três bilhetes que aqui reproduzo.

sábado, 3 de abril de 2010

Madrinhas de Guerra

Também eu tive a minha madrinha de guerra que me ajudou imenso a ultrapassar os longos e angustiantes dias de trevas, longe dos familiares e amigos enquanto amargurava nas tenebrosas matas Angolanas.

Residia na região de Aveiro, mais propriamente na terra natal do cabo escritas Martinho esta minha madrinha e frequentava o magistério primário, futura professora como a sua irmã um pouco mais velha.


Redigia-lhe extensos aerogramas, chegando a dirigir-lhe quatro e cinco consecutivos, enumerando a sequencia no canto superior direito, ela correspondia-me de igual modo com extensas cartas, ou com vários aerogramas de cor amarela que na metrópole tinham um custo unitário de vinte centavos e estavam isentos de franquia.


Logo pelo Natal de 1972, o primeiro que passei em Angola, enviou-me como Menino Jesus o interessante livro da autoria da premio Nobel Norte Americana Pearl S. Buck intitulado “A Serpente Vermelha”, este excelente livro que eu li com sofreguidão e ainda hoje guardo com carinho, trazia na contra capa uma dedicatória da minha madrinha de guerra, que muito me sensibilizou e que eu aqui reproduzo.


Felicidade Maria onde quer que estejas aceita o meu sincero pedido de perdão, pelo brusco e lamentável corte no nosso relacionamento de escrita, sem aviso prévio e sem de ti me despedir. Atribuo este meu deplorável acto de interromper a nossa amizade virtual ao estado de euforia que de mim se apoderou com o tão ansiado regresso a casa.


No entanto estou-te extremamente grato pelo importantíssimo papel que demonstraste com o teu carinho, palavras de conforto e de estímulo, com que sempre me presenteaste e que tão importantes foram naquela pavorosa odisseia, que foi a interminável e longa noite da guerra em Angola.


Só aqueles que sentiram o coração bater aceleradamente com a chegada do apetecido e ambicionado correio, poderão conceder o justo valor ao importantíssimo papel de uma madrinha de guerra.


Não foi o meu caso, mas no entanto convém recordar que a criação das madrinhas de guerra foi uma iniciativa do (MNF) Movimento Nacional Feminino, fazendo parte de uma estratégia de apoio moral e social aos jovens soldados que combatiam nas ex-colónias, para o efeito publicava-se em algumas revistas, pedidos ás jovens raparigas Portuguesas para participarem neste acto patriótico com o seguinte texto;


"Que cada uma de nós se lembre que lá longe, nas províncias ultramarinas, há rapazes que deixaram tudo: mulheres, filhos, mães, noivas e o seu trabalho, o seu interesse, tudo enfim, para cumprirem o seu dever de soldados. É preciso que as mulheres portuguesas se compenetrem da sua missão, e assim como eles estão cumprindo o seu dever, lutando pela nossa querida Pátria, também vós tendes para cumprir o vosso, lutando pelo bem-estar dos nossos soldados, luta essa bem pequenina, pois uma só palavra, um pouco de conforto moral basta para levar alguma felicidade aos que estão contribuindo para a defesa da integridade do nosso Portugal.


OFEREÇAM-SE PARA MADRINHAS DE GUERRA. MANDEM O VOSSO NOME E A VOSSA MORADA PARA A SEDE DO MOVIMENTO NACIONAL FEMININO".


("Madrinhas de guerra". Revista Presença. Nº 1, 1963, p. 36-37).

sábado, 27 de março de 2010

.Afinal os elementos inimigos eram três vezes mais numerosos do que nós

Quando jovem lia nos livros de historia, episódios épicos em que se glorificavam os feitos heróicos das forças portuguesas por terem vencido exércitos várias vezes superiores em numero de homens. Na época não valorizava a questão, por supor que eram apenas estórias alteradas para enaltecerem a heroicidade de um povo.
Contudo esta minha concepção da história de Portugal viria a alterar-se drasticamente em 29 de Julho de 1974. Nessa longa e fatídica noite em que eu comemorava mais um aniversario natalício, tive ocasião de testemunhar como seu directo interveniente uma tremenda e horrorosa batalha, em que as forças inimigas eram três vezes mais numerosas que as heróicas tropas portuguesas.
No dia seguinte á noite em que se desenrolou esta infernal batalha e, na sequencia do reconhecimento exaustivo que levamos a efeito em todo o perímetro do nosso pequeno e isolado destacamento, os indícios recolhidos apontavam para um elevadíssimo numero de atacantes, cerca de 250 segundo os nossos cálculos.
Estes elevadíssimos números de elementos inimigos, seriam alguns dias mais tarde confirmados pelos elementos da PIM (Policia de Informação Militar), que as teriam obtido através da sua bem estruturada rede de informações. Encontravam-se juntamente connosco dois elementos desta PIM, desterrados neste cu do mundo, que era o pequeno e ermo destacamento do Luvo em cima da linha de fronteira com a Republica do Zaire, no extremo norte de Angola.
Tambem segundo as informações militares, este númeroso grupo inimigo enquadrado por instrutores Chineses, seria precedente da importante base da FNLA ( Frente Nacional para a Independencia de Angola) em Sangololo, situada a 180 Km da fronteira e teria sido transportado assim como o seu vasto armamento em camiões do exercito Zairense até muito proximo da nossa posição. Alguns camaradas que se encontravam de sentinela nessa noite de má memoria terão ouvido o ruido dos motores, mas relacionaram-no com o movimento de uma posição de paraquedistas Zairenses localizada a 200 m da fronteira.
Até agora só o relato oral dos meus camaradas de armas apontava para esta tão grande desproporcionalidade de números, evidenciando uma relação de três para um, na medida em que as nossas forças eram apenas compostas por cerca de oitenta homens e isto porque ao inicio dessa noite o meu grupo de combate que se encontrava no mato, em patrulhamento apeado de reconhecimento e nomadizarão se ter deslocado para o Luvo afim de reforçar este posto, devido ao facto de as informações militares apontarem com elevado grau de probabilidade um ataque de grande envergadura para essa mesma noite.
Só agora passado bastante tempo foi possível recolher documentação que comprovam estes tão elevados números, conforme documentos em anexo.
A Rasenha Histórica do Comando do Sector de São Salvador refere estes números no capítulo II da página 84. (Anexo I)
Igualmente o 7º Volume das Campanhas de África na síntese da actividade operacional do Comando de Agrupamento Nº 6008/73, menciona igual número. (AnexoII).
Ambos os documentos encontram-se á guarda do Arquivo Histórico Militar em Lisboa.
No 7º Volume das Campanhas de África é tambem referido que o posto do Luvo se encontrava guarnecido por dois grupos de combate da C. Cav. 8453 e também por uma “ Esq. canhão src 10.6 “ Para esclarecimento dos factos devo esclarecer que os referidos obuses,  que tinham por missão defender este posto, não  se encontravam nele instalados, mas sim posicionados na sede da C. CAV. 8453 “OS FELINOS” em Mamarrosa a 5 km de distancia e que cumpriram completa e cabalmente a missão que varias vezes tínhamos exercitado.
Foram sem dúvida de uma contribuição imprescindível para o desfecho do combate e pôr o inimigo em debandada. Eu próprio no abrigo das transmissões e colado ao rádio Racal tr28, transmiti em condições bastante adversas,durante toda a batalha as coordenadas que os dois obuses iam varrendo com o seu poder de fogo e creio que sem a sua prestimosa colaboração muito provavelmente não estaria hoje aqui relatando esta extraordinária e corajosa odisseia.
A PIM herdeira pós 25 de Abril, da intricada mas bastante eficaz rede de informações da PIDE/DGS, tinha conhecimento de que a FNLA de Holden Roberto planeava intensificar os ataques aos aquartelamentos de fronteira, incluindo um ataque de grande envergadura ao Luvo com o intuito de  tomar de assalto este pequeno posto avançado, afim de forçar o indeciso governo provisório de Lisboa, presidido pelo Gen. Spinola, a conceder a independência a Angola.
Estes graves e atrozes acontecimentos passaram-se paradoxalmente no dia em que os principais jornais portugueses publicaram a proclamação histórica do general Spínola então presidente da República Portuguesa, que reconhece desde essa data o direito dos povos ultramarinos á sua independência.
Este terá sido um dos últimos grandes ataques ás instalações das nossas tropas. No entanto a actividade inimiga embora esporádica continuaria, principalmente com a colocação de minas anticarro nos itinerários e só viria a terminar com a última acção em 29 de Dezembro de 1974.


ANEXO I


ANEXOII

quarta-feira, 24 de março de 2010

A minha chegada a Luanda

Recordando a minha chegada a Luanda no já distante ano de 1972, transcrevo seguidamente o primeiro capítulo de " A minha odisseia por terras Angolanas".
 Ao cabo de oito horas e trinta minutos de voo num dos dois Boeing 707 dos (TAM) Transportes Aéreos Militares, chego ao aeroporto de Luanda. Ao sair do avião tive o primeiro embate ao receber uma lufada de ar quente na cara, com uma temperatura superior a trinta graus e uma humidade sufocante, estava definitivamente em África.
Ao contrário da maioria dos soldados que viajavam enquadrados em companhias juntamente com os seus restantes camaradas, eu viajava só, vinha em rendição individual, isto é vinha substituir uma baixa em combate.
Devido ao motivo de viajar sozinho, encontrava-se á minha espera um jipe com o respectivo condutor que me transportaria até á (CMR 113) Companhia Metropolitana de Recompletamento. Esta companhia tinha sido criada exclusivamente para albergar o pessoal que chegava da Metrópole em rendição individual tal como eu e, que por aqui permanecia enquanto aguardava transporte para os vários aquartelamentos no mato.
A CMR 113 encontrava-se instalada no (RI 20) Regimento de Infantaria de Luanda, um grande quartel situado na periferia da cidade que era guarnecido por soldados do recrutamento local.
Três dias após a minha chegada a Luanda sou acometido por febres altas e dores de garganta, pelo que dou entrada na enfermaria do quartel onde permaneço internado durante cinco dias. A minha chegada a Angola estava a começar da pior maneira, no entanto a convalescença foi rápida e aproveitei a minha curta estadia de cerca de três semanas em Luanda, para conhecer esta maravilhosa e admirável cidade.
Luanda era efectivamente uma cidade majestosa cruzada por largas e belas avenidas, nas principais praças e cruzamentos o intenso transito era regulado por semáforos e polícias sinaleiros, estava deslumbrado com a sua beleza e grandiosidade.
A Avenida Marginal era fascinante assim como a admirável Ilha do Cabo conhecida por Ilha de Luanda com praias de águas cristalinas e temperaturas tépidas, encontrava-se ligada á cidade por uma ponte em betão.
As grandes cervejarias da baixa da cidade achavam-se repletas de soldados, que se encontravam em trânsito ou faziam parte da guarnição dos vários quartéis da cidade, aqui a cerveja que corria a rodos tinha preços acessíveis assim como o marisco.
Diariamente deslocava-me de machibombo (autocarro) até á baixa, mais precisamente ao quarteirão ocupado pelo restaurante Pólo Norte, a cervejaria Portugália e as pastelarias Gelo e Versalhes. Esta zona da baixa da cidade era um roteiro obrigatório para quem chegava ou partia de Luanda e portanto um local onde se podiam encontrar amigos e antigos camaradas de escola e do trabalho. Alguns deles já de volta a casa gastavam os últimos Escudos Angolanos na compra de peças de artesanato e outras recordações para trazerem de regresso á Metrópole.
Tento informar-me junto deles sobre a situação militar em Nambuangongo, local mítico no Norte de Angola para onde eu aguardava transporte afim de render um soldado de Transmissões caído em combate. Só alguns dias após a minha chegada a Luanda é que fora informado do local e da companhia para onde seria enviado.

Naquela época a guerra que travávamos nas três províncias ultramarinas (Angola, Moçambique e Guiné) era assunto tabu e a escassa informação que se tinha na Metrópole sobre a guerra colonial era controlada pala censura que transmitia a ideia de que não existia guerra em África. As mortes de soldados eram noticiadas como sendo vítimas de acidentes, e o que acontecia na longínqua e inóspita selva não interessava á população civil de Luanda ou da Metrópole. No entanto as informações que ia colhendo eram totalmente contrárias, eram-me relatados episódios de intensa actividade guerrilheira no Leste e, no norte de Angola principalmente na região dos Dembos onde se situava Nambuangongo.
Relatavam-me os meus amigos que o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) tinha instalado o Quartel-general da sua 1ª Região Militar na densa e cerrada mata do Canacassala a poucos kms de Nambuangongo, local onde as NT não conseguiam entrar. Também me apresentaram um homem bastante experiente nestas andanças da guerra, pertencia a um grupo de milícias conhecidos por OPVDCA (Organização Provincial de Defesa Civil de Angola), que tinha chegado há poucos dias do Onzo uma antiga roça de café perto de Nambuangongo cuja segurança era mantida por aquela força, este homem de cerca de quarenta anos, de raça branca mas de cor muito morena, pintou-me um quadro bastante negro e tenebroso daquela zona, na altura pensei que talvez exagerasse nas suas descrições, no entanto o medo e a incerteza começavam a tomar lugar na minha cabeça.
No contacto que procurava manter diariamente com os militares chegados do mato, começava a inteirar-me da enorme magnitude e horrores desta guerra esquecida. Na véspera da minha partida para o mato encontro-me com um soldado, que me relata que a sua companhia estacionada perto da fronteira Norte em Buela, próximo de São Salvador do Congo, tinha sofrido no anterior mês de Junho de 1972 uma tremenda emboscada, que causara sete mortos e treze feridos, entre os quais ele próprio e, que agora ao fim de vários dias de internamento no Hospital Militar de Luanda se encontrava a aguardar transporte para regressar de novo á sua companhia e ás agruras da guerra, estava bastante traumatizado psicologicamente e eu ouviu-o com atenção durante várias horas em que ele me caracterizou bastante bem o ambiente de incerteza, sofrimento e solidão em que viviam os nossos solados espalhados por estes lugares esquecidos da selva Angolana.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cuvelai

Cuvelai no distrio do Cunene, Sul de Angola. Local no fim do mundo, onde eu e os meus camaradas da C.Caç.3386 passamos algum tempo da nossa juventude, continua a sofrer com as brutais inundações.
Eis aqui a noticia de hoje 19 de março de 2010 pulicada no Jornal de Angola.
O nível das águas das cheias do Cunene está a descer nas localidades mais afectadas pelas chuvas e as populações sinistradas, sobretudo no Cuvelai, enfrentam agora o atraso na chegada de alimentação, medicamentos, tendas e chapas, para reconstruir as casas dos desalojados. Os acessos por terra são impossíveis. Abastecimentos só por via aérea, mas faltam combustíveis para os helicópteros. Mas aos poucos tudo volta à normalidade. O problema é que ainda há muitos dias de chuva pela frente.


Agora que parou de chover são mais visíveis os estragos que as chuvas torrenciais causaram ao município do Cuvelai. Na comuna de Mukolongondjo foram atingidas 321 famílias, 15 quimbos e 34 casas desabaram. Dezenas de lavras estão inundadas e as plantações perdidas. Cinco escolas foram inundadas e o material didáctico ficou destruído.

Na comuna do Cubate as cheias desalojaram 453 pessoas e inundaram 186 lavras. O número de casas destruídas aumentou, mas ainda não foram divulgados os números oficiais pelos responsáveis da Protecção Civil.

Kalonga é também uma zona afectada pelas cheias. Os Bombeiros informaram que 455 pessoas foram desalojadas e 30 quimbos ficaram submersos pelas águas. Em Kalonga,17 casas, uma escola e uma igreja foram destruídas. Neste momento, estão 203 alunos sem estudar.

As cheias ainda amedrontam as populações do Cunene, porque o tempo ainda é de chuva. O sol brilha sobre o Cunene mas a qualquer momento podemos ouvir “o barulho dos tambores de São Pedro”, que é a chuva torrencial a bater nos telhados.

E sempre que chove, as populações da zona do Cuvelai sofrem, porque o rio transborda. Está lá a fonte principal de todas as inundações, mesmo depois da construção de alguns diques de protecção. A ponte de pedra, construída em 1961, até agora tinha resistido às cheias mas desta vez não aguentou.

As águas em fúria do rio Cuvelai conseguiram fazer um buraco bem no centro da ponte, o que impede a circulação automóvel. A ponte precisa urgentemente de uma reabilitação, porque já constitui uma via de risco, principalmente para os camionistas, que passam sobrecarregados de pessoas e bens. As populações que vivem nos arredores da ponte do rio Cuvelai, estão mais informadas sobre os perigos de pescar e nadar. Apesar de haver crianças que continuam a nadar nas águas barrentas, indiferentes ao perigo. Durante o dia, a área está a ser controlada por oficiais da Polícia Nacional para evitar que crianças e adultos se exponham a perigos.

Manuel Alegre em Nambuangongo

O poeta e deputado Manuel Alegre, antigo combatente em Nambuangongo voltou a este lugar mítico.
Para seguir esta viajem e, ouvir a declamação pelo proprio, in loco, do seu famoso poema " Nambuangongo meu amor"
clicar em:

http://www.youtube.com/watch?v=NJDKGHaSP08

Tambem se pode ouvir a magistral interpretação de Paulo de Carvalho, cantando o mesmo poema em:

http://www.youtube.com/watch?v=CTHsvb7OyNQ&feature=related

sexta-feira, 12 de março de 2010

A minha primeira viagem pela selva Angolana

MIKE
Ás três horas da manhã já eu me encontrava ao portão da M. M.(Manutenção militar),
ataviado com um cinturão e respectivos carregadores, arma G3,um saco verde enorme que fazia de
mochila e que continha dentro tudo o que eu fisicamente possuía naquele momento: esferográficas,
cartas, fotos e pouco mais.
Todo este material era completado por um par de botas reluzentes e um camuflado ainda mais
brilhante e que teimava em não se adaptar ao corpo de tão novo que era e que os “velhinhos”
reconheciam ao longe como sendo de um Mike (maçarico), até o próprio boné de tanta goma que tinha
ficava encarrapitado na cabeça deixando ver a pele branca da cara, pele inconfundível de um Mike,
que mesmo quinze dias de licença de mobilização passados nas praias da Caparica, não conseguiram
disfarçar e fazer passar à cor bronzeada que caracterizava um velhinho das matas de Angola.
O M.V.L. (Movimento de Viaturas Logísticas) partiu às 4 horas da manhã, a azáfama foi
grande durante toda a noite e provavelmente também o havia sido nos últimos dias.
Ultimaram-se os últimos preparativos para a partida dessa imensa coluna de dezenas e dezenas
de camiões, uns civis fretados pelo exército, outros militares que partiam habitualmente de 15 em 15
dias, levando o apoio logístico, rumo ao norte, pela chamada “estrada do café ”, que se internava pelos
“Dembos” até à capital da guerra, “Nambuangongo”, onde esta enorme serpente se dividia, seguindo
uma coluna mais para norte, pelo interior da densa selva até “Quipedro” e outra em direcção ao pôrdo-
sol até “Zala”, percorrendo a famigerada picada, que passava pela temível e de má memoria curva
do “bico de pato”.
As viaturas iam ficando pelos respectivos aquartelamentos onde eram descarregadas e esperavam
novamente pêlo regresso da coluna que ia engrossando de novo de volta a Luanda.
Dirigi-me ao comandante da escolta, dizendo-lhe que tinha ordens para me apresentar em
Nambuangongo, este apontando com o dedo, disse
- Pode-se ir acomodando naquela “berliett” - dirigi- me para lá.
Sentado ao lado do condutor encontrava-se um soldado armado até aos dentes. Ele era só fitas
de balas e granadas penduradas por todo o corpo, pensei para comigo, aqui devo ir seguro, disse- lhe
- Bom dia.
O condutor mandou-me seguir para a caixa
de carga, lá dentro já se encontravam duas mulheres
da tribo “Quicongo”, cada uma delas continha uma
trouxa feita de pano muito colorido igual ao que
habitualmente este tipo de mulheres enrolava na
cintura até à altura dos seios.
Seguia também connosco um soldado, o
completo oposto de mim, pensei para comigo, um
“velhinho” pela certa.
Envergava um camuflado velho, cossado e
algo rasgado, com um forte e grande bigode preto,
estava deitado com a cabeça em cima do seu saco,
igual ao meu, só que muito mais velho e sujo,
cinturão com 4 carregadores e a arma G3 que jazia
ao seu lado, voltei a dizer bom dia, mas ele fingindo
passar pelas brasas nem me respondeu.
Os” hunimoges” com a tropa da protecção
começaram a tomar posição, também chegaram
alguns “chaimites”dos “Dragões” que se distribuíram estrategicamente pela coluna.
Ás 4 horas em ponto aquela imensa fila de viaturas pôs-se em movimento. O meu companheiro
de viajem abriu os olhos, mirou-me e voltou a fechá- los, eu pensei, já lhe cheirou que eu sou um”
Mike”.
Rapidamente saímos de Luanda, depois de uma breve paragem no “controle”, assim se
chamavam as entradas e saídas de Luanda, que nessa altura se encontrava cercada por uma rede com
arame farpado.
Continuamos a rodar bem até para lá do “Caxito” onde terminou a estrada alcatroada e começou a
picada, os solavancos da camioneta atiravam com o meu companheiro de um lado para o outro o que o
obrigou a sentar-se, abriu novamente os olhos e mirou tudo à sua volta, pegou na G3, passou-lhe um
pano, puxou a culatra duas ou três vezes para se certificar que estava em condições, meteu uma bala na
câmara, colocou a patilha em posição de segurança e apertou-a entre os braços contra o peito
mantendo o cano virado para a picada.
As horas passaram, pelo meio da manhã, depois de algumas paragens técnicas para que a
coluna não se desmembra-se muito, o meu companheiro abriu a boca pela primeira vez e dirigindo-se
às mulheres, que provavelmente não o entendiam.
- Estão a ver estes dois grandes “embondeiros”, são conhecidos como as portas da guerra,
daqui para a frente, todo o cuidado é pouco. Compreendi imediatamente que a mensagem era para
mim.
A partir desse momento fiquei a magicar naquelas palavras e nessas duas enormes árvores.
Afinal eu estava a entrar nas portas da guerra. Estávamos a 6 de Agosto de 1972 dia do aniversário em
que fora lançada há vinte e sete anos atrás, a primeira bomba atómica para terminar com a guerra entre
Americanos e Japoneses, a “litle boy”.
E que guerra era esta para a qual eu me dirigia, que até tinha uma capital?
Talvez, fosse uma filha dessa guerra. É que às vezes as guerras maiores deixam filhas mais
pequenas…a minha mente estava num turbilhão de pensamentos, sem respostas.
Desperto destes pensamentos com um salto enorme da “Berliet”num dos vários buracos da
picada, que me fez saltar das mãos a G3,que eu apertava com imensa força. Era como se eu anda-se à
deriva no alto mar e a G3 fosse a minha única bóia de salvação
. Nesse momento, oiço a voz do meu cicerone, que continuava a narrar os locais por onde
íamos passando, sempre sem olhar para mim, mas eu sabia que era para mim que ele falava. Não havia
dúvida, ele estava a gozar a situação metendo-me medo, e estava a consegui- lo:
- Esta é a curva “mata alferes” – e contou – os turras deixaram uma carta no meio da picada, o
que levou a coluna a parar, um soldado recolheu a carta e entregou-a ao seu superior. No cimo daquele
morro encontrava-se um atirador furtivo que disparou certeiramente, matando de imediato aquele que
tinha recebido a carta.
Eu acabava de ouvir a história que dava o nome à curva por onde naquele momento passava.
Passados alguns momentos ouvem-se tiros na frente da coluna e o meu cicerone comenta:
- Não há problemas, são só o raio dos “Mikes”que nos vão a proteger, a fazer fogo de reconhecimento.
Mas os turras são espertos e mesmo que lá estejam emboscados não respondem, portanto, quando
passarmos por debaixo do morro, temos que estar alerta. - E continuou a falar – aqui nesta curva o meu
grupo de combate, que na altura fazia protecção ao M. V. L. teve duas baixas e eu fiquei com este
estilhaço no joelho, os gajos no Hospital Militar de Luanda não o quiseram tirar.
Transpirava por todo o lado, a humidade era muita, o pó levantado pelas viaturas colava-se por
todo o corpo e por tudo, as mãos transpiravam e tentava com elas manter limpa de pó a zona da culatra
da G3, o camuflado esse está agora mais teso, cheio de pó e encharcado no meu suor pegajoso.Penso,
se o tira-se nesse momento já seria capaz de se manter sozinho em pé.
O dia ia passando e a paisagem luxuriante e exuberante que vislumbrava era a da selva em toda
a sua grandeza e plenitude, por vezes passávamos por florestas completamente fechadas e quase
impenetráveis, em que a estreita picada parecia uma linha de comboio a entrar num apertado túnel,
com os ramos das árvores a bater-nos na cara, por outras, saíamos desse labirinto babilónico e
contornávamos morros carecas assim designados por serem desprovidos de arvoredo e repletos de
capim, nalguns sítios o capim era tão alto que quase atravessava a picada.
Entretanto o dia acabou por dar lugar à noite, naquelas latitudes o anoitecer é muito rápido e a
escuridão é como breu, medonha e horrorosa para um pobre “Mike.”.
Deu-se então uma nova paragem das viaturas
-Talvez seja alguma avaria ou pior – alvitra o meu companheiro – alguma “abatiz” (árvore
grossa cortada pêlo I.N. e atravessada na picada,). Estes motoristas são teimosos, sabem que têm que
apagar as luzes, mas não fazem caso, se os turras nos descobrem nesta medonha mata infernal,
estamos feitos, enqua nto eu tiver balas a mim não me levam eles.
Mais algumas pequenas paragens e de repente, do meio do nada, aparecem algumas luzes
mortiças em circulo
-Chegamos à “Beira Baixa” – esclarece o cicerone – eu fico por aqui, mas tenham cuidado com
a curva da morte, se fosse eu fazia-a a pé, sempre a pisar o rodado dos camiões por causa de alguma
mina – dito isto saltou com o saco ás costas e a G3 na mão dirigindo-se para dentro do recinto vedado
com arame farpado do aquartelamento.
As duas mulheres saíram umas dezenas de Kms mais á frente no “Onzo”.
Dei então por mim sozinho no estrado da “berliet”, só nos bancos da frente seguiam o
motorista e o tal soldado fortemente armado.
Então o medo que eu sentia transformou-se em pânico, continuei a transpirar abundantemente
passando continuamente as mãos molhadas pelo camuflado cheio de pó, suado e pegajoso.
Nambuangongo nunca mais chegava.
Enchi-me então decoragem e cheguei-me à frente da “berliet”, bati nas costas do soldado que   estava fortemente armado e humildemente  perguntei-lhe- Ainda falta muito para  chegarmos aNambuangongo? Este olhou-me de alto a baixo e gritou para o motorista-Olha pá! Temos aqui um“Mike” – o condutor sorriu e convidou-me a  sentar – me junto deles, jáque o assento corrido
  onde se encontravam dava para o condutor mais dois passageiros, claro que não me fiz de rogado, sentar-me com eles era precisamente o que naquele momento eu mais desejava.
Estava eu a acabar de me instalar quando o motorista aponta para umas luzinhas, lá num alto,
muito ténues a alguns Kms
-Ali está Nambuangongo, a Capital da Guerra, vamos poder descansar umas horas debaixo da
viatura e lá para o meio da manhã seguimos para Zala que fica a mais uns oitenta Kms.
Para mim, tinha chegado ao fim esta primeira viajem pelas tenebrosas matas Angolanas, de
cerca de 200Kms e que durara mais de 20 horas a uma media de cerca de 10Kms horários.
Á entrada de Nambuangongo, perto do posto de rádio, tendo ao lado esquerdo a capela, saltei da
“berliet”com o saco às costas e a G3 na mão.
E para meu grande espanto, os meus futuros colegas de transmissões, que já tinham recebido uma
mensagem de rádio a comunicar a minha chegada, para substituir uma baixa que tinham sofrido pouco
tempo antes, mas que nunca me tinham visto, reconheceram-me logo entre todos os soldados que
assim como eu também saltavam das viaturas. Não havia dúvidas, eu era um Mike, em toda a
plenitude da palavra.
Este episódio passou e agora eu já não devo parecer aquele “Mike”que saiu numa madrugada
de Luanda, com botas engraxadas e camuflado reluzente, no entanto, durante a minha permanência
Nambuangongo
nesta companhia que por tantas e tantas aventuras e desventuras passamos, eu fiquei sempre conhecido
como o Mike.
M. ALDEIAS
manuelaldeias@netvisao.pt

Calcorreando a savana


Após a força em que estava integrado ter sido considerada inoperacional, o que se deveu a diversas baixas e traumas sofridos na guerra no norte, tenho o privilégio de conhecer o extremo sul de Angola a cerca de 1600Kms de Luanda, junto à fronteira com a actual Namíbia, muito distante da guerra. Uma região de savana com um clima totalmente diferente, influenciado pelo vizinho deserto do Calaari, seco e árido, com temperaturas muito elevadas durante o dia e bastante baixas à noite.

Eu e o meu grupo estávamos colocados junto da ponte sobre o rio Cuvelai, um afluente da margem sul do grande rio Cunene, instalados em tendas de campanha a 200kms da pequena Vila Pereira De Eça, actual Ondjiva, na época capital da província do Cunene.
Naquela zona eram raros os aglomerados populacionais, tratava-se de uma imensa região pouco habitada, no entanto e à semelhança da restante Angola, era composta por inúmeras etnias e subgrupos étnicos todos pertencentes ao grande grupo Bantu, com afinidades linguísticas entre si.

Naquela zona a etnia prevalecente era constituída pelos cuanhamas, indivíduos de estatura bastante elevada e criadores de gado que se dedicavam à agricultura de subsistência e sobretudo ao pastoreio de gado bovino. Os cuanhamas tinham uma forte vocação guerreira, realizando ainda no princípio do século passado expedições de guerrilha e de saque sobre os seus vizinhos sobretudo os humbes e os ganguelas, espalhando o terror e a morte, capturando escravos e gado.
Todas estas e outras abomináveis histórias de horror eram-me contadas pelos mais velhos desta tribo, que eu ouvia com interesse apesar das dificultadas de comunicação, mas que não evitavam a boa relação que sempre procurei manter com estes povos.
Por sua vez a margem do grande rio Cunene era habitada pelos muilas, também eles criadores de gado bovino.
A característica que mais me marcou nas mulheres muilas foi observar de perto os seus penteados executados à base de estrume de vaca, fazendo-me recordar os elaborados penteados efectuados com terra vermelha e gorduras vegetais usados pelas mulheres Cokwe habitantes da Lunda Norte e que eu tive oportunidade de observar aquando das minhas longas viagens por todo o norte Angolano ao serviço da Força de Intervenção.
Dispersos pelo vasto sertão estes povos levavam uma vida bastante carenciada e primitiva, passando por necessidades e privações de toda a ordem. Estávamos no princípio dos anos setenta do século XX e como se deve compreender não existiam por estas isoladas e remotas paragens qualquer tipo de assistência medicamentosa, escolar ou de qualquer outra ordem.
Estas tribos habitavam dispersas pela vasta savana em quimbos familiares de construção muito simples, que eram constituídos por algumas palhotas delimitadas em círculo por uma alta cerca de paus a pique, onde também eram abrigados durante a noite os animais domésticos que assim ficavam mais a salvo dos leões e de outros animais selvagens que dividiam a savana com estas tribos.
Em volta destes quimbos era frequente verem-se alguns terrenos de cultívo onde praticavam uma parca agricultura de subsistência à base de uma variedade de milho-miúdo a que chamavam massango, estas pobres culturas eram por vezes invadidas pelos elefantes principalmente durante a noite.
Certa vez quando de uma das minhas habituais deslocações em patrulha auto, que geralmente tinham a duração de quatro a cinco dias e em que eu dormia debaixo da viatura militar, cheguei a assistir apavorado a uma destas incursões em que os indígenas faziam um imenso banzé com tambores e ostentavam tochas acesas para afugentarem os esfomeados animais, que respondiam com urros intimidantes e ensurdecedores ecoando pela noite escura da savana.
Também tive oportunidade de contactar com os Bosquimanes, os célebres intervenientes do conhecido filme “Os deuses devem estar loucos”, e que em Angola são conhecidos por Mukankalas ou Vassequeles, estes povos nómadas eram vítimas de segregacionismo pelos seus vizinhos negros que os perseguiam acusando-os de, entre outros factos, destes lhes roubarem o gado.
Estes pequenos e inofensivos nómadas vivem da caça e da recolha de raízes, mel e insectos. São de baixa estatura, muito vulneráveis, de cor amarelada, e nádegas proeminentes que segundo se diz constituem reservas de gordura para as épocas de escassez.
Uma das suas características que mais me chamou a atenção foi a sua forma peculiar e estranha de comunicação, que consiste numa grande variedade de sons com estalidos da língua, pelo que ouvia contar, esta comunicação era tão complexa que os outros povos das redondeza também eles exímios em falar as línguas vizinhas, não conseguiam apreender a forma de comunicar destes pequenos nómadas.
Recentemente li num jornal Angolano que estes povos estão em perigo de extinção em Angola, na província da Huila há apenas cerca de dez anos existia uma população de alguns milhares e agora estão apenas contabilizados perto de 200 indivíduos, os quais estão a ser alvos de uma ampla campanha de ajuda alimentar e medicamentosa por parte de algumas ONG, relata-se também que a diminuição dos seus terrenos ancestrais de caça, aliadas às doenças, fome e outras carências são as principais causas da brutal diminuição deste característico e emblemático povo que se julga ser o mais antigo de África.
Durante os nossos patrulhamentos pela imensa e remota savana levávamos como guia e interprete o Luandino, homem da tribo Cuamato, de idade indefinida, era bastante magro e de pequena estatura idêntica aos Bosquimanes, mas sem aquelas feições características, e de pele bastante mais negra, com uns dentes brancos de neve que mostrava generosamente nos seus rasgados sorrisos.
Entendia os diversos dialectos falados nesta vasta região e afirmava também falar Alemão. Órfão de pais desde muito pequeno, tinha sido recolhido numa missão Alemã, onde os missionários apenas falavam Alemão e poucas palavras de um dialecto que ele não conseguia precisar, era um exímio poliglota este nosso cicerone.
Ao fim de poucos anos passados na missão, fugiu da disciplina imposta pelos alemães e regressou à vida dura e penosa da sua tribo, mas também à ambicionada liberdade, construiu um pequeno quimbo onde vivia com as suas três mulheres e nove filhos.
Desde a nossa chegada a este paraíso vem-nos prestando os valiosos serviços de guia-intérprete, aproveitando para recolher todos os enlatados que nós rejeitamos para levar para os seus filhos.
Devido ao facto de eu transportar sempre junto a mim o rádio militar Racal TR28, o Luandino tratava-me carinhosamente por: Patrão Telefonia e cedo se apercebeu do meu interesse e fascínio por esta região virgem e pelos seus incrédulos habitantes, alguns deles foi com a nossa chegada que viram pela primeira vez homens brancos e vestidos de igual, montados em potentes cavalos berrantes. Luandino encarregou-se desde logo de satisfazer a minha curiosidade. Conversávamos imenso e fiquei com a ideia de que no final ele já se exprimia muito melhor em português, reciprocamente fui aprendendo várias palavras locais das quais ainda hoje recordo algumas.
Algum tempo após a minha chegada a estes longínquos lugares parto em patrulha auto num veículo militar de todo-o – terreno do tipo hunimog, após uma extenuante viagem de três dias pelos trilhos deixados pelos madeireiros e após o final destes, através das longas chanas sem arvoredo, apenas cobertas de um reles capim ressequido. Era já de noite quando chegamos a um modesto e isolado quimbo unifamiliar.
Extenuado e coberto de pó pegajoso preparava-me para passar a noite debaixo da viatura que me protegeria um pouco da friorenta humidade nocturna, quando repentinamente sou interrompido pelo Luandino que me diz:
- Patrão Telefonia, homem do quimbo quer que tropa com suas espingardas mate leão que anda comendo vacas.
-O que dizes? Ele pensa que somos caçadores? Retorqui!
Então o Luandino explicou-me que alguns leões quando chegam a velhos e não podem caçar, costumam atacar o gado, principalmente durante a noite, chegando a saltar as paliçadas.
Ficamos atemorizados, estávamos armados sim! Mas não com armas próprias para caça, e sem conhecimentos para enfrentar leões encurralados e na espessa escuridão da desconhecida savana.
Apavorado resolvi pernoitar no interior do quimbo, com o rádio e a arma G 3 a fazerem de almofada, pedindo à Virgem Maria que o leão não aparecesse. A longa noite, de perto de doze horas, foi muito fria, interrompida inúmeras vezes pelo gargarejar assustador e sinistro das irritantes hienas. A Virgem mais uma vez esteve ao meu lado e os raios de Sol finalmente começaram a penetrar a escuridão da infindável savana, sem sinal dos temidos e esfomeados leões.